Mario Quintana: 115 anos do poeta da preguiça criativa

O poeta Mario Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, e passou a maior parte da vida em Porto Alegre, onde produziu seu extenso trabalho poético. A obra do gaúcho, calcada na economia de palavras e no humor, é festejada até hoje — 115 anos depois de seu nascimento.

Ele estreou na poesia em 1940, aos 34 anos, com os sonetos de A rua dos cataventos, e encerrou sua carreira com Velório sem defunto, de 1990. O primeiro livro foi editado pela Globo, que lançaria mais de dez títulos do autor. Nessa mesma casa editorial, aliás, dedicou-se à tradução para o português de quatro dos sete livros do monumental Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust (1871-1922). 

Apesar desse trabalho notável, e de importância ímpar para a disseminação de literatura estrangeira no Brasil, a figura de Quintana — normalmente com um cigarro em mãos e o sorriso nos lábios — parece destoar daquela imagem caricata do homem de letras rigoroso, metódico. Não é à toa, talvez, que ele tenha deixado um alerta: “Desconfia da tristeza de certos poetas”.

Mario Quintana: “A preguiça é a mãe do progresso”.

Trajetória pessoal e profissional

Como era comum aos poetas e prosadores do século 20, Quintana esteve bastante presente na imprensa. Por muitos anos — do final da década de 1960 até o começo de 80 — assinou a coluna “Caderno H”, do Correio do Povo, na qual publicava textos curtos, humorísticos e reflexivos.

Em uma “levada” parecida com a de Nelson Rodrigues, mas sem a acidez que imortalizou o carioca, o gaúcho foi um frasista marcante. “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”, diz uma de suas sacadas virtuosas.

Assim como parece ter enxergado o mundo de maneira inusitada, Quintana também viveu de um jeito bem próprio. De 1968 a 1980 morou no quarto 217 do Hotel Majestic, no centro histórico de Porto Alegre, que depois viria a se tornar a Casa de Cultura Mario Quintana — inaugurada em setembro de 1990, quatro anos antes da morte do poeta.

Academia Brasileira de Letras e prêmios

A vida de Quintana parece ter sido marcada por um certo tipo de desprendimento, principalmente pelo fato de ele não ter casado nem tido filhos e morado por mais de uma década em um quarto de hotel, mas ele não conseguiu algo que almejava bastante: uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).

As três tentativas de entrar na instituição não deram certo, e por isso parecia guardar certo ressentimento. Os figurões que sempre votavam contra sua inclusão na ABL até ganharam o “Poeminha do contra”, bastante famoso entre o público leitor:

Todos esses aí que estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Outro causo envolvendo Quintana e a ABL remonta os idos de 1966, quando Manuel Bandeira fez a leitura de alguns versos em homenagem ao amigo renegado. Nas duas primeiras estrofes:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares

Quinta essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Apesar de não ter conseguido uma cadeira na instituição, em 1980 a ABL concedeu a Quintana o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, ele recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano.

Informações e curiosidades

  • Quintana nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1906
  • Viveu de 1968 a 1980 no Hotel Majestic, em Porto Alegre
  • O hotel em que viveu por 12 anos foi transformado, em 1990, na Casa de Cultura Mario Quintana
  • Concorreu por três vezes, sem sucesso, a uma vaga na Academia Brasileira de Letras
  • Em 1980, ganha o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra
  • Em 1981, ganha o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano
  • Além de Proust, traduziu Virginia Woolf, Graham Greene e Balzac, entre outros
  • Morreu aos 87 anos, em 1994, na capital gaúcha

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