Mary del Priore fala sobre negros que marcaram a história do Brasil

No livro À procura deles, a historiadora Mary del Priore vai em busca de histórias pouco contadas sobre um período bastante estudado da história do Brasil: a escravidão. O subtítulo do livro já é autoexplicativo: “Quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a história do Brasil”.

Ou seja, a autora conta trajetórias de negros que conseguiram ser bem-sucedidos mesmo nos piores momentos da escravidão no país, entre eles Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, fundador da OAB, membro do Supremo Conselho do Brasil na Maçonaria e Ministro da Justiça e dos Negócios do Interior na primeira metade do século 19.

“Estuda-se muito e muito bem a escravidão. E muito pouco os libertos e livres”, diz Mary Del Priore em entrevista à Bienal 360º. “Homens e mulheres que apesar das atrocidades do cativeiro e do preconceito tiveram a oportunidade de se reinventar.”

Sobre o fato de ser uma autora branca escrevendo sobre a história de negros, diz que seu lugar de fala “é o da escuta”. Autora de 51 livros, Mary dá detalhes sobre as histórias dos negros que a fascinaram e que ela traz à tona em seu livro. 

Mary del Priore, autora de À procura deles.

Há uma revisão em curso — nas artes, principalmente — sobre o papel dos negros na sociedade brasileira. Quando e por que lhe o ocorreu a ideia de fazer este livro?
O livro nasceu por duas razões. A primeira é que desde que escrevi Histórias da gente brasileira — Império vinha encontrando referências a negros e mestiços em plena mobilidade social. Viajantes, cronistas e diplomatas apontam sua presença em salões aristocráticos ou na intimidade da família imperial. Lembro que tanto o médico em cujos braços D. Pedro I morreu quanto o obstetra de D. Teresa Cristina, que acompanhou o casal imperial a viagens na Europa, eram negros. Os chamados “barões de chocolate”, assim denominados pelo diplomata francês Gobineau, estavam em toda a parte. Pesquisas recentes feitas sobre o enriquecimento de negros e negras, graças ao tráfico de escravos, comércio e serviços urbanos, apontam a existência de uma pequena, porém evidente, classe média afro-brasileira. Aonde estavam eles? As respostas começaram a chegar. O letramento, a família, as Irmandades, a Maçonaria, os clubes políticos constituíam uma rede de apoio, conveniências e solidariedades que não apenas alforriavam — tema da maior parte das pesquisas sobre escravidão —, mas ajudavam a tomar o elevador social. Apesar da proibição de “cargos e postos da administração”, nada impediu que eles ocupassem cargos importantes. Apagavam-se os chamados “defeitos de qualidade”, pois, embora considerados inferiores, tais aliados da monarquia, e depois do Império, foram indispensáveis para o desenvolvimento do país. As barreiras de cor ficaram porosas a partir do final do século 18, quando ocorreu uma pardização da sociedade, e a intensa mobilidade social escondeu tais “defeitos”. No início do século 19, multiplicaram-se magistrados, médicos, comerciantes, jornalistas e engenheiros afro-brasileiros. Estuda-se muito e muito bem a escravidão. E muito pouco os libertos e livres. Homens e mulheres que apesar das atrocidades do cativeiro e do preconceito tiveram a oportunidade de se reinventar. A segunda razão está no prefácio: meu lugar de fala é o da escuta. Viajo muito pelo país, e sempre que estou com leitores, com professores e alunos, ouço a pergunta: “Mas a história do preto é só sofrimento, pelourinho e senzala? Não tinham alegrias ou sucesso?”. Se a proposta deste livro há de parecer incorreta para alguns por eu não ser preta, a ideia que o fez desabrochar me pareceu boa: responder à pergunta que me fazem. Dar protagonismo aos que conseguiram “chegar lá”, driblando as dificuldades e o preconceito. Se temos uma memória conflitual, que denuncia a ausência dos negros em nossa história, esse livro reabilita alguns deles.

