Nova HQ do Capitão América debate racismo

É preciso estômago forte para enfrentar o roteiro da HQ Capitão América: A verdade — Vermelho, branco e negro, escrita por Robert Morales e com ilustrações de Kyle Baker. Em pré-venda pela Panini, o lançamento oficial da tradução acontece em julho, no mês em que é comemorada a independência dos Estados Unidos. Não que o teor da narrativa seja exatamente patriótico.

Em junho de 1940, antes do ataque japonês ao Pearl Harbor, Isaiah Bradley e sua esposa, Faith, aproveitam a “Semana dos Negros” no distrito do Queens, em Nova York. Eles estão em uma espécie de lua de mel. Naquele momento, por setenta e cinco centavos, compraram “o sonho da equidade por um dia inteiro”.

A abertura da história deixa claro o teor da narrativa, e as coisas vão daí para pior. Nas sete partes da trama, reunidas em volume único — nos EUA — em 2009, os bastidores sinistros do projeto que criou os supersoldados vêm à tona. Se a iniciativa deu origem ao Steve Rogers, o Capitão América mais conhecido, o que há por trás de todo esse esquema governamental é sinistro.

Detalhe da HQ Capitão América: A verdade — Vermelho, branco e negro, de Robert Morales e Kyle Baker.

Temas e linha do tempo

Não tem como entrar muito na história sem dar spoilers, mas é possível comentar o teor da narrativa. O roteiro não usa meias palavras para fazer um retrato do ambiente fortemente racista dos idos de 1940 nos Estados Unidos, com “soldados patriotas” se expressando das maneiras mais horrendas possíveis em relação aos negros. Até Adolf Hitler tem uma breve participação.

O desenvolvimento da trama se dá a partir do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, quando os Estados Unidos entram na Segunda Guerra Mundial. Daí para frente começam as conspirações e a realização de um projeto conduzido por debaixo dos panos, no que a paranoia, os segredos e as mentiras ganham protagonismo.

As cobaias para a iniciativa norte-americana — que pode ter tido uma ajudinha de um pessoal meio estranho —são 300 soldados negros. Eles são enviados para uma localização secreta e, cercados do que teoricamente seriam seus colegas militares, entram para a História — ou não, já que o apagamento de certas situações é mais benéfico à sociedade de mentira que os poderosos criam — de uma forma trágica.

Apesar das barbaridades, a HQ também presta homenagem a figuras icônicas que lutaram por seus direitos e são símbolos fortes da cultura pop. Spike Lee, Muhammad Ali e Malcolm X são algumas das que aparecem de relance ou são mencionadas na história.

Universo Cinematográfico Marvel (UCM)

Se você não está familiarizado com os desdobramentos de Capitão América: A verdade — Vermelho, branco e negro e não é fã de spoilers, pare aqui.

A Marvel Studios avança em seu projeto de criar uma gigantesca e sólida narrativa em seu Universo Cinematográfico, e quem assistiu à série Falcão e o Soldado Invernal, disponível na Disney+, sabe que Isaiah Bradley, interpretado por Carl Lumbly, tem um papel importante na história.

Carl Lumbly interpreta Isaiah Bradley na minissérie Falcão e o Soldado Invernal.

Esses elementos que vêm dando mais “seriedade” e peso nas discussões sociais envolvendo os super-heróis parecem estar guiando os rumos do UCM. É o caso de WandaVision, já comentada pela Bienal 360º.

Apesar de não abordar questões raciais, a minissérie trouxe uma produção de cair o queixo, com episódios que emulam sitcoms norte-americanas, um clima constante de paranoia e situações que mostram como os traumas podem ser destruidores. Para Peter Jordan, do canal Ei Nerd, “WandaVision soa mais adulto do que qualquer outro filme do UCM”.

Tudo indica que as produções vão seguir por esse caminho. 

>>>

Capitão América: A verdade — Vermelho, branco e negro
Robert Morales e Kyle Baker
Panini
168 págs.