Não entre em pânico: um guia para o Dia da Toalha

No Dia da Tolha, comemorado em 25 de maio, é essencial que o fã da “trilogia de cinco livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, criada pelo inglês Douglas Adams (1952-2001), não entre em pânico. E, claro, não esqueça de ter em mãos sua própria toalha — “um dos objetos mais úteis para um mochileiro interstelar”, de acordo com o primeiro volume da série de ficção científica que acompanha, entre outros personagens, o terráqueo Arthur Dent, o robô maníaco-depressivo Marvin e o alienígena Ford Prefect, nativo de um pequeno planeta próximo de Betelgeuse.

A data foi celebrada, pela primeira vez, há duas décadas. Em 25 de maio de 2001, duas semanas após a morte de Adams, os fãs estabeleceram que usar uma toalha seria a maneira de homenagear o criador dessa série que já foi veiculada em diferentes mídias — novela radiofônica, livro, disco, jogo de computador e audiovisual, sendo a maior das produções o filme lançado em 2005, com direção de Garth Jennings.

Hoje, vale lembrar, também é comemorado o Dia do Orgulho Nerd. Além de celebrar de maneira geral essa cultura em expansão, anteriormente relegada à margem, a data faz menção à estreia do primeiro filme da série Star Wars, que aconteceu em 25 de maio de 1977. A homenagem propriamente dita à saga que traz personagens como Darth Vader e Luke Skywalker, no entanto, acontece em 4 de maio — ocasião em que a Bienal 360º publicou o texto A força de Star Wars.

Douglas Adams: “Meu projeto de estimação era escrever algo que combinasse comédia e ficção científica, e foi essa obsessão que me lançou em um poço de dívidas e desespero”.

Nos bastidores d’O Guia

O ano é 1971, a vida é a real. Nos campos da cidade de Innsbruck, na Áustria, Douglas Adams é um mochileiro pobretão, daqueles que andam pedindo carona e dependem de informações duvidosas de terceiros. Ele está caído no chão, bêbado, e olha para o céu estrelado. O pensamento que lhe vem à mente, claro, é o de que seria mais fácil sair daquela situação lastimável se tivesse um guia galáctico em mãos. O seu Guia do mochileiro pela Europa, afinal, que serve somente para regiões existentes na Terra, não estava sendo exatamente útil.

Essa foi a primeira vez que a ideia de um guia de dimensões cósmicas lhe apareceu, e a realização do plano mirabolante aconteceu efetivamente às 22h30 do dia 8 de março de 1978, quando a BBC levou a novela radiofônica O Guia do Mochileiro das Galáxias ao ar.

A produção inicial, que traz particularidades com relação ao que veio a se tornar a série de livros, não chegava a pagar o almoço e foi ouvida, inicialmente, por morcegos — de acordo com relato de Adams em Algumas observações imprestáveis do autor, presente na edição definitiva da obra.

“Meu projeto de estimação era escrever algo que combinasse comédia e ficção científica, e foi essa obsessão que me lançou em um poço de dívidas e desespero”, revela o inglês no mesmo texto, com o estilo exagerado e estranhamente cômico que marca sua produção literária.

Neil Gaiman: “[Douglas Adams] deixou frases que nos fazem rir com gosto enquanto reorganizam a fiação do nosso cérebro. E fez parecer que era muito fácil”. Foto: Kyle Cassidy

Breve retrato do autor

A encomenda para que escrevesse livros com base na série radiofônica chegou por meio da inglesa Pan Books, e o primeiro de cinco volumes saiu em setembro de 1979. A coisa deslanchou — não sem que Adams quebrasse pelo menos uns dez prazos, em um comportamento que repetiria nos próximos anos.

É Neil Gaiman, autor de títulos como Coraline e Deuses americanos, quem dá uma pista de por que Adams era tão ruim com prazos: ele simplesmente não gostava de escrever. Ironicamente, tornou-se um romancista best-seller — o que combina bem com os absurdos criados pelo próprio autor.

No mesmo prefácio em que revela que o inglês não gostava de escrever, incluído na edição definitiva do Guia, Gaiman relata que seu ídolo, um homem “alto, muito alto”, “combinava um intelecto afiado e uma compreensão do que estava fazendo com a expressão encasquetada de alguém que havia ido parar em uma profissão que o surpreendia em um mundo que o embasbacava”.

O resultado dessa combinação, ainda segundo Gaiman, foi que Adams “deixou frases que nos fazem rir com gosto enquanto reorganizam a fiação do nosso cérebro. E fez parecer que era muito fácil”.

