Matt Haig imagina uma biblioteca entre a vida e a morte

O inglês nascido em Sheffield Matt Haig virou um grande best-seller por conta dos livros de não ficção que escreveu, tendo sua própria vida e seus percalços como ponto de partida. Sofrendo de depressão, Haig fez de sua dor substrato para uma escrita leve, que beira a autoajuda, mas que vai além do tom professoral e dos “ensinamentos” de gurus que escrevem guias.

Sua escrita autobiográfica o conecta com milhares de pessoas no mundo, que se identificam com suas histórias e pontos de vista. E, claro, sua habilidade como escritor o coloca em outro patamar.

Em Observações sobre um planeta nervoso, ele mostra, por meio de conselhos práticos, como tudo, por mais complicado que pareça, pode melhorar se mudarmos nossa perspectiva. E que as coisas passam e dias melhores vêm.

No livro, ele relaciona a quantidade de informações, imagens e interação virtual ao nosso dispor com nossa sensação crescente de cansaço, solidão e depressão. E, no fundo, tenta respostas sobre por que as redes sociais nos fazem tão mal.

Matt Haig, autor de A biblioteca da meia-noite.

Entre a vida e a morte

Também romancista de sucesso, Haig transpõe para a ficção conceitos e teorias que desenvolve em seus diversos best-sellers, como Razões para continuar vivo, em que discute suicídio. Por isso seu mais recente romance, A biblioteca da meia-noite, vendeu mais de 1 milhão de exemplares. A obra também ganhou prêmios e foi adaptada para rádio e transmitida em dez episódios na BBC Radio 4, em dezembro de 2020.

O motivo de tanto furor? A escrita “fácil” de Haig combinada com uma ideia bastante original. Aos 35 anos, Nora Seed é uma mulher cheia de talentos e poucas conquistas. Arrependida das escolhas que fez no passado, ela vive se perguntando o que poderia ter acontecido caso tivesse vivido de maneira diferente.

Após ser demitida da loja de instrumentos musicais, onde trabalhava desde os 14 anos, e seu gato ser atropelado, Nora vê pouco sentido em sua existência e decide colocar um ponto final em tudo. Ela tenta se matar, deixa inclusive um bilhete suicida, mas algo aparentemente dá “errado”.

“Entre a vida e a morte, há uma biblioteca”, explica a bibliotecária Elm, que sai da infância de Nora, onde cuidava dos livros da escola onde ela estudava, para entrar nessa zona cinzenta onde se encontra agora.

“E, dentro dessa biblioteca, as prateleiras não têm fim. Cada livro oferece uma oportunidade de experimentar outra vida que você poderia ter vivido. De ver como as coisas seriam se tivesse feito outras escolhas… Você teria feito algo diferente, se houvesse a chance de desfazer tudo de que se arrepende?”

Boas referências

Considerado pelo New York Times “um romancista de grande talento”, Haig apresenta aqui uma história que funde a realidade com a fantasia, oferecendo uma escrita que o The Guardian definou como “deliciosamente estranha”.

E essa realmente é uma boa definição para Biblioteca da meia-noite. Matt Haig, a princípio, consegue o mais difícil em se tratando de um acontecimento bastante fantasioso para os olhos mais realistas: o tão sonhado pacto com o leitor, que, por conta da escrita acolhedora do autor inglês, é imediatamente convencido dos acontecimentos, sem pestanejar.

O livro também traz diversas referências à cultura pop, que lembram os romances mais bem resolvidos do também inglês Nick Hornby, o eterno autor de Febre de bola e Alta fidelidade, livros que conquistaram muitos fãs nos anos 1990 — ambos adaptados para o cinema. Matt Haig parece ter bebido nessa fonte.   

No final das contas, Haig possibilita a Nora um mergulho interior viajando pelos livros da Biblioteca da Meia-Noite até que ela entenda o que é verdadeiramente importante na vida e o que faz, de fato, com que ela valha a pena ser vivida.

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A biblioteca da meia-noite
Matt Haig
Trad.: Adriana Fidalgo
Bertrand
308 págs.