Na HQ “Celestia”, Manuele Fior imagina um mundo pós-apocalíptico

Muitas dúvidas, uma ilha misteriosa — construída sobre a água há mais de mil anos — e o evento chamado “Grande Invasão”, do qual não se sabe muita coisa e que deixou o mundo em estado pós-apocalíptico (desértico, mas não em ruínas), compõem Celestia, a HQ mais recente do italiano Manuele Fior. Para o próprio autor, é seu trabalho mais ambicioso até agora.

Apesar de trazer elementos típicos de uma história de ficção científica, como telepatas e uma invasão possivelmente alienígena, a narrativa não está muito preocupada em explicar por mais A + B por que o mundo acabou daquele jeito: vazio, com grandes construções abrigando pessoas em terra firme e uma ilha habitada por criminosos e marginais. 

O objetivo da obra parece estar mais focado em analisar os possíveis caminhos e impasses do ser humano no futuro, com foco nos personagens Pierrô — um telepata e profeta, cujas falas sobre o futuro se assemelham a poemas — e Dora, a pessoa que irá escapar da ilha de Celestia para desbravar a terra firme com ele.

“Não se esquivem de ser desafiados por Manuele Fior”, dizem os editores da Pipoca e Nanquim, responsável pelo lançamento da obra no Brasil. “O leitor que for se aprofundar na leitura vai ser recompensado. A obra entrega e desafia mesmo. É muito boa.”

Manuele Fior, em 2011, no Festival de Angoulême. Foto: Wikimedia Commons

Comentários sobre “Celestia”

“Celestia” é uma revelação e um dos melhores quadrinhos que li este ano. O expressivo trabalho artístico e lindamente humano de Manuele Fior traz a antiga cidade de Celestia e seus muitos habitantes fascinantes à vida de maneiras que permanecerão com você por muito tempo após a leitura ter sido encerrada.
Jeff Lemire

Uma história assustadora de um conluio de telepatas, poetas proféticos e cidades belamente vazias, onde sonhos compartilhados podem conectar e isolar, pintada com ousadia e comovente em absoluto. Cada painel é uma obra de arte. 
Matt Kindt

Detalhe de uma página de Celestia.

Outros trabalhos de Manuele Fior

As HQs Cinco mil quilômetros por segundo e A entrevista, ambas lançadas em 2018, são dois outros trabalhos de Manuele Fior lançados no Brasil. As narrativas parecem boas prévias do que viria ser Celestia, haja vista que tratam de relacionamentos e, no caso da segunda citada, já entrava no universo da ficção científica e de telepatas.

Em Cinco mil quilômetros por segundo, uma relação adolescente começa com uma troca de olhares. Nem tudo sai como esperado, no entanto, e os amantes Piero e Lucia só voltam a se encontrar quando mais velhos. E, inevitavelmente, mais tristes. O foco da narrativa está no desencontro dos dois e nas muitas andanças que tiveram pelo mundo.

Já em A entrevista, o cenário é a Itália de 2048. Existem as figuras mais “ultrapassadas”, obsoletas em um futuro próximo, e as mais jovens — que parecem surgir como uma forma de esperança, em busca da criação de novos valores para uma sociedade cansada. Nesta ficção científica, a exemplo do que acontece em Celestia, a preocupação é com o ser humano e seus eternos embates existenciais.

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Celestia
Manuele Fior
Trad.: Michele A. Vartuli
Pipoca e Nanquim
276 págs.