Cena do filme O Guia do Mochileiro das Galáxias (2005), dirigido por Garth Jennings.

O começo do fim

“A história do Guia do Mochileiro das Galáxias ficou tão complicada que eu contradigo a mim mesmo sempre que a conto, e quando finalmente acerto alguém repete errado”, anota Douglas Adams em Algumas observações imprestáveis do autor, referindo-se aos desdobramentos que fizeram com que a série tivesse versões em diferentes mídias. Nos livros, porém, a trama é consistente.

O primeiro volume, que traz o nome da série, começa em uma “quinta-feira terrível e idiota”. No prólogo da obra, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, descobre finalmente a solução contra a infelicidade da maioria dos habitantes da Terra, localizada na “região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia”.

A humanidade não tem a oportunidade de ter acesso à resposta — não por enquanto, e a que vem depois, descrita na sequência, provavelmente não será satisfatória. A chance de a garota mudar o rumo das coisas é interrompida quando Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho Galáctico de Planejamento Hiperespacial, anuncia a demolição da casa do terráqueo Arthur Dent — e de toda a Terra, em um processo de dois minutos, mais ou menos — para a construção de uma via expressa hiperespacial.

Douglas Adams: “A história do Guia do Mochileiro das Galáxias ficou tão complicada que eu contradigo a mim mesmo sempre que a conto, e quando finalmente acerto alguém repete errado”. Foto: Michael Hughes

O Guia do Mochileiro das Galáxias: enredo

Dent não quer deixar que sua casa seja destruída no primeiro volume. No processo, descobre que seu amigo Ford Prefect não é realmente um ator desempregado que penteia o cabelo ruivo para trás, mas sim nativo de um pequeno planeta próximo de Betelgeuse que está na Terra a fim de colher informações para uma edição atualizada d’O Guia do Mochileiro das Galáxias, para o qual trabalha.

A trama se desenvolve com os dois embarcando na nave Coração de Ouro, obviamente carregando suas toalhas e sem permitir que o pânico os domine (“Não entre em pânico” é a frase que estampa O Guia), deixando para trás o planeta prestes a ser destruído. No decorrer da história, entre outros ensinamentos valiosos, aprende-se que 42 é a Resposta Final à Questão da Vida, o Universo e Tudo Mais.

Completam a série os livros O restaurante no fim do Universo, A vida, o Universo e tudo mais, Até mais, e obrigado pelos peixes! e Praticamente inofensiva. Ainda há um sexto, chamado E tem outra coisa…, de Eoin Colfer, que não faz parte da pentalogia original.

O restaurante no fim do universo

A bordo da nave Coração de Ouro, equipada com um Gerador de Probabilidade Infinita, Arthur Dent está na companhia de Ford, já apresentado ao leitor, da humana Trillian, do ex-presidente da Galáxia Zaphod Beeblebrox, dono do veículo, e do robô maníaco Marvin, responsável por frases como: “Ah, a vida. Pode-se odiá-la ou ignorá-la, mas é impossível gostar dela”.

É de conhecimento popular que até alienígenas precisam comer, e melhor se for em um restaurante em que dá para assistir repetidamente ao começo e ao fim dos tempos. Depois de uma passada por esse ambiente de fina culinária, no qual o boi se oferece como jantar e é possível degustar o drinque Dinamite Pangaláctica, a trupe vai atrás do atual regente do Universo para tentar achar algumas respostas.

Exemplar da obra de Douglas Adams em inglês.

A vida, o Universo e tudo mais

Após uma sequência de eventos espaço-temporais, Arthur Dent está preso na Terra pré-histórica. Faz cinco anos. O episódio mais emocionante dos últimos tempos foi quando Wowbagger, um alienígena imortal que vive para insultar todos os seres vivos do Universo, chega ao planeta e diz a Dent que ele é um idiota, um completo imbecil. Dado o recado, parte em sua nave — e o protagonista continua sua rotina de, toda manhã, acordar berrando.

A modorra é quebrada quando Ford Prefect entra novamente na história, materializando-se naquele mundo perdido, e os dois amigos voltam a aprontar em diferentes regiões do cosmos, em uma trama que envolve o genocídio universal promovido pelos Krikkit, que estão furiosos por descobrir que não são os únicos seres vivos que existem, e o reencontro com o criador de planetas Slartibartfast.

Até mais, e obrigado pelos peixes!

