“Maus”, de Art Spiegelman, é imprescindível para entender o nazismo

Nazismo e Holocausto são temas que, por razões óbvias, exigem muita sensibilidade e cuidado quando retratados por artistas. Na HQ Maus, a primeira a vencer um Prêmio Pulitzer e que recentemente voltou ao topo da lista de livros mais vendidos, Art Spiegelman mergulha nesse doloroso episódio da História por meio das memórias de seu pai, Vladek, um judeu polonês que sobreviveu aos horrores de Auschwitz.

Publicada originalmente no início dos anos 1980, na revista de vanguarda Raw, a história em quadrinhos acabou compilada em duas partes — publicadas em edição definitiva, no Brasil, pelo selo Quadrinhos na Cia. O duro relato, que não esconde os conflitos que Art tinha com o pai, é divido da seguinte maneira:

  • Meu pai sangra história
  • O sheik
  • A lua de mel
  • Prisioneiro de guerra
  • O laço aperta
  • Buracos de ratos
  • A ratoeira
  • E aqui meus problemas começaram
  • Mauschwitz
  • Auschwitz (o tempo voa)
  • … e aqui meus problemas começaram…
  • Salvo
  • A segunda lua de mel

Além de não retratar o pai de forma “idealizada”, demonstrando como Vladek podia ser um homem cheio de defeitos (e cicatrizes, naturalmente), Spiegelman encontrou uma solução gráfica marcante para sugerir como as pessoas eram vistas no período do Holocausto: judeus são ratos e nazistas, gatos. Além disso, os poloneses não judeus aparecem como porcos e americanos se transformam em cachorros. 

Arte Spiegelman, autor de Maus. Foto: Chris Anthony Diaz

Polêmicas

Maus voltou ao topo da lista de livros mais vendidos após ser proibida em escolas dos Estados Unidos. A HQ foi considerada imprópria pelo conselho escolar do condado de McMinn, no Tennessee, no dia em que o Holocausto completou 77 anos. 

Não é a primeira vez que Spiegelman lida com situações controversas em relação ao seu trabalho. Em 2019, um ensaio que escreveu para o livro Marvel: The Golden Age 1939-1949  foi censurado por fazer menção ao presidente Trump. 

A Marvel pediu que o autor não chamasse o presidente de “Caveira Laranja”, em uma comparação ao maior adversário do Capitão América, mas Art não cedeu. O texto, que repassa a importância de quadrinistas judeus para o desenvolvimento das HQs, foi publicado no The Guardian

O que dizem de Maus

A narrativa mais comovente e incisiva já feita sobre o Holocausto.
Wall Street Journal

Um triunfo modesto, emocionante e simples — impossível descrevê-lo com precisão. Impossível realizá-lo em qualquer outro meio que não os quadrinhos.
Washington Post

Uma história épica contada em minúsculos desenhos.
The New York Times

Uma obra de arte brutalmente tocante.
Boston Globe

Detalhes e história

O traço caótico de Spiegelman, que optou por quadros reduzidos e muitos diálogos para contar a história de Maus, ajuda a dar um clima “sombrio” à HQ — sem contar, é claro, todos os outros detalhes já mencionados.

A manobra faz todo sentido quando se pensa que o trabalho foi feito inicialmente para uma publicação de vanguarda, a Raw, e se torna ainda mais interessante por ter vencido, em 1992, o Prêmio Pulitzer.

Em relação ao tom da história, iniciada em meados dos anos 1930, é possível fazer um paralelo com É isto um homem?, de Primo Levi. Ambas as narrativas, de forte teor memorialístico, não escondem as relações tensas — cheias de trapaças — entre os próprios prisioneiros e sobreviventes do Holocausto.

Uma das consequências mais duras, para Art, foi ter de conviver com o suicídio da mãe, Anja. O futuro autor de Maus tinha 20 anos quando a tragédia ocorreu. A partir daí, a cruz de Spielgelman é ter de lidar com o comportamento severo do pai, homem marcado por um dos episódios mais sangrentos e desumanos da História.

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Maus
Art Spiegelman
Trad.: Antonio de Macedo Soares
Quadrinhos na Cia.
295 págs.