E como escolheu os nomes a serem retratados, entre eles Francisco Paulo de Almeida (barão e empresário durante o Segundo Reinado) e Nilo Peçanha (o primeiro presidente negro do Brasil)? 
Com alguns personagens, como Montezuma, Natividade Saldanha, Torres Homem ou Francisco de Almeida, já tinha cruzado em pesquisa para outros livros. Queria contar suas vidas, seu percurso de lutas, mas também as aventuras, combatividade e tropeços. Gosto de escrever biografias e juntei a fome com a vontade de comer. Lógico, me deparei com a escassez de fontes e com o fechamento dos arquivos por conta da pandemia. Mas como dizia Jorge Luis Borges, “livros definitivos, só os sagrados”. Não quis exaurir nada, mas convidar leitores a conhecer nossos irmãos do passado que pioneiramente discutiram e sofreram racismo, escreveram sobre ele e o venceram. Montezuma, por exemplo, denunciou os EUA onde, como “em nenhuma outra parte”, havia distinções das “mais caprichosas”. Em vários estados, somente os “brancos” podiam tornar-se “eleitores e membros do Corpo Legislativo”. Na Virgínia, se qualificava quem devia “ser considerado homem de cor, declarando-se que o é todo aquele de quem se provar descender até o quarto grau de preto ou preta”. Denunciava casos de homens e mulheres “negros” que, ao parar nos tribunais, eram julgados sem a presença de um júri. Em muitas regiões não se permitia “à gente de cor”, mesmo quando “livre e bem-educada”, comer com os “brancos” em casas de pasto, entre outros exemplos. Aos olhos de muitos negros e pardos brasileiros, tal realidade deveria beirar o absurdo. Afinal, a Constituição imperial não comportava nenhum critério de base étnico-racial que diferenciasse os afrodescendentes de qualquer outro cidadão. Ainda que os negros e mestiços já libertos não pudessem ter acesso aos chamados “direitos políticos”, não havia nenhum impedimento para que seus filhos e netos, por exemplo, viessem a desfrutá-los, caso possuíssem renda para tanto. Montezuma, para quem não sabe, fundou a OAB, o Supremo Conselho do Brasil na Maçonaria, o IHGB e foi Ministro da Justiça e dos Negócios do Interior. Torres Homem, ainda que chamado de “macaco” ou “crioulo malandro”, foi Ministro das Finanças, presidente do Banco Central, Conselheiro dileto de D. Pedro II e Senador. Ambos terminaram a vida como Viscondes com grandeza.

Por que Machado de Assis, nosso maior escritor, ficou de fora?
A bibliografia sobre a obra de Machado é infinita. Mas os trabalhos sobre sua vida pessoal são escassos. E eu queria dar vida aos personagens que escolhi e não encontrava elementos suficientes. Sobre sua infância e casamento, tudo repeteco! Preferi os menos conhecidos e mais saborosos.

Um dos trechos do livro, em que fala sobre a origem dos seres humanos na terra, diz que “a História da humanidade começou literalmente a ser escrita num quadro negro”. Por que isso é quase uma “história oculta”? A noção que temos é sempre a de que a História foi feita pelos brancos…
Não é uma história oculta. É apenas desconhecida. Ela não está traduzida e a maioria dos historiadores africanos escreve em francês, alemão ou inglês. Existem riquíssimos arquivos e museus sobre a África, mas no exterior. Alberto da Costa e Silva, o maior africanólogo brasileiro, é diplomata e percorreu a África de Norte a Sul. Estudou sua arte, literatura, música e cultura. Yeda de Castro, uma das maiores estudiosa de falares africanos das Américas, estudou e morou na África. É a intimidade com a história oculta que permite melhor escrever sobre ela. Por isso mesmo, pouquíssimos sabem que o continente africano foi o berço da humanidade. Que nossa evolução começou a partir de um pequeno grupo que vivia no leste da África há cerca de 7 milhões de anos. Os ancestrais dos eurasianos só deixaram o continente cerca de 50 mil ou 70 mil anos atrás e, atualmente, todos os não africanos são descendentes dessa dispersão. Foi apenas quando os primeiros agricultores chegaram ao Oriente Médio que sua pele começou a clarear. Recentemente, arqueólogos descobriram que há 4 mil anos africanos já tinham alfabeto. A história da humanidade começou literalmente a ser escrita num quadro negro.

