Minorias ganham mais espaço nas HQs

Há tempos que as redes sociais têm sido aliadas da representatividade, ou seja, a representação de minorias ou grupos historicamente marginalizados — mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBTQIA+, entre outros movimentos — em ambientes ocupados por sujeitos que detêm os maiores privilégios sociais.

Esse salto de conscientização, que tem como caso emblemático a hashtag #OscarSoWhite (#OscarTãoBranco), para citar apenas um exemplo de movimentação virtual, parece se estender a uma mídia tão tradicional quanto a impressa — e, mais especificamente, às histórias em quadrinhos.

“Hoje em dia, sem dúvida, as minorias têm sido contempladas nas histórias em quadrinhos, mas ainda há um longo caminho que precisamos percorrer no que diz respeito à representatividade e ao espaço que damos a esses títulos nos catálogos das editoras”, afirma Talitha Perissé, editora de aquisição de livros jovens da Intrínseca.

Laerte Coutinho, uma das principais cartunistas brasileiras.

Diferentes cenários

Para Cassius Medauar, gerente editorial da Conrad, a representatividade está crescendo nas HQs brasileiras, mas esse movimento já podia ser observado com maior consistência nas produções norte-americanas das décadas de 80 e 90 — em Stuck Rubber Baby, por exemplo, do cartunista Howard Cruse, publicada nos EUA em 1995 e que trata de temas como homossexualidade e racismo.

No Brasil, Medauar cita Angola Janga (2017), de Marcelo D’Salete, sobre o Quilombo dos Palmares, e Cumbe (2016), do mesmo autor, que também aborda as lutas dos negros no período colonial.

A ilustradora Linoca Souza, nome artístico de Aline Bispo, também aponta D’Salete como um nome importante na representatividade racial. Já quando se pensa em LGBTQIA+, a artista fala em Bendita cura (2018), de Mário César, vencedora do Troféu HQ Mix de Melhor Web Quadrinhos.

Além disso, Linoca reitera a importância histórica das publicações independentes. “Hoje, felizmente, acredito que as ainda ditas minorias têm tido oportunidade de contar histórias abrangendo mais público, mas sempre estiveram presentes de certo modo no campo independente, em zines ou feiras literárias”, diz a responsável pela arte de capa do best-seller Torto arado (2020), de Itamar Vieira Junior.

Cassius Medauar, gerente editorial da Conrad.

Turma da Mônica, mutantes e o underground

Uma HQ que acompanha os brasileiros desde a década de 1970 figura entre as produções que, pioneiras, davam atenção à pluralidade. “Cresci lendo Turma da Mônica e era incrível ver uma menina como protagonista, se mostrando empoderada, sem falar na mensagem de união e de equidade”, diz Talitha Perissé.

Em uma linha mais underground, Cassius Medauar lembra a revista Chiclete com Banana, da Circo Editorial, espécie de marco contracultural da década de 1980. Glauco, Angeli e Laerte, todos de grande relevância na atualidade, são alguns dos nomes que participavam da publicação.

Já em uma linha mais popular, tanto Talitha quanto Medauar concordam que os mutantes de X-Men, criados pela Marvel, tinham uma mensagem importante. “Quando era criança, eu não conseguia entender por que aqueles heróis eram perseguidos, já que podiam fazer tantas coisas importantes para a humanidade”, diz a editora de aquisição da Intrínseca.

Detalhe do pôster de divulgação do filme Moonlight (2017).

A representatividade no mainstream

No mainstream, como em Hollywood, parece existir um movimento de maior inclusão das minorias — mesmo que todos os entrevistados pela Bienal 360º concordem que seja algo em processo, “longe de ser ideal”, segundo Medauar. O fato de ainda ser necessário discutir a pluralidade, afinal, indica que a questão não foi assimilada pela maioria.

“A meu ver, ainda falta muito para podermos afirmar que a questão da representatividade foi completamente assimilada. Enquanto todos nós tivermos que fazer um esforço consciente para priorizar narrativas plurais e com representatividade, diria que ainda há uma longa jornada pela frente”, pondera Talitha.

