Mauricio de Sousa, Gabriela Prioli e Jenna Evans Welch colorem sexto dia de Bienal

A quarta-feira na Bienal do Rio começou com uma grande estrela da cultura brasileira. O desenhista Mauricio de Sousa esteve no palco da Estação Plural para conversar sobre #Xôfakenews — Uma história de verdades e mentiras, escrito pela educomunicadora Januária Cristina Alves e ilustrado por ele. No livro, a Turma da Mônica Jovem, capitaneada por Tina, entra na cruzada pelo combate às fake news.

A conversa ainda contou com a participação da influenciadora digital Camila Coutinho e da jornalista Maria Clara Cabral, criadora da revista infantojuvenil Qualé, que mediou a conversa. Mauricio de Sousa, logo no início da conversa, lembrou que começou a carreira como jornalista, cobrindo a seção policial de jornais, e que esse conceito de fake news ainda estava longe de ser conhecido.

“Naquela época havia o que chamávamos de ‘imprensa marrom’, que divulgava mentiras. Mas era bem mais fácil de perceber. Hoje a tecnologia joga uma cortina de fumaça no público. E a quantidade de mentiras também é bem maior”, disse o autor.   

Primeira mesa do sexto dia de Bienal discute fake news e o novo trabalho de Mauricio de Sousa.

Segundo dados do UNICEF, um em cada três usuários da internet no mundo tem entre 0 e 18 anos. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019 aponta que 89% da população de 9 a 17 anos é usuária da rede. Esse enorme contingente de crianças e jovens está exposto a cada momento à toda sorte de informações falsas, gerando muita angústia e desinformação.

“Por conta dessa exposição, surgiu a ideia do #Xôfakenews, para ajudar a combater discursos de ódio, cyberbullying. E para isso, nada melhor do que a Turma da Mônica, personagens com grande vínculo com as crianças”, diz a autora Januária Cristina Alves.

Januária lembrou que em tempo de hiperconexão, a “educação midiática” se tornou fundamental, “na escola e nas famílias”. “Precisamos aprender a trafegar nesse mundo veloz da mídia. Todo mundo hoje é jornalista. Nossa responsabilidade é grande. E, desde pequenos, precisamos saber como é o modo de produção de uma notícia, a quem interessa sua veiculação, etc.”

Há mais de 60 anos escrevendo para o público infantil, Mauricio de Sousa publicou recentemente uma obra engajada na luta pelo meio ambiente. Sou um rio, ilustrado por Mauro Souza,  acompanha o percurso de um rio, desde seu nascimento, quando ainda é um filete de água, até o seu destino final, quando, já caudaloso, encontra o mar.

Ele revelou em primeira mão, durante o bate-papo na Bienal, que esse é primeiro de uma série de livros que deve escrever sobre o meio ambiente. “Estou sonhando com essa sequência de livros dedicados à natureza.”

Jenna Evans Welch e Tracy Deonn participam da mesa “O desafio de nos tornar quem somos”.

Tracy e Jenna

Autoras de grande sucesso, as americanas Jenna Evans Welch e Tracy Deonn falaram sobre vários aspectos de suas carreiras em um bate-papo intenso mediado pela também escritora Clara Savelli.

Jenna é autora de três romances, o mais recente deles Amor & azeitonas, uma deliciosa história sobre autoconhecimento passada na Grécia.

Tracy é a criadora de Lendários, fantasia apaixonante que une magia, mistério e sociedades secretas, cuja protagonista é a complexa Bree Matthews. Tracy deu detalhes sobre a escrita do livro, que é um sucesso no Brasil e nos Estados Unidos. “Eu me inspirei na minha própria experiência de vida. Perdi minha mãe muito cedo, assim como Bree, e isso certamente foi um gatilho para escrever o livro.”

Respondendo à pergunta que deu norte ao encontro, “Os desafios de nos tornar quem somos”, Jenna falou que desde crianças amava ler e que sabia que a escrita estava em seu caminho. “Ao 11 anos já havia lido todos os livros para crianças da biblioteca da escola. Então parti para as obra para adultos”, contou. “Mas me decepcionei, porque não encontrei histórias que dialogassem comigo. Então falei para minha mãe: ‘Um dia vou escrever livros que gostaria de ler’.”

