Nos 90 anos de Umberto Eco, “O nome da rosa” ganha nova edição

Somente um escritor muito culto e habilidoso poderia fazer de um romance denso, com discussões filosóficas aos montes, um best-seller mundial. Esse autor é o italiano Umberto Eco, que em 2021 completaria 90 anos — ele nasceu em janeiro de 1932 e morreu em fevereiro de 2016.

Por conta da data, a editora Record lança uma nova edição de O nome da rosa, o best-seller “improvável” citado no primeiro parágrafo. Sai também A passo de caranguejo — Guerras quentes e o populismo da mídia, volume de ensaios sobre política contemporânea ainda inédito no Brasil, publicado originalmente em 2006.

Mas, claro, a cereja do bolo dos lançamentos é mesmo O nome da rosa, que foi escolhido pelo jornal francês Le Monde um dos 100 melhores romances do século 20. A mais recente edição da Record é a 17a publicada no Brasil desde 1980, quando a obra foi originalmente lançada em italiano. Isso demostra a força da história, que se mantém gerando interesse em novas gerações de leitores no país.

O texto foi revisado pela tradutora Ivone Benedetti, incorporando modificações feitas pelo próprio Umberto Eco em 2012. A grafia dos nomes históricos foi uniformizada, ajustando às peculiaridades da língua lusófona, e o volume conta com um glossário das citações em latim para os leitores brasileiros. No início do volume também há uma curiosa retrospectiva que mistura a vida de Eco com acontecimentos literários e políticos no mundo.

Umberto Eco, autor de O nome da rosa. Foto: Sergio Siano

O enredo

Eco já era um respeitável semiólogo na Universidade de Bolonha quando escreveu seu romance mais famoso. O nome da rosa é um romance de detetive (daí o fascínio de tantos leitores no mundo) passado num mosteiro medieval italiano, tendo como pano de fundo o debate franciscano sobre a pobreza.  

No livro, o autor utiliza um roteiro policial, no estilo de Conan Doyle, que se desenvolve na última semana de novembro de 1327. No mosteiro, paira a suspeita de heresia, e para a investigação é enviado o frei Guilherme de Baskerville. Porém, a delicada missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. Marcada pela ironia de Eco, a narrativa é repleta de mistérios com símbolos secretos e manuscritos codificados.

A mistura entre uma narrativa de detetive, com crimes a desvendar, escrita de uma forma simples, aliada a uma enxurrada de referências históricas e cultas, fez do livro um êxito internacional. 

O nome da rosa, pode-se dizer, é uma espécie de “pai” de thrillers policiais e históricos, a exemplo de O código Da Vinci, arrasa-quarteirão do começo dos anos 2000 que guarda similaridades com a obra de Eco, porém sem o brilhantismo intelectual do autor italiano.

À época do lançamento, Eco declarou que sua inspiração foi a “mera vontade que tinha de envenenar um monge”. O nome da rosa foi adaptado em 1986 para o cinema, com direção de Jean-Jacques Annaud e Sean Connery no elenco. Assim como o livro, o filme também foi um sucesso.

Cena da adaptação cinematográfica de O nome da rosa.

Múltiplo Eco

Umberto Eco era um intelectual à moda antiga, que poderia ser classificado como “completo”. Foi filósofo, medievalista, semiólogo, crítico literário e midiólogo, além, claro, de um autor de ficção e ensaísta de sucesso.

Ele trabalhou como editor de cultura no canal de televisão RAI, onde se envolveu com a cena cultural do país. Eco também ficou conhecido por ser um leitor voraz, mais voraz do que seria comum em se tratando de um intelectual comprometido. Ele costumava dizer que em uma vida não poderia fazer todas as leituras que desejava.

O escritor dividia seu tempo entre um apartamento em Milão, onde tinha uma biblioteca de 30 mil volumes, e uma casa de veraneio perto de Rimini, em que ficavam 20 mil exemplares.

É realmente curioso que seu romance de estreia tenha feito tanto sucesso. Ao jornal inglês The Guardian afirmou que escrever era apenas uma atividade secundária. “Sou um filósofo, escrevo romances nos fins de semana.”

Além de O nome da rosa, ele escreveu outros romances de sucesso, como O pêndulo de Foucault, A ilha do dia anterior, Baudolino, A misteriosa chama da rainha Loana, O cemitério de Praga e Número zero.

Compre o livro na loja Bienal Rio

O nome da rosa
Umberto Eco
Trad.: Homero Freitas de Andrade e Aurora Fornoni Bernardini
Record
588 págs.