Mulheres na poesia: nomes expressivos de ontem e hoje

A poesia é uma arte milenar. Historicamente, os versos têm importante função social e resistem como uma forma de pensar o mundo, e dar vazão aos sentimentos mais variados, artisticamente. A Bienal 360º não poderia deixar de fazer um breve recorte, portanto, de mulheres que influenciaram seus pares e conquistaram muitos leitores por meio de poemas.

Desde os antigos pergaminhos de Safo, nascida na ilha grega de Lesbos há mais de dois mil anos, passando por Ana Cristina Cesar, espécie de guia da produção contemporânea, até Angélica Freitas, que deu novos ares à poesia com Um útero é do tamanho de um punho (2012), a seleta abaixo oferece uma amostra da potência das mulheres na poesia.

Cinco primeiras poetas listadas, na ordem que aparecem abaixo.

Ana Cristina Cesar

Apesar de ter passado pela cena literária do século passado como um meteoro, a carioca deixou uma marca inconfundível e incontornável, já que sua influência é não raro citada na produção dos anos mais recentes. Autores clássicos também não deixam de festejar a poética da autora de Cenas de abril, Luvas de pelica e A teus pés, entre outros títulos marcantes, cuja obra está reunida pela Companhia das Letras. Para Armando Freitas Filho, por exemplo: “Ela não foi — ela fica — como uma fera”. E nas palavras de Heloisa Buarque de Hollanda, que “descobriu” a autora, Ana C. foi responsável por nada menos que “a melhor e mais original literatura produzida nos anos 1970”.

Poética
Ana Cristina Cesar
Companhia das Letras
504 págs.

Rupi Kaur

Nascida na Índia e radicada no Canadá, a poeta de 29 anos caiu nas graças do público já com seu primeiro livro, outros jeitos de usar a boca (2014). Nessa obra de estreia, ela estabeleceu um tom acessível para discutir temas urgentes, como violência e abuso contra mulheres, motivo pelo qual foi “acolhida” por muitos milhares de leitores ao redor do mundo. Em seu trabalho mais recente, meu corpo minha casa, Rupi Kaur elabora versos sobre autoafirmação e as nem sempre fáceis relações sociais. “eu não sou vítima da minha vida/ as experiências a que sobrevivi/ revelaram a guerreira que existe em mim/ e ser assim é minha maior honra”, diz um dos poemas.

meu corpo minha casa
Rupi Kaur
Trad.: Ana Guadalupe
Planeta
192 págs.

Hilda Hilst

Apesar de ter ficado conhecida por sua prosa erótica e experimental, a paulista começou nos versos — e de forma bem “artesanal”, com pequenas tiragens, poucas páginas e, acredite se quiser, sem grande entusiasmo do público mais amplo. O trabalho de Hilda vem sendo redescoberto há cerca de 20 anos, um pouco antes da morte da autora (2004), e se tornou um “estouro”: conquistou muitos fãs, ganhou homenagens em eventos expressivos e passou a receber a devida atenção da crítica. A antologia organizada pela Companhia das Letras, Da poesia, reúne mais de 20 livros.

Da poesia
Hilda Hilst
Companhia das Letras
584 págs.

Florbela Espanca

Assim como Ana Cristina Cesar, a portuguesa teve uma passagem meteórica pela poesia e partiu de forma trágica, aos 36 anos. Suas muitas questões existenciais, no entanto, não deixaram de render uma obra contundente, que correu à margem de seu tempo e hoje é festejada. Livros de mágoas, Livro de Sóror Saudade e Trocando olhares são alguns dos títulos reunidos na antologia da Global. 

Antologia poética
Florbela Espanca
Martin Claret
298 págs.

Jarid Arraes

Apesar de ter despontado no cenário nacional por meio da prosa, com Redemoinho em dia quente (2019), a premiada autora cearense já tinha ampla trajetória nos versos: são mais de 70 livros de literatura de cordel, só para se ter uma ideia. Introspecção e crítica social se combinam em sua produção poética, sempre preocupada em falar de questões como racismo, pessoas relegadas à margem e corpo feminino. “eu quero ouvir/ sobre as pequenas vidas/ os pequenos instantes/ de vida/ que ainda resistem/ aí”, dizem alguns versos presentes em Um buraco com meu nome.

