Nos bastidores da enigmática WandaVision

O público do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) já sabe como a banda toca: os 23 filmes disponíveis até o momento conversam entre si, formando uma narrativa gigantesca — iniciada em 2008, com o Homem de Ferro, interpretado por Robert Downey Jr., e que ganha novos rumos com o desfecho da minissérie WandaVision, produzida pela Disney+, cujo nono e último episódio vai ao ar nesta sexta-feira (5 de março).

Na enorme saga da Marvel Studios, um longa-metragem remete a outro, normalmente repleto de easter eggs (elementos de ligação escondidos nas criações), e os acontecimentos do trabalho mais recente vão ditar os rumos do próximo, mudando radicalmente ou não o tom das produções.

Os oito episódios de WandaVision lançados até agora tendem mais para a primeira opção: o UCM deve passar por uma guinada radical após a conclusão da série que traz Elizabeth Olsen no papel de Wanda Maximoff e Paul Bettany na pele do sintozoide Visão — definido por Tyler Hayward, diretor da S.W.O.R.D., como a “arma inteligente mais sofisticada já feita”.

Para processar tanta informação e tentar compreender quais caminhos o UCM vai tomar, a Bienal 360º ouviu os youtubers Peter Jordan, do Ei Nerd (11,4 milhões de inscritos), Michel Arouca, do Série Maníacos (224 mil), e Mikannn, que mantém um canal homônimo com meio milhão de inscrições. Pela natureza da discussão, vale lembrar que a continuação desta matéria contém spoilers.

Recapitulando

Para compreender os acontecimentos de WandaVision é preciso retomar o caos gerado por Thanos em Vingadores: guerra infinita (2018). No filme, o “Titã Louco” reúne as seis Joias do Infinito — objetos que conferem ao seu dono poderes como os de um deus — e, com um estalar de dedos, dizima metade da população da Terra.

Um desses artefatos ficava na testa de Visão, um androide feito do metal fictício Vibranium e com emoções humanas. Quando a pedra amarela é removida de sua cabeça por Thanos, o super-herói morre — tudo sob o olhar de sua esposa, Wanda Maximoff (ou Feiticeira Escarlate), uma das desaparecidas após o gesto do vilão.

Sendo assim, o estranhamento é grande quando, em WandaVision, o espectador se depara com os personagens que dão nome à série vivendo tranquilamente em um formato de narrativa que emula as sitcoms norte-americanas, inicialmente com episódios em preto e branco. As pistas de que há algo errado, no entanto, vão se insinuando cada vez mais — e os bastidores, literalmente, vão sendo revelados.

Os acontecimentos estão calcados em uma realidade pós-Vingadores: ultimato (2019), no qual Tony Stark, Hulk, Capitão América, Homem-Aranha e companhia conseguem reverter o estalo de dedos de Thanos ao voltarem no tempo, fazendo com que as pessoas, incluindo Wanda, reapareçam no mundo.

Como Visão foi morto antes da ação do inimigo, no entanto, ele permanece morto — sendo esta uma das origens da angústia de sua esposa, que irá, com seus poderes ocultos de Feiticeira Escarlate, simular toda realidade da cidade de Westview, na qual WandaVision se passa.

Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany), personagens principais da série WandaVision.

O slogan do município fictício não poderia ser outro: Home: it’s where you make it [Lar: é aquele que você cria]. E fica claro, com o passar dos episódios, que esse castelo é de areia: começa a desmoronar conforme a agência de contraterrorismo e inteligência S.W.O.R.D. vai desvendando a ilusão, muito por conta dos feitos da doutora Darcy Lewis (interpretada por Kat Dennings) — responsável por descobrir que os sinais emitidos pela ilusão criada por Wanda remontavam a radiação do Big Bang, o que é um indicativo dos poderes da personagem.

Tudo sob controle?

Não é difícil perceber como o clima é de constante paranoia, em uma narrativa repleta de referências do UCM e que parece elevá-lo a um patamar mais “adulto”, com uma pegada quase pynchoniana [em referência ao escritor norte-americano Thomas Pynchon] — quanto mais informações são adicionadas, mais caos é gerado.

