Nos 20 anos da morte de Jorge Amado, o que ler do autor baiano

O Brasil de 20 anos atrás, quando Jorge Amado morreu (em agosto de 2001), era bem diferente do país que temos hoje — em inúmeros aspectos. Muito mais diferente ainda era o país de quando o escritor baiano começou a publicar seus livros, no início dos anos 1930.

Ainda assim, sua literatura segue dialogando com o presente, principalmente em relação às questões sociais, que sempre foram diluídas em sua literatura “popular”. Jorge Amado era político, mas nunca esqueceu das boas tramas, com muita paixão, sexo e um olhar atento sobre os costumes.

“Seu legado reside na capacidade de inventar personagens e histórias, fazendo com que leitores possam se envolver em epopeias e dramas”, diz a biógrafa do autor, a também baiana Joselia Aguiar (leia entrevista completa).

Nos primeiros 15 anos de sua carreira, Amado foi um autor comprometido com seus ideais políticos, pois era um “comunista de carteirinha”. Nessa fase, escreveu livros importantes, com personagens que encarnavam os dois lados da luta de classes, como no caso do ainda muito lido e comentado romance Jubiabá. Nele, o escritor cria um de seus personagens mais emblemáticos, entre tantos que deu vida: Antônio Balduíno.

Ele nasce órfão no morro do Capa-Negro, que tinha como grande referência espiritual o centenário feiticeiro e ex-escravo Jubiabá. Depois de uma infância de liberdade e pequenos delitos nas ruas de Salvador, num ambiente similar ao que seria desenvolvido em Capitães da areia, vira malandro, sambista e desordeiro, até ser transformado em boxeador profissional por um empresário italiano.

Nesse livro, publicado em 1935, Amado já trabalha vários elementos que estariam na sua futura e extensa obra. Um deles é a questão das religiões de matriz africana. Vale lembrar que o autor baiano tinha apenas 23 anos quando Jubiabá foi publicado.

E é interessante notar como ainda hoje, mais de 80 anos depois da publicação do livro, essas questões ainda são motivo de tensão na sociedade brasileira. Jubiabá, portanto, representa a força da cultura afro-baiana contra a opressão política e as injustiças sociais.

Paulo Coelho e Jorge Amado na Bienal do Livro Rio de 1995.

Trajetória

  • Nasceu na Bahia, em 1912
  • Aprendeu a ler com a mãe, que lia para ele notícias de jornais
  • Era formado em Direito, mas nunca advogou
  • Era militante do Partido Comunista e foi preso por conta disso
  • Foi casado com a também escritora Zélia Gattai, com quem teve dois filhos
  • Costumava passar temporadas na França, onde tinha apartamento e escreveu alguns de seus livros
  • Era amigo de celebridades como o pintor Pablo Picasso e o filósofo Jean-Paul Sartre
  • Em 1961 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras

A vida de Jorge Amado

Jorge Amado cresceu na Bahia, na plantação de cacau do seu avô. Lá, se familiarizou com a duplicidade que marcaria sua obra: a machismo e a promiscuidade dos ricos fazendeiros e a passividade das mulheres, fiéis aos seus homens.

Desde menino dava pistas de sua personalidade forte. Aos 12 anos, fugiu do internato onde foi colocado pelos pais e foi para Itaporanga, em Sergipe, onde morava seu avô. Depois de alguns meses, seu pai mandou buscá-lo.

O menino, porém, recusou-se a voltar para a escola e foi plantar cacau. Depois de seis meses no meio do povo, tomou conhecimento da luta entre fazendeiros e exportadores de cacau, que iria marcar fortemente sua obra de romancista.

Já em Salvador, onde fez o curso secundário, se envolveu com um grupo de “renovação literária” chamado “Academia dos Rebeldes”. Com apenas 14 anos ele já dirigia o jornal A Pátria. Por conta de sua atividade política, se exilou na Argentina, Uruguai, França e República Tcheca, em diferentes períodos das vida.

O que ler

1ª fase

Cacau (1933)
Jubiabá (1935)
Mar morto (1936)
Capitães da areia (1937)
Terras do sem-fim (1943)

2ª fase

Gabriela, cravo e canela (1958)
A morte e a morte de Quincas Berro d’água (1959)
Dona Flor e seus dois maridos (1966)
Tenda dos milagres (1969)
Tocaia grande (1984)

Obra

A obra do autor se divide em duas fases bem distintas. A  primeira, política, com livros como O país do carnaval, sua estreia, Suor, Cacau, Mar morto, Capitães da areia e Jubiabá. No começo dos anos 1940, Amado escreveu também uma biografia do poeta Castro Alves, autor de O navio negreiro

No final dos anos 1950, a literatura do autor sofre uma guinada. Com Gabriela, cravo e canela ele dá início a uma segunda fase em seu trabalho, em que predomina a crônica de costumes, marcada por tipos populares, poderosos coronéis e mulheres sensuais. Esses tipos foram ainda mais popularizados por conta das adaptações para o cinema e a TV, que fizeram grande sucesso. 

Livros como Dona Flor e seus dois maridos, Tereza Batista cansada de guerra e Tenda dos milagres tornaram Amado um best-seller. Mais do que isso, com personagens marcantes e histórias envolventes, que flertavam com o folhetim da televisão, Amado deu a “cara” do Brasil mundo afora, já que seus romances foram traduzidos em mais de 50 idiomas e dialetos, editados em 55 países. O Brasil, durante décadas, foi a literatura de Amado.

Compre os livros na loja Bienal Rio

Jubiabá
Jorge Amado
Companhia das Letras
306 págs.

Capitães da areia
Jorge Amado
Companhia das Letras
296 págs.

Gabriela, cravo e canela
Jorge Amado
Companhia das Letras
336 págs.

Tenda dos milagres
Jorge Amado
Companhia das Letras
320 págs.