Jenna e Tracy falaram que se veem refletidas nas suas personagens, em suas angústias, mas também na liberdade que elas têm de viver como querem. “Escrevo para jovens leitores porque acho que a adolescência é um período onde descobrimos que podemos fazer escolhas. É uma época difícil, mas também muito gostosa de nossas vidas”, diz Jenna, que passou um período na Itália e dessa experiência tirou a inspiração para Amor & gelato, outro de seus best-sellers. “Esse livro permaneceu 12 anos em minha mente”, revelou Jenna. 

As escritoras ainda falaram sobre suas influências e métodos de trabalho. Também comentaram sobre “que histórias precisamos contar agora”, tema que guia os debates na Bienal.

“As pessoas reavaliaram muitas coisas na pandemia. Fizeram muitas mudanças, de trabalho, casa, de postura diante da vida. Adoraria de escrever uma história de resiliência diante da mudança”, diz Tracy Deonn.

Gabriela Prioli é um dos destaques do dia.

A hora e a vez da política

Em tempos de polarização, mas também de abertura para novos modelos de pensamento e vivências, a política não poderia ficar de fora da Bienal do Rio. E ela está presente em todas as mesas — e no próprio evento em si, pensado como um ato de resistência. 

Na tarde desta quarta-feira (8), a advogada e apresentadora Gabriela Prioli, o ator Vitor diCastro e a influencer Bielo Pereira mostraram que “a política é pop” no Brasil atual. Autora do best-seller Política é para todos, Gabriela abriu o debate defendendo que é preciso descomplicar os discursos para que a política realmente seja para todos.

“Não precisa ter um discurso sisudo para falar de política. E também não se pode ficar preso a um assunto, porque falar de política é falar sobre poesia, empreendedorismo, beleza, literatura. Acho que, com minha linguagem mais pop, consegui esse diálogo.”

Criador do canal Deboche Astral, Vitor diCastro disse que aprendeu com Gabriela Prioli que “a gente pode muitas coisas”, e que a política tem que estar na nossa boca, “independente de quem somos”. “Sempre tem jeito para falar de política. Mas é preciso estar aberto ao diálogo, e ter um pouco de paciência para ouvir quem pensa completamente diferente de você”, diz.

Bielo Pereira lembrou o estado de coisas que vive o Brasil, e que é preciso se envolver sim nas questões no país, para que erros do passado recente não se repitam. “É preciso estar por dentro da política. Porque, caso contrário, teremos mais catástrofes como a que estamos vivendo agora.”

O desejo por menos intolerância religiosa fechou os encontros do dia.

Fé no futuro

O dia terminou com um encontro muito frutífero e democrático. O desejo de menos intolerância religiosa, mais respeito em relação às diferenças e a união entre os povos uniram Pedro Siqueira, Yalorixá Luana de Oyá, Pastor Henrique Vieira e o Rabino Lucca Myara.

Diferentes nas suas formações, os convidados enfatizaram logo de início suas crenças, mas sempre olhando com respeito para o contraditório.

“Há muito preconceito em relação às religiões de matriz africana. As pessoas julgam, sem saber, como o candomblé, por exemplo, funciona. E dentro de um terreiro, o que se quer é o amor, assim como na religião católica ou entre os evangélicos. O que se espera, portanto, é apenas respeito pela fé de cada um”, diz Luana de Oyá.

Relato parecido fez o Rabino Lucca Myara, para quem os judeus, apesar de gerarem curiosidade nas pessoas, ainda são alvo de estigmas. “Muita gente ainda tem na mente preconceitos arraigados por séculos de antissemitismo, mesmo sem conhecer de verdade um judeu.”

O pastor Henrique Vieira falou sobre a pluralidade do campo evangélico, o que muitas vezes torna confusão entre quem não está dentro da religião. “A intolerância tem a ver com a falta de respeito. E não dá conta da beleza da vida. Temos que superar a intolerância com o respeito. É preciso conviver e abrir o coração para reconhecer a fé do outro.”