Maiorias minorizadas e invisibilizadas

A terceira mesa deste último dia de Bienal do Livro Rio trouxe para o centro da Estação Plural pessoas que, através de seus trabalhos, ajudam a dar voz a quem deve ser escutado, aos que fazem parte das chamadas maiorias minorizadas. Mas se eles são maioria, cerca de 160 milhões de pessoas, por que não são ouvidos e vistos? São mesmo invisíveis?

Para falar de suas experiências e seus trabalhos, o repórter e escritor Caco Barcellos; o antropólogo Julian Spyner; o jornalista e ativista Rene Silva; e a ativista dos direitos negros e LGBTQIAP+ e política Erika Hilton. A mediação foi do jornalista Edu Carvalho.

Para Caco Barcellos, o que é invisível no Brasil e o quê precisamos tirar da invisibilidade é, desde sempre, a área mais habitada do país.

“Está dentro da faixa de renda abaixo de 2 salários mínimos. Representam cerca de 80% dos brasileiros, correspondem a 160 milhões de pessoas cuja renda não garante a sua dignidade. É como se houvesse dois brasis”, disse.

Durante o bate-papo, Erika disse acreditar que existam muitas invisibilidades no Brasil, sendo até mesmo difíceis para ela elencar:

“A invisibilidade que deveria acabar é a que assola 90% de mulheres trans e travestis, é a realidade brutal do sistema prisional que atinge essa população. A realidade dos territórios indígenas. O Brasil é composto de inúmeras invisibilidades que precisam ser colocadas no centro desta discussão, no centro dessa roda, para que possamos falar de humanidade. No momento em que eu invisibilizo esses grupos, eu tiro deles o que têm de mais bonito: o direito de se reconhecerem como humanos, pois não têm direito às necessidades básicas”, afirmou Erika.

O antropólogo Julian Spyner se apresentou como alguém visível, como alguém que estudou na Universidade de São Paulo (USP) e que, durante a sua pesquisa de pós-doutorado, foi morar em uma periferia.

“Achavam que ele era policial, pois um branco, ali naquele contexto, fazendo perguntas sobre as pessoas, só poderia ser um policial. Certa vez fui interpelado por um morador que perguntou sobre eu queria estudar ali, dizendo que ali não havia nada. As camadas populares do Brasil, segundo a antropóloga Claudia Fonseca, vivem numa situação de aphartheid social do país. É sobre ter consciência de privilégios e da realidade de uma imensa parcela da população”, explicou Julian.

Para Rene, fundador e editor-chefe do jornal Voz das Comunidades, sediado no Complexo do Alemão, o povo preto é o mais invisível:

“A prisão indiscriminada de jovens pretos vem sendo noticiada pela grande mídia e há uma comoção geral. Mas essa situação não começou quando a mídia tradicional decidiu pautar isso. Isso acontece há muito tempo. A pandemia pode escancarar essa invisibilidade que existe no nosso país e que a gente, enquanto sociedade, não têm colaborado para mudar”, pontuou Rene.

Sobre o papel da mídia na perpetuação da invisibilidade de certos grupos, Caco acredita que é necessário conquistar aliados para, de alguma maneira, alterar a atual narrativa sobre violência. Para o jornalista, o mais grave são as mortes cotidianas dos jovens, sobretudo os pretos, das áreas mais habitadas do Brasil. Caco deu o exemplo da repercussão da morte de George Floyd, assassinado por um policial branco nos Estados Unidos em 2020, em comparação à não repercussão da morte diária de jovens no Brasil.

“George Floyd foi chamado pela nossa grande mídia de cidadão americano. Mas a primeira coisa que fazem aqui é desqualificar moralmente os nossos mortos. É a velha pergunta: ‘Tem passagem?’, como se ter passagem pela polícia autorizasse a morte. A polícia desqualifica moralmente a vítima e a imprensa replica o discurso, sem questionar o ato de matar. A grande mídia pega as informações com a assessoria de imprensa da PM, ao invés de ouvir também a comunidade”, chamou a atenção o jornalista da TV Globo.

A fala foi corroborada por Rene, que concordou com o colega, e complementou:

“A partir da forma como a grande mídia aborda, narra, influencia na percepção da sociedade. A mídia das favelas, a mídia composta por gente que vive na favela consegue passar a realidade”.

Erika e Julian disseram acreditar na necessidade de criar pontos de diálogo para se chegar à população mais pobre. Com isso, segundo eles, seria possível uma reflexão que criaria condições para se evitar o preconceito com as maiorias minorizadas.

“Os muros das casas da classe média alta metaforizam a distância que existe entre os brasileiros das camadas médias e o brasileiro pobre. É mais do que uma invisibilidade, é um muro que ainda não se consegue transpor”, concluiu Julian.