Memórias de Dave Grohl revisitam cenário musical dos últimos 30 anos

Se Dave Grohl escreveu sozinho suas memórias, sem a ajudinha básica dos tão comuns ghost writers do mercado editorial americano, ele está de parabéns. Além de lenda do rock — do underground e do mainstream —, ele é também um ótimo escritor.

O contador de histórias, lançado recentemente no Brasil pela Intrínseca, traz uma linguagem solta, muito parecida com o jeito de falar de Grohl, conhecido pela empatia e pelo “bom papo”. Rótulos como “o cara mais legal do rock” também costumam ser colados em sua persona.

Logo do texto de introdução, ele “conquista” o leitor com seu jeitão despojado de narrar, dando exemplos e criando metáforas simples sobre o que quer dizer. E a começar pelo subtítulo do livro (Memórias de vida e música), o leitor tem a certeza de que está diante de um homem obcecado por música e por seu trabalho.

“Desde pequeno, sempre medi a minha vida por parâmetros musicais, não por meses ou anos. Para me lembrar de um lugar ou de uma época específicos, minha mente se guia fielmente por canções, álbuns e bandas.”

No começo da narrativa, Grohl relaciona fatos corriqueiros — um pedido da filha mais nova para aprender a tocar bateria — ao que ele chama de “milagre do DNA”, lembrando de sua apresentação como baterista em um clube de jazz como forma de presentear sua mãe em seu aniversário. Ele atribui à mãe o amor que sente pela música. Aliás, foi Virginia Grohl, uma professora de ensino secundário, a grande incentivadora para que o filho largasse a escola para sair em turnê com sua primeira banda.

Dave Grohl, autor de O contador de histórias. Foto: Magda Wosinksa

Música

Grohl dilui bem as passagens sobre a família durante a narrativa, mas é a parte musical que mais interessa — de seu começo como fã de punk ao estrelato no rock de arena, lotando estádios com 40 mil pessoas mundo afora.

Alguns causos são hilariantes, como as turnês que enfrentou com a banda punk Scream, quando morava em uma van, dentro de um saco de dormir. Ou quando, por força do acaso (ou destino), tocou bateria com Iggy Pop, quando ainda era um baterista do underground enquanto Iggy… já era a lenda que é.

Mas claro que a cereja do bolo são as passagens em que Grohl fala sobre o Nirvana, a banda mais improvável a fazer sucesso mundial nos últimos 30 anos. Um grupo que conseguiu combinar metal, punk e uma melodia tipo Beatles e se tornou um marco no mundo da música underground — quase um milagre.

“O Nirvana estava sendo cortejado por todas as principais gravadoras numa guerra de lances, mas Kurt e eu literalmente estávamos passando fome e vivendo em absoluta miséria”, escreve sobre o começo do grupo, logo após o lançamento de Bleach, o álbum de estreia, ainda sem Grohl na bateria.

“Nosso apartamento na 114 NE Pear Street ficava nos fundos de uma casa caindo aos pedaços construída por volta de 1914 e tinha um quarto, um banheiro, uma sala apertada e uma cozinha do tamanho de um armário (ironicamente, o lugar ficava de frente para a sede da loteria estadual de Washington).”

Sucesso

E será que Dave Grohl tem estrela? No primeiro disco como baterista do Nirvana, ele grava Nevermind, um dos maiores álbuns de todos os tempos. Lançado em 1991, o disco, encabeçado pelo super hit “Smells like teen spirit”, desbancou Dangerous, de Michael Jackson, do primeiro lugar nas paradas americanas e vendeu 35 milhões de cópias no mundo todo.

É interessante ler as passagens sobre o disco, pois Grohl, com uma memória louvável, dá detalhes das gravações, feitas em poucos dias porque a banda não tinha dinheiro para muitas horas de estúdio.

“Eu estava me vendo na MTV. Não era Michael Jackson nem The Cars. Não era Madonna nem Bruce Springsteen. Não. Éramos Krist, Kurt e eu, tocando uma música que compusemos numa porra de um celeiro. Os relógios derretidos do Dalí não eram nada perto do surrealismo daquele momento.”

O livro, claro, traz também os dramas da vida de Grohl, como o suicídio de Kurt Cobain e a encruzilhada em que se viu após o fim do Nirvana. É quando Dave Grohl decide sair de trás da bateria, empunhar a guitarra e encarar o microfone. Ele criou o Foo Fighters, uma das bandas mais populares dos últimos 20 anos, que inclusive ultrapassou em vários aspectos o sucesso do Nirvana.

A leitura de O contador de histórias revela um personagem carismático, com uma vida extraordinária, mas feita de momentos comuns em sua maior parte do tempo — o que o faz mais próximo dos garotos que vão a seus shows de jeans e All Star surrados.

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O contador de histórias
Dave Grohl
Trad.: Alexandre Raposo, Jaime Biaggio e Leonardo Alves
Intrínseca
416 págs.