Nesse processo, não dá para esquecer que há muitas pedras no caminho. Linoca Souza lembra a importância do filme Moonlight (2017), que abrange a “experiência de pessoas pretas, gays e pobres nos EUA”, mas afirma que “ainda há um público que em parte é racista, homofóbico e com diversos preconceitos”.

Ainda na área do cinema, ela cita o filme nacional Tatuagem (2013), dirigido por Hilton Lacerda, que conta o romance entre um líder de grupo de teatro e um militar durante a ditadura, em uma narrativa que trata de diversas causas.

“Nunca é uma única causa, ou um único ponto. Sempre é possível que diversos pontos de vista se criem a partir de um eixo central, afinal, uma violência sempre traz outra junto”, reflete Linoca.

Dicas de HQs que trazem representatividade

Tina — Respeito
Fefê Torquato

Neste spin-off de Turma da Mônica, Tina — criada por Mauricio de Sousa — é uma jornalista recém-formada que começa a enfrentar a dura realidade das mulheres no ambiente de trabalho. Após realizar o sonho de fazer parte de uma redação, a personagem descobre que as maiores barreiras que precisará ultrapassar são as pessoais, e não profissionais.

Tina — Respeito
Fefê Torquato
Panini
96 págs.

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Fun home: uma tragicomédia em família
Alison Bechdel

Neste trabalho autobiográfico, a norte-americana explora a difícil relação que teve com o pai. Pouco após revelar à família que é lésbica, Alison recebe a notícia de que ele morreu — em um possível suicídio. A HQ conta a trajetória após o baque e como a autora descobriu algum alento nas artes, em uma narrativa permeada por memórias dolorosas.

Fun home: uma tragicomédia em família
Alison Bechdel
Trad.: André Conti
Todavia
240 págs.

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Carolina
Sirlene Barbosa e João Pinheiro

A trajetória da autora de Quarto de despejo (1960), que voltou à mídia com força total no século 21, é contemplada nesta narrativa gráfica. Esquecida por muito tempo, Carolina Maria de Jesus teve uma vida sofrida, de pobreza, e experimentou diversos sentimentos — até certa fama, quando o livro citado figurou na lista dos mais vendidos e ganhou tradução mais de 13 países.

Carolina
Sirlene Barbosa e João Pinheiro
Veneta
128 págs.

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Miss Davis
Sybille Titeux de la Croix

Símbolo do movimento negro e do feminismo, Angela Davis é uma das ativistas mais importantes dos Estados Unidos. Esta HQ acompanha a infância de Angela no Alabama, em meio à segregação e aos ataques da Ku Klux Klan, até a enorme mobilização dos anos 1970 para tirá-la da cadeia. O texto de orelha é assinado por Djamila Ribeiro.

Miss Davis
Sybille Titeux de la Croix
Ilustrações: Amazing Ameziane
Trad.: Jorge Bastos Cruz
Agir
196 págs.

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Laura Dean vive terminando comigo
Mariko Tamaki

Os relacionamentos tóxicos também têm sido bastante discutidos na atualidade. Nesta obra, Freddy Riley pensa que tem tudo resolvido quando começa a namorar com Laura Dean, a menina dos seus sonhos. Quando a primeira descobre que a segunda também pode ser insensível e cruel, no entanto, o cenário muda — e se inicia um vaivém conturbado, ao qual Freddy acaba se submetendo, mesmo que seus amigos não entendam o porquê de ela se submeter a isso.

Laura Dean vive terminando comigo
Mariko Tamaki
Ilustrações: Rosemary Valero-O’Connell
Trad.: Rayssa Galvão
Intrínseca
304 págs.

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A alma que caiu do corpo
André Toral

O quase sempre violento contato entre brancos e indígenas é retrato nesta HQ assinada por um quadrinista e antropólogo. Do século 17 até os dias atuais, os povos originários precisam encontrar maneiras de sobreviver às invasões de outras culturas. Para representar essa batalha, Toral não retrata os indígenas como vítimas ou perdedores, mas sim protagonistas de suas próprias histórias.

A alma que caiu do corpo
André Toral
Veneta
104 págs.