No aniversário de Drummond, biógrafo escolhe cinco poemas marcantes do autor mineiro

Há duas grandes certezas na literatura brasileira: a de que Machado de Assis é nosso maior escritor e de que Carlos Drummond de Andrade foi o mais importantes dos nossos poetas. Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira, Minas Gerais, ele se tornou um poeta popular ao dar vida a poemas ao mesmo tempo sofisticados e simples, em que o cotidiano quase sempre está no centro de tudo.

Seu livro de estreia, Alguma poesia, lançado em 1930 com tiragem de apenas 500 exemplares, é composto por vários poemas que se tornaram célebres. É um hit atrás do outro:

“Poema de sete faces” (Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo), “Infância” (Meu pai montava a cavalo, ia para o campo/ Minha mãe ficava sentada cosendo/ Meu irmão pequeno dormia/ Eu sozinho menino entre mangueiras/ Lia a história de Robinson Crusoé) e “No meio do caminho” (No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho).

Mas a obra de Drummond é imensa. Por isso, neste Dia D., como os fãs costumam se referir à data de nascimento do poeta, a Bienal 360° convidou Humberto Werneck, que está escrevendo a biografia de Drummond, para indicar seus cinco poemas preferidos do escritor mineiro (o biógrafo  indicou apenas os poemas, as informações dos textos são da Bienal).

“Chega a ser maldade pedir que recomende apenas cinco poemas de Drummond”, diz Werneck. “O jeito é bater de primeiríssima, para não pensar no que ficou de fora, e sem justificar as escolhas, pois aí seria necessário algo muito mais difícil, justificar também as ausências…”

Carlos Drummond de Andrade, autor de poemas que estão no imaginário popular.

O cinco poemas preferidos de Humberto Werneck

A máquina do mundo (Claro enigma, 1951): Esse poema faz parte do sétimo livro de Carlos Drummond de Andrade. Longo para os padrões modernistas, o poema parte da ideia de que o mundo é uma máquina, e a partir dali, com toques metafísicos e em tom pessimista, o texto discute como funcionam as engrenagens dessa máquina e os fundamentos da vida.

Dissolução (Claro enigma, 1951): “Escurece, e não me seduz/ tatear sequer uma lâmpada./ Pois que aprouve ao dia findar/ aceito a noite”. Abrindo a coletânea Claro enigma, o poema apresenta ao leitor diversos temas que serão recorrentes ao longo do livro, como questões paradoxais, filosóficas e metafísicas.

Claro enigma
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras
144 págs.

Destruição (Lição de coisas, 1962): O título do poema já dá o tom do que virá: trata-se de um poema sobre o amor, mas não de uma maneira “romântica”. Drummond oferece as várias faces do amor ao leitor, com toda a sua dualidade: “Os amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se veem/ um se beija no outro, refletido/ dois amantes que são? Dois inimigos”.  

Lição de coisas
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras
144 págs.

Humberto Werneck está escrevendo a biografia de Drummond.

A flor e a náusea (A rosa do povo, 1945): Um poema de revolta e esperança. Assim é “A flor e a náusea”, presente em um dos livros mais celebrados de Drummond. “Vomitar esse tédio sobre a cidade/ quarenta anos e nenhum problema/ resolvido, sequer colocado/ nenhuma carta escrita nem recebida.” Mas, apesar da revolta que impregna o poema, há espaço para certo otimismo: “Uma flor nasceu na rua!”.

A rosa do povo
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras
200 págs.

Os ombros suportam o mundo (Sentimento do mundo, 1940): Aqui mais uma vez Drummond reflete sobre o mundo e a urgência da vida diante da realidade. “Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?/ Teus ombros suportam o mundo/ e ele não pesa mais que a mão de uma criança./ As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios/ provam apenas que a vida prossegue/ e nem todos se libertaram ainda.”

Sentimento do mundo
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras
88 págs.

Humberto Werneck é jornalista e escritor. Autor de O desatino da rapaziada (1992), O santo sujo — A vida de Jayme Ovalle (2008) e O espalhador de passarinhos & outras crônicas (2010). Está escrevendo a biografia de Carlos Drummond de Andrade, que será publicada em 2022, pela Companhia das Letras.