Um buraco com meu nome
Jarid Arraes
Companhia das Letras
176 págs.

Quatro últimas poetas listadas, na ordem que aparecem abaixo; não há registro de Safo.

Angélica Freitas

Humor e perspicácia são marcas da produção da gaúcha, que estreou com os versos de Rilke Shake (2007) e ganhou atenção nacional a partir de Um útero é do tamanho de um punho, lançado há dez anos. Os versos de “uma canção popular (séc. XIX-XX), por exemplo, dão uma amostra de como a poética de Angélica funciona — combinando críticas sociais e cortes rápidos a certa oralidade e imagens fortes: “uma mulher incomoda/ é interditada/ levada para o depósito/ das mulheres que incomodam// loucas louquinhas/ tantãs da cabeça/ ataduras banhos frios/ descargas elétricas// são porcas permanentes/ mas como descobrem os maridos/ enriquecidos subitamente/ as porcas loucas trancafiadas/ são muito convenientes// interna, enterra”.

Um útero é do tamanho de um punho
Angélica Freitas
Companhia das Letras
96 págs.

Cecília Meireles

As quase duas mil páginas da antologia da Global, que tem texto de apresentação assinado por Alberto da Costa e Silva, atestam a relevância da poeta carioca. Ela estreou aos 18 anos, com Espectros (1919), e seguiu produzindo avidamente durante toda a vida — o que lhe rendeu visibilidade e muitos prêmios, como o Jabuti, por Solombra (1964), e o de Poesia Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL), por Viagem (1939). Romanceiro da Inconfidência, de 1953, costuma ser sua obra mais comentada e estudada em vestibulares ao redor do país.

Poesia completa
Cecília Meireles
Global
1956 págs.

Ana Martins Marques

O mundo de hoje e outros imaginados permeiam as páginas poéticas da mineira, um dos nomes mais comentados da produção contemporânea. Apesar de ter estreado há pouco mais de uma década, com A vida submarina, Ana Martins se consolidou como referência. O seu trabalho mais recente, Risque esta palavra (2021), é formado pelas seções A porta de saída, Postais de parte alguma, Noções de linguística e Parar de fumar. No início da obra, com uma “pegada” metapoética, a autora escreve: “Meu amigo,/ quase já não escrevo/ passo o dia sentada em algum lugar/ olhando florescer qualquer coisa que esteja/ posta diante dos olhos// com isso já vi morrer uma pedra/ e um cachorro enforcar-se/ numa nesga de sol// mas nada disso era uma palavra (…)”.

Risque esta palavra
Ana Martins Marques
Companhia das Letras
120 págs.

Ryane Leão

Que a literatura navega pelas redes, e com grande impacto, não é mais novidade — a Bienal 360ºmostrou isso detalhadamente. E a cuiabana Ryane Leão, radicada em São Paulo (SP), foi nessa mesma onda: estabeleceu um publico fiel no Instagram, onde lança “pílulas” poéticas, e partiu para os trabalhos impressos. Estreou com Tudo nela brilha e queima (2017), dedicado “às mulheres infinitas” e no qual atesta de início: “eu sou um monte de/ constelações/ brilhando e ardendo/ mas nem todo mundo/ sabe ver// ou só vê a parte que arde/ ou só vê a parte que brilha”. Após vender mais de 40 mil exemplares com seu primeiro livro, lançou Jamais peço desculpas por me derramar, dando continuidade a um trabalho que foca na resiliência das mulheres e na crença da força da arte e da educação.

Jamais peço desculpas por me derramar
Ryane Leão
Planeta
160 págs.

Safo

Não haveria melhor maneira de terminar do que dando um salto temporal imenso. Há mais de dois milênios, na ilha grega de Lesbos, Safo produziu um trabalho pioneiro — cantado com fervor no princípio, acompanhado da lira, e depois reunido em volumes. Na Biblioteca de Alexandria, por exemplo, foi incluída junto aos maiores poetas líricos gregos. A antologia da editora 34, que reúne textos completos e fragmentos, tem estudo introdutório de Guilherme Gontijo Flores, tradutor da obra, e outros paratextos que ajudam a entender a relevância dessa misteriosa poeta milenar.

Fragmentos completos de Safo
Safo
Trad.: Guilherme Gontijo Flores
Editora 34
640 págs.