Legados familiares, memória e pertencimento são temas retratados de maneira especialmente instigante na literatura negra contemporânea. Em sua edição histórica de 40 anos, a Bienal do Livro Rio reuniu as escritoras Yara Nakahanda Monteiro, autora de “Essa dama bate bué!” (Todavia, 2021), e Bianca Santana, de “Quando me descobri negra” (Fósforo, 2023) para um bate-papo necessário sobre a busca pela identidade, permeando semelhanças e diferenças entre Brasil e Angola, e a importância de compartilhar narrativas que elaboram o passado para transformar o presente.
Ao lado da mediadora Stephanie Borges no Café Literário, as autoras compartilharam suas jornadas até o pertencimento. Para Yara, uma mulher angolana criada em Portugal desde a infância, houve, por muito tempo, uma sensação de não ser parte do todo em ambos os países.
“Eu cresci na diáspora”, explicou. “Fui educada no sistema português e, apesar da minha família celebrar a história de Angola, minha educação formal foi toda baseada no ponto de vista do colonizador. Eu sinto o não-pertencimento em Angola, também em Portugal. Por isso eu digo que sou de onde estou.” Filha de angolana com português, ela costuma dizer que tem “tanto opressor, quanto oprimida” dentro de seu corpo.
Brasileira, Bianca contou que seu processo passou pela busca de repertório sobre o passado da população negra do país, desvinculado da narrativa oficial. “Eu sempre fui uma criança inquieta e me perguntava qual seria a perspectiva de quem havia morado na senzala”, disse. “Eu não sabia onde encontrar um livro que contasse essa versão, mas eu tinha certeza de que existia. É muito bom viver esse momento atual, em que enfim temos uma série de referências visíveis.”
Para Yara e Bianca, a diáspora se fortalece a partir da tecnologia, o que leva à construção de um “quilombo moderno”. “Basta ver aqui: nos conhecemos primeiro online, todas nós”, afirmou Yara. “Precisamos usar tecnologia de forma estruturada, com missão e objetivo. Ela pode ser bastante útil, mas também não podemos nos limitar.” Segundo ela, boa parte das pesquisas para “Essa dama bate bué!” foram feitas pela internet.
Para Yara e Bianca, suas obras podem servir como exemplo para novas autoras negras, que surgem através da troca de experiências. “Contar minhas histórias é abrir caminho para escutar as histórias das outras pessoas”, disse Bianca. Mas, para que as prateleiras sejam cada vez mais ocupadas por essas vivências, é preciso ter coragem. Por isso, as escritoras deram dicas para as iniciantes.
“O mais importante é não nos censurarmos”, recomendou Yara. “Aquilo que dói quando estou escrevendo, sei que vai doer ao leitor. Aquilo que me faz rir, sei que também fará ao leitor. A primeira regra, para mim, é: se eu tenho vergonha de publicar, é porque pode ser um bom caminho.”
Bianca defendeu a importância de compartilhar os textos, mesmo caso não estejam perfeitos. “É importante assinar seu nome no imperfeito, porque dá espaço para você ser ainda melhor um dia. A gente sobrevive aos livros ruins que lemos na vida, então, não tem problema escrever e publicar algo não tão bom.”
Yara destacou ainda que é fundamental ter cada vez mais pessoas estudando e escrevendo sobre as raízes africanas. “O esquecimento fez parte do projeto colonial”, refletiu a escritora luso-angolana. “Por isso falamos tanto em pertencimento — porque nos foi tirado a memória.”