Os golfinhos sumiram, deixando somente a mensagem que dá nome ao quarto volume da série. A Terra segue em seu devido lugar, e dentro dela está Arthur Dent. Tudo parece normal, exceto pelo fato de que tudo está normal: anos antes, afinal, o protagonista assistiu à destruição de seu próprio planeta e esteve em guerra com uma raça genocida de alienígenas.

Para entender o motivo dessa estranha normalidade, Dent se junta a Fenchurch (aquela garota que, certa vez, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, descobriu a solução contra a infelicidade da maioria dos habitantes da Terra) e vai atrás de informações cruciais: a CIA está por trás de tudo isso? Foi tudo uma grande alucinação?

Praticamente inofensiva

Neste desfecho, publicado originalmente em 1992 (oito anos depois de Até mais, e obrigado pelos peixes!), Arthur Dent ganhou fama como um bom fazedor de sanduíches em Lamuella. A história com Fenchurch, apesar de muito bonita, não terminou com “felizes para sempre” — e o protagonista vive resignado.

Em paralelo, o bom e velho amigo Ford Prefect está tendo dores de cabeça por conta da mudança de editora que publica O Guia do Mochileiro das Galáxias, para o qual trabalha, e Trillian, agora uma repórter famosa, está se dando bem em vários cantos do Universo.

Quando os três se juntam novamente, como o esperado, as situações mais absurdas vêm à tona — desta vez, parece, com uma mão crítica mais pesada do autor, que se despede da série que lhe deu fama mundial.

Detalhe do pôster de divulgação do filme de 2005.

Vinte informações, curiosidades e ensinamentos de O Guia do Mochileiro das Galáxias

  • O Dia da Toalha foi criado duas semanas após a morte do escritor inglês Douglas Adams, autor dos cinco livros de O Guia do Mochileiro das Galáxias
  • Em 25 de maio também é celebrado o Dia do Orgulho Nerd. Nesse mesmo dia, em 1977, foi lançado o primeiro filme de Star Wars
  • Os vogons chegam à Terra, a fim de destruí-la para a construção de uma avenida hiperespacial, em uma quinta-feira terrível e idiota
  • Uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, descobre por que a maioria dos seres humanos está infeliz, mas não tem a chance de transmitir a informação
  • A Terra está localizada na região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia
  • O Guia do Mochileiro das Galáxias, dentro do universo ficcional de Douglas Adams, era publicado sob a forma de um microcomponente eletrônico subméson
  • Nos manuscritos de Sobre a ejaculação precoce e as origens do Universo, poetas beat de Betelguese afirmam que o Universo tem 17 bilhões de anos, no mínimo
  • O número 42 é a Resposta Final à Questão da Vida, o Universo e Tudo Mais
  • O Pensador Profundo calculou durante sete milhões e meio de anos para chegar à conclusão de que a Resposta para a Questão da Vida, o Universo e Tudo Mais é 42
  • A Terra, que é um computador, foi construída para que se descobrisse a pergunta à Questão da vida, O Universo e Tudo Mais. A resposta é 42
  • De acordo com uma experiência breve de Ford Prefect e Arthur Dent, seis vezes nove é 42. E isso basta
  • A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interstelar
  • O Guia do Mochileiro das Galáxias é o mais extraordinário livro jamais publicado pelas grandes editoras da Ursa Menor
  • O Guia do Mochileiro das Galáxias vende bem mais que a Enciclopédia Galáctica
  • O mochileiro que carrega sua toalha em uma viagem interstelar claramente merece respeito
  • No Universo, um não mochileiro é conhecido como “estrito”
  • Marvin é um robô maníaco-depressivo, 50 mil vezes mais inteligente que um ser humano
  • Marvin fica cansado só de imaginar baixando seu nível intelectual ao de um ser humano
  • Os seres humanos se adaptam a tudo com muita facilidade
  • Não entre em pânico

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O Guia Definitivo do Mochileiro das Galáxias
Douglas Adams
Trad.: Carlos Irineu da Costa, Marcia Heloisa Amarante Gonçalves e Paulo Henriques Britto
Trad. do prefácio e introdução.: Leonardo Alves
Arqueiro
784 págs.

O Guia do Mochileiro das Galáxias — Edição ilustrada
Douglas Adams
Trad.: Carlos Irineu da Costa, Marcia Heloisa Amarante Gonçalves e Paulo Henriques Britto
Ilustrações: Chris Riddell
Arqueiro
320 págs.