Nietzsche para todos: como o filósofo alemão virou pop

O filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) parece enfrentar, nas redes sociais, uma situação semelhante à de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês do qual a Bienal 360º já falou: é muito comentado, mas às vezes mal compreendido.

Por isso que hoje (15 de outubro), no aniversário do homem famoso por suas posições polêmicas e bigode vistoso, é uma boa oportunidade para revisitar alguns dos principais conceitos de seu trabalho e entender que, na verdade, a luta dele foi por dizer sim à vida, e não pular em um poço de desilusão.

As artes sempre foram centrais na trajetória de Nietzsche, sobretudo a música. Ele foi amigo íntimo do compositor Richard Wagner, com quem estreitou laços em 1869, e dessa convivência surgiu uma das principais noções do trabalho filosófico do alemão: a da Vontade de Poder, que seria uma espécie de forma de nortear a vida após a conclusão de que “Deus está morto”, segundo sua sentença mais famosa e reproduzida. Mas o que tudo isso quer dizer?

Para Nietzsche, filólogo de formação e livre-pensador ao longo da vida, as noções da filosofia de Platão — autor da “Alegoria da caverna”, na qual o grego divide o mundo entre sensível e inteligível, criando uma noção ideal de vida inatingível — já não bastavam para dar conta do que é existir. O cristianismo, com a pregação da bondade e suas imposições, também estava obsoleto. O pensamento de Arthur Schopenhauer, “pai do pessimismo”, era igualmente descartável, pois não oferecia nenhuma solução ao problema da falta de sentido da vida, era somente um atestado inútil de nulidade: “nada faz sentido”, trocando em miúdos.

Tudo bem, mas e agora?

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

A trajetória de Nietzsche

  • Nasceu no vilarejo de Röcken, na Alemanha, em 15 de outubro de 1844
  • Seu pai, Karl Ludwig Nietzsche, morreu aos 36 anos
  • Dedicou-se à poesia antes da filosofia
  • Tornou-se doutor, pela Universidade de Leipzig, sem prestar exame
  • Lecionou filologia clássica por uma década, entre 1869 e 79, tendo assumido o cargo aos 24 anos
  • Foi estudioso do filósofo Schopenhauer e amigo íntimo do compositor Richard Wagner, com os quais rompeu e se tornou severo crítico
  • Não se casou nem teve filhos
  • Sua afirmação mais famosa é “Deus está morto!”
  • Viveu os 11 anos finais de sua vida entre o manicômio e a casa da mãe, Franziska Oehler
  • Morreu em 25 de agosto de 1900, aos 55 anos, após um longo período de doença (acredita-se que foi uma sífilis não tratada)

Liberdade

Para Nietzsche, a única forma de escapar às ditaduras do pensamento em vigência, comentadas mais acima, seria rompendo com tudo que veio antes. É assim que, em uma parábola do livro A gaia ciência (1882), quando sua forma de pensar já estava bem “afiada”, ele decreta: “Deus está morto!”.

Não se trata da morte de uma figura caricata, aquele Deus do céu com barba branca que criou e zela pelo ser humano, mas da aniquilação dos ídolos e valores que conduziram a sociedade até aquele momento. De acordo com o filósofo, afinal, a moral do homem estava ultrapassada.

O choque inicial, quando se considera que “Deus morreu” e os valores pregados pelos homens são insuficientes, conduz ao vazio. É justamente a partir do vazio, no entanto, que surge a oportunidade de se reerguer e cultivar uma existência pautada no conhecimento mais autêntico, não mais meramente repetitivo — tanto que o próprio Nietzsche, após lecionar por uma década na Universidade de Leipzig, compreendeu que o modelo acadêmico não bastava para saciar sua sede de saber.

Principais livros de Nietzsche

Niilismo

Quando se pensa em “niilismo”, esse termo da moda, não se deve relacioná-lo ao vazio ou à falta de sentido, mas à potência de criar a partir da negação — Deus morreu, isto é, os ídolos deixaram de existir, então é necessário preencher esse vazio. Não é sobre entregar-se ao nada, mas encontrar novas formas de conduzir a vida.

Uma existência niilista, pelo que é possível concluir ao ler a obra do filósofo, tem muito de contemplação, liberdade de pensar livremente, apreciação das artes, ser combativo sempre que necessário e estar em constante movimento, sem jamais deixar-se engazopar pelos supostos saberes absolutos, por mais que essa liberdade toda possa ser difícil de aguentar. “É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”, anota Nietzsche em Assim falou Zaratustra (1883).

Não é à toa que o próprio filósofo era muito dado às caminhadas e prezava pelo ar puro. Sua figura é muito distante daquele pensador caricato, fechado em um quarto escuro e escrevendo de forma hermética, com conceitos e termos que ninguém entende — ou precisa quebrar a cabeça para entender, para se conectar com um palavreado que nada tem de prático. A Nietzsche, tudo indica, filosofia (conhecimento livre) e vida deveriam andar de mãos dadas, uma potencializando a outra.