“A série é sobre os traumas da personagem, como o luto e a solidão, fazendo uma analogia incrível para eles. Qualquer adulto já sofreu algum trauma parecido na vida e com certeza vai se identificar com a fase de negação da Wanda. Tudo ali é sobre os sentimentos dela”, explica Peter Jordan.

Peter Jordan, do canal Ei Nerd: “A série é sobre os traumas da personagem, como o luto e a solidão”.

É movida por essas dores que Wanda, mãe de dois filhos imaginários, forja toda uma cidade cujos habitantes são reais, mas controlados pelo seu forte poder mental — chamado Magia do Caos, que lhe confere o título de Feiticeira Escarlate e, nos quadrinhos, é herança do deus Chthon.

Trata-se de um tipo seminal de poder que nem devia existir na Terra e que provavelmente será logo percebido pelo Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), personagem que dará seguimento à narrativa de WandaVision no filme Doutor Estranho no multiverso da loucura, previsto para março de 2022.

Cada episódio da série mais assistida do momento mimetiza um estilo diferente de sitcom, formato pelo qual a anti-heroína era obcecada quando criança e assistiu à morte de seus pais na Rússia, atingidos por mísseis fabricados pelas Indústrias Stark — o império bilionário criado pelo pai do Homem de Ferro.

“A Marvel ousou muito em trazer essa dinâmica”, comenta Jordan. “Essa mistura de referências de sitcoms antigos com quadrinhos, e com o próprio MCU, deixou a série perfeita. Foge da receita de sempre onde uma ameaça surge e o herói tem que salvar o mundo.”

Os acontecimentos do último episódio apontam para uma clássica batalha entre forças opostas, possivelmente entre a bruxa Agnes, que foi vizinha da protagonista durante todo o tempo, o Visão do mundo real (reconstruído pela S.W.O.R.D, em oposição ao Visão simulado por Wanda) e a própria responsável por toda bagunça.

Para o apresentador do canal Ei Nerd, “WandaVision soa mais adulto do que qualquer outro filme do UCM”. Essa visão é um pouco diferente da dupla Michel Arouca e Mikannn, que assinam as respostas em dupla: “Achamos que pode ser considerado um produto família, como toda base da Disney, mas sim, eleva o UCM”.

Michel Arouca, do canal Série Maníacos: “Pode ser considerado um produto família, como toda base da Disney”.

O que vem por aí?

“Estou com a expectativa de que a Wanda perca novamente o controle dos poderes na batalha contra Agnes, ou após acontecer alguma coisa com seus filhos, e o resultado disso chame a atenção do Doutor Estranho”, arrisca Jordan.

“A Wanda é uma bomba de Magia do Caos ambulante e, enquanto ela não tiver um treinamento para aprender a controlar seus poderes, o que aconteceu em Westview pode acontecer no resto do mundo, quem sabe em todo o Universo”, completa.

Para Arouca e Mikannn, o desfecho do episódio oito aponta para algo grandioso, “a ponto de afetar o multiverso. Quem sabe pode ser a abertura no véu do espaço-tempo, que vai ditar a trama do próximo filme do Doutor Estranho”.

Mikannn acredita que WandaVision pode “ditar a trama do próximo filme do Doutor Estranho”.

De fato, a gravação do longa mencionado está confirmada e acontecendo. Em entrevista recente ao talkshow do Jimmy Fallon, a atriz Elizabeth Olsen contou estar trabalhando seis dias por semana nas gravações de Doutor Estranho no multiverso da loucura.

Na mesma conversa, quando questionada a respeito do que os fãs podem esperar do final da série, Olsen disse: “É um final Marvel”, referindo-se à estratégia do estúdio de responder às questões imediatas de fãs mas deixar outras abertas, para que o bilionário UCM continue funcionando.

Seja como for, a criação mais recente da Disney traçou uma linha: “Não existem mais filmes de super-heróis, são filmes com super-heróis”, diz Jordan. E continua: “Com o sucesso da série, eu diria que os próximos filmes podem seguir essa direção, mas não só essa. Tá aí a magia desse universo de heróis, seguir vários caminhos. Você pode pegar super-heróis e fazer uma comédia, um romance, um filme de ação, um drama”.