Ney Matogrosso: a liberdade de ser quem você é

Dono de uma das vozes mais icônicas da música brasileira, Ney Matogrosso completou 80 anos de idade em meio ao caótico período pandêmico, consumido pela tristeza com relação à dor das centenas de milhares de famílias enlutadas e revoltado com o descaso governamental do país.

“Para fugir da loucura, algo que sempre o assombrou, passou a ouvir mantras, ler mais livros e seguir uma rotina de alongamento, ginástica e musculação”, escreve o jornalista e crítico musical Julio Maria no livro Ney Matogrosso: a biografia, recém-lançado pela Companhia das Letras. 

A obra acompanha a trajetória de Ney desde 1958, quando de sua adolescência turbulenta em uma vila militar, assombrado pelo comportamento rígido de seu pai, o sargento Antonio Matto Grosso Pereira, até o momento em que o frontman dos Secos & Molhados toma a primeira das duas doses da vacina AstraZeneca, em 1º de março de 2021.

Nesse intervalo de tempo, muita história foi resgatada. Para dar conta de tantas décadas, em uma biografia com mais de 500 páginas, Maria realizou quase duzentas entrevistas e conversou incontáveis vezes com o próprio Ney, é claro, entre 2016 e este ano. O processo todo durou cinco anos.

Ney Matogrosso descobriu que seu lugar seria nos palcos desde a primeira vez que pisou em um. Foto: Leo Aversa/Divulgação

A escolha

Logo depois de finalizar a biografia Elis Regina: nada será como antes, Julio Maria estava em busca de um novo personagem — e Ney Matogrosso, que ele tinha entrevistado quando ainda estava trabalhando no livro sobre Elis, se mostrou uma ótima opção. Antes de tudo, um pacto precisou ser firmado: o biografado não poderia interferir no andamento do texto.

“O Ney não teve nenhuma ingerência sobre a biografia”, conta o jornalista em entrevista à Bienal 360º. “Ele participou dando depoimentos, até me ajudando a achar algumas pessoas e fornecendo documentos”, continua, reiterando que desde o início o biografado entendeu que aquele não seria um livro para falar bem dele ou algo do tipo, e assim o trabalho foi concluído.

Informações e curiosidades

  • Ney Matogrosso cresceu em uma vila militar
  • Descobriu que seu lugar seria nos palcos desde a primeira vez que pisou em um
  • Teve um intenso relacionamento amoroso com Cazuza, que foi esmorecendo devido ao abuso de drogas por parte do líder do Barão Vermelho
  • Pelo álbum Feitiço, de 1978, ganhou o Troféu Villa-Lobos de melhor cantor
  • No mesmo período, seu cachê médio por show era estimado em 250 mil cruzeiros
  • Foi responsável direto pelo enorme sucesso da banda RPM
  • Participou dos três meses do processo Fischer-Hoffman, uma espécie de regressão para extirpar os traumas pela raiz
  • Envolveu-se profundamente com o santo-daime
  • Em um dos rituais, proferiu o que seria o mantra de sua vida: “Não preciso de amor de pai nem de amor de mãe. Eu posso viver sozinho e quero que todos se fodam”
  • Depois de rodar o Brasil por 14 meses, parou de fazer shows em 2020 devido à pandemia

Liberdade

Se por muito tempo Ney Matogrosso precisou aguentar o comportamento castrador de seu pai, “um militar orgulhoso de suas funções e de bravura exaltadas por superiores”, conforme trecho da biografia assinada por Maria, o que o artista cultivou mais tarde parece ter sido um apreço absoluto pela liberdade.

“Tão livre quanto a sexualidade é o pensamento de repertório do Ney”, pondera Julio Maria, que relaciona a importância do artista para o cenário musical com a maneira afirmativa com que ele se posicionou durante toda a carreira, sem dar o braço a torcer para modismos ou dinheiro. E isso considerando um período muito “serotizado” da música, conforme explica Maria, com rockeiros de um lado e gente da MPB do outro, sobretudo nos anos 80.

“Essa falta de obediência do Ney à estética dos gêneros musicais é algo tão contestador quanto seu físico”, diz o biógrafo. O jornalista ainda lembra que as misturas e experimentações às quais o artista se propunha — rock com salsa, fado, disco music, arranjos de música latino-americana acústica — podiam dar errado às vezes, mas esse não é o ponto principal.

Julio Maria, autor de Ney Matogrosso: a biografia. Foto: Reprodução/Instagram

Ser quem você é

O que Ney queria não podia ser comprado com dinheiro. E esse ponto ficou mais que claro quando, após o sucesso dos dois primeiros discos dos Secos & Molhados, ele resolveu sair da banda. “Para mim, a grande qualidade do Ney, e o que passei a admirar muito, foi a capacidade de fazer aquilo que ele realmente acreditava”, conta Julio.

É possível que a carreira de Ney tenha sido menos abrangente devido à sua determinação por fazer aquilo que sempre quis, sem nunca ter se tornado um cantor romântico ou mais pop, por exemplo, mas — ainda segundo Julio Maria — há um ensinamento mais relevante para tirar disso tudo.

“A grande briga do Ney foi pela liberdade de ser quem você é”, explica o biógrafo. “Nos shows, nos discos, nos amores, no jeito de cantar, no repertório, cada nota, cada letra que ele cantou — ele fez o que quis. É uma lição para levar na nossa vidinha, no dia a dia: lutar por aquilo que a gente acredita.”

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Ney Matogrosso: a biografia
Julio Maria
Companhia das Letras
512 págs.