Outro trecho menciona que “nunca fomos um país de brancos de um lado e negros do outro. Aqui, nunca houve bebedouros para brancos e pretos, banheiros para brancos e pretos ou proibição de casamento entre brancos e pretos”. Mas por que o preconceito sempre vigorou e ainda vigora por aqui, apesar da mestiçagem?
Estudar a mestiçagem não exclui pensar a desigualdade, a intolerância e o racismo. Mas como ignorar o que historiadores já demonstraram? No Rio de Janeiro, Bahia ou Pernambuco, cujas capitais eram grandes portos escravistas, mais da metade da população já era mestiça na virada do século 19. Muitos negros e mestiços foram estudar em Portugal ou na França. A mestiçagem se intensificou na medida em que eles ultrapassaram a desigualdade. Todos os personagens, de Montezuma a Nilo Peçanha, se casaram com brancas. Juliano Moreira, com uma alemã. O fato nos leva à questão do “colorismo”, conceito em alta em centros acadêmicos anglo-saxões e europeus que têm por objetivo compreender a relação entre cor da pele e a posição social. Aqui, a mestiçagem, junto com o letramento, deu a muitos a possibilidade de fazer carreira como homens públicos, membros de uma camada restrita da população que manejava os cordões do poder. Eles nada tinham a ver com famílias rurais de elite, mas compunham uma “nobreza cultural” que lhes dava espaço na escala social. Conhecê-los é conhecer uma parte encoberta de nosso passado. A mestiçagem já está na agenda de intelectuais bi-raciais, como o filósofo Thomas Chasterton Williams ou o historiador Pap Ndaye, que recusam discursos estruturados. E desde o governo Obama — ele também um mestiço —, acadêmicos nascidos de casamentos inter-raciais introduziram a questão da mestiçagem nas agendas de suas universidades. Grandes nomes da negritude, de Aimé Césaire a James Baldwin, de Achille Mbembe a Mamadou Diouf, convidam justamente a estudar os pontos de contato, os encontros, os empréstimos e reelaborações culturais, enfim, a História. Não a cor. Definir-se como negro ou mestiço, como diz Marie Ndiaye, é se reduzir, se resumir a critérios definidores do que os indivíduos são ou não. E a história de negros e mestiços é muito maior do que só racismo. Muitos atribuem à escravidão — eu prefiro escravidões, pois foram muito diversas — a origem do racismo. Esquecem as responsabilidades do Estado Imperial e Republicano na educação dos brasileiros. Os casos de sucesso que encontrei tiveram apoio fundamental na escolaridade. A educação é o instrumento mais eficiente para combater o racismo e a desigualdade. Hoje, vemos como negros e pardos, maioria nas universidades públicas, estão tendo impacto positivo na economia de suas vidas e do país. A partir do final do século 19, o eugenismo, o conceito de “raça” que surge com os fascismos, a chegada de imigrantes e o medo da “mistura”, entre outros fatores colaboraram para o incremento do racismo. Mas isso é assunto para especialistas. Eu não sou uma.

Seu livro mostra que uma parcela dos negros brasileiros foi bem-sucedida, mesmo nos momentos mais duros do período escravocrata. E que sua história não foi “só sofrimento, pelourinho e senzala”. Tem algum receio de ser mal interpretada, como se estivesse “suavizando” a realidade dos negros?
Não. Penso que minha história como docente, pesquisadora e historiadora responde por mim. Sempre evitei o autoritarismo, o fundamentalismo e os binarismos. Sei que dicotomias são empobrecedoras. Sempre trabalhei com a complexidade dos fatos e dos personagens. Esse é um trabalho sobre a pluralidade, complexidade e beleza de um país que não cabe em discussões superficiais. E de uma história da imensa parcela da população brasileira, ainda fora do foco de muitos estudiosos. Alberto da Costa e Silva diz muito bem que todos nós temos no fundo da gaveta avós negros, pardos, caboclos, índios. Vamos abrir essa gaveta!

Entre os perfis que seu livro traz, qual é o mais representativo? Que figura mais lhe impressiona?
Juliano Moreira, ele é apaixonante. Deveriam erguer sua estátua, Brasil afora. Nascido em Salvador, em 1872, era filho de um acendedor de lampiões e uma doméstica. Graças ao padrinho, famoso obstetra, foi estudar no Liceu Provincial. De lá, saiu direto para a Faculdade de Medicina, onde pontificavam vários professores negros, Maurício Rebouças, entre outros. Foi admitido como professor da casa aos 23 anos, com uma tese sobre a sífilis e sua relação com negros. O racismo na época era pior do que a doença e ele enfrentou com coragem e muita pesquisa a tese da inferioridade da raça. Nina Rodrigues, notório eugenista, foi adversário no debate que Juliano venceu. Da Dermatologia passou à Psiquiatria, onde também se alimentava a ideia de degeneração racialista, e onde Juliano fez carreira fulgurante. Assumiu o Hospício Nacional dos Alienados, onde revolucionou o tratamento dos pacientes e onde enterrou definitivamente qualquer interpretação ligada à raça e não a desordens genéticas e biológicas. Escrevia para jornais científicos nacionais e internacionais e passou a transitar em congressos fora do Brasil, sendo aplaudidíssimo. Trocava correspondência com o famoso Emil Kraepelin e introduziu Freud no Brasil. Em visita ao país, Einstein fez questão de conhecê-lo e ele recebeu das mãos do imperador do Japão a mais alta insígnia destinada aos “consagrados pela ciência”, por sua luta contra o racismo. Faleceu, tuberculoso, em 1929, e deixou um recado: os que atribuem à raça os problemas de saúde “são todos aqueles que não querem se dar o trabalho de aprofundar suas origens”.

Como seu livro tem sido recebido pelo movimento negro?
Eles sabem que não participo de nenhum movimento tipo “nós contra eles”. Que acredito que autores de todas as cores podem falar para leitores de todas as cores. Que escrevo para todo mundo, independentemente de identidades e ideologias. Que tenho o direito ao erro e à livre busca. Que luto para fazer a melhor História possível. Que não acredito em unanimidade e que não entro em caixinhas. Fui entrevistada por dois jornalistas negros de grandes veículos. Um não sabia que ex-escravos tinham escravos. Outro, felicitou-me pela representação afirmativa de negros. Ambos concordaram com um dos maiores estudiosos da escravidão, Manolo Florentino: “É muito mais estimulante, para negros de hoje, imaginar que seus antepassados foram em alguma medida protagonistas de seu destino”. Se vierem lacração e cancelamento, entenderei como fenômeno atual. Afinal, sou historiadora. Mas nada me impedirá de escrever sobre o que quiser. A História não aceita barreiras nem patrulhamento.

Vários de seus mais de 51 livros tratam de assuntos que não costumam estar no radar dos historiadores brasileiros, como a “história do amor” e questões do cotidiano, a exemplo de seu trabalho sobre a classe média baixa brasileira. Como guia seus interesses (ou é guiada por eles)?
Como diria Flaubert, depois copiado por Picasso, “eu não acho os temas. Eles me encontram”. Talvez por passar tanto tempo entre documentos e arquivos, encontro sempre personagens especiais. Foi assim com o Príncipe Maldito, com a Condessa de Barral, com D. Maria I, Rainha de Portugal e do Brasil e, recentemente, Lord Cochrane. Todos personagens desconhecidos do público que me permitiram abrir janelas para diferentes momentos do passado. O importante, como dizia o historiador Fernando Novais, “é dar um passo à frente”. Apontar novos elementos que preencham lacunas. A história é uma construção coletiva. É preciso moldar seu tijolo na olaria ou na oficina do historiador, com todas as regras da disciplina. Mas aprendi com os jornalistas e procuro dar às minhas narrativas o tom mais apetitoso possível. Além do que, gosto de escrever. Gosto que o leitor mergulhe na História como num livro de ficção. Levo ao pé da letra a frase de Michel de Certeau: “A história é um romance que aconteceu”. Aliás, na França já se discute a possibilidade de juntar ficção e não ficção e até já se faz auto-história: o historiador conta como viveu determinado período do passado e assim mistura suas memórias com a história recente. 

Alguns autores, como Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, ficaram conhecidos por deixar mais “palatáveis” alguns assuntos de nossa história com livros que viraram best-sellers. O leitor brasileiro tem se interessado mais pela história do Brasil do que no passado?
A História sempre teve e terá leitores e os citados não são só autores “palatáveis”. Eles se apoiam em pesquisas cuidadosas. Alguns destes jornalistas são historiadores de formação: caso do Eduardo Bueno e Jorge Caldeira. Nadam de braçada nos assuntos sobre os quais escrevem. Jornalistas nos ensinam como escrever para o grande público. Quando deixei a USP, a ideia de um acadêmico fazer “divulgação” era censurada como desprezível. Mas eu tinha um projeto que estou levando a cabo: escrever para quem gosta de História. Deixar de lado a “novilíngua” universitária. Fazer chegar aos leitores as riquíssimas pesquisas feitas nas pós-graduações, pesquisas, porém, ilegíveis, pois a academia exige textos cheios de citações e conceitos, enfim, uma pedreira para quem quer apenas ler, com prazer. Resultado? A disciplina ficou tão isolada que professores copiaram uma abordagem, criada nos EUA, a “História Pública”, para ensinar historiadores a se fazerem audíveis. Achei ótimo. Quanto mais História, melhor para quem se interessa por ela.

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À procura deles: Quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a história do Brasil
Mary del Priore
Benvirá
320 págs.