Luto, maternidade e “brasileirês” foram temas do penúltimo dia de Bienal do Rio 2021

O penúltimo dia da Bienal do Rio 2021 começou marcado por grandes emoções. Na mesa “O bem-viver”, mediada por Rosane Svartaman, três pessoas que mantêm laços intensos se juntaram: a médica Ana Claudia Quintana Arantes, o poeta Fabricio Carpinejar e a jornalista Ana Michelle Soares, a AnaMi, paciente de câncer de mama desde 2011.

De maneiras diferentes, os convidados compartilharam reflexões sobre vida, envelhecimento e morte. AnaMi, autora dos livros Vida inteira: uma jornada em busca do sentido e do sagrado de cada dia (2021) e Enquanto eu respirar (2019), apresentou-se: “Eu sou a menina que vai morrer”. Apesar do impacto inicial que a frase pode causar, há um sentido delicado por trás da declaração.

A dona do perfil do Instagram @paliativas afirmou que, ao conseguir olhar de frente para o fato de que seu câncer é incurável, aprendeu a viver. “Fui tentando costurar minha vida a partir da forma que ela se apresentava”, contou. “Talvez essa seja eu: alguém que está absolutamente à disposição da vida.”

Ana Michelle Soares, a AnaMi, falou durante a primeira mesa do dia.

Essa aparente ambiguidade, a de encontrar potência na vida por meio da morte, também perpassa o trabalho e a obra escrita da médica Ana Claudia, autora de Pra vida toda valer a pena viver (2021), sobre o qual a Bienal 360o escreveu, e A morte é um dia que vale a pena viver (2017).

“Cuido de pessoas que morrem”, declarou a profissional, sem meias-palavras. Ela auxilia no tratamento da doença de AnaMi e assina a orelha do livro de crônicas Depois é nunca (2021), de Carpinejar, que surgiu da vontade do autor poder oferecer um simbólico enterro digno às tantas vítimas de Covid-19.

Na obra, o poeta gaúcho escreve bastante sobre o luto — sentimento que arrasou o Brasil e o mundo desde que a pandemia do coronavírus começou. Em uma fala emocionada, ele declarou que sente o coração encolhido e que é preciso buscar novamente a “transgressora” e “ousada” vontade de viver.

Tornar-se mulher

Uma famosa frase de Simone de Beauvoir (“Não se nasce mulher, torna-se mulher”) embalou as discussões da segunda mesa do dia, mediada por Cristine Sousa. Segundo ela, foi o encontro de “quatro mulheres com questões bem diferentes, mas que acabam dialogando umas com as outras”.

Para explorar as “facetas do feminino, do feminismo e de ser mulher neste país e no mundo, em uma época tão complicada”, subiram ao palco da Estação Plural a jornalista Ana Paula Araújo, a cartunista Bruna Maia e as roteiristas Jaqueline Vargas e Luh Maza, da série “Sessão de terapia” (GNT).

A respeito de tornar-se mulher, refletindo sobre a máxima da francesa, Luh Maza disse que, enquanto mulher trans, teve a oportunidade de reivindicar essa condição ativamente. E fez, também, diversas reflexões sobre temas afins. “Nasci mulher, mas a cisgeneridade compulsória do mundo me leu de outra forma”, disse.

Maternidade, feminismo e padrões foram temas do segundo encontro.

“E me condicionou, me colocou numa caixa que ninguém perguntou se eu queria. Se eu concordava. Se eu me reconhecia naquele lugar”, continuou, afirmando que “romper com o pacto cisgênero” é uma forma de se reconhecer a verdadeira essência.

O fato de a mulher ser ainda muito associada ao cuidado e os arquétipos incutidos no gênero feminino foram temas de uma fala de Bruna Maia, autora de Parece que piorou: crônicas do cansaço existencial (2020) e cujas tirinhas estão publicadas em veículos como Folha de S.Paulo e Marie Claire

“Me identifico com o gênero que nasci. Sou uma mulher cis, mas não me identifico com a maioria dos estereótipos e arquétipos que colocam em cima das mulheres”, disse Bruna.

“Nunca quis ser mãe, nunca me identifiquei com o papel de cuidado”, prosseguiu, pontuando que suas características — muito autônoma, agressiva na busca por seus objetivos — normalmente são atribuídas a homens, por mais que ela considero-os mimados.

Nos poemas do livro Aquela que não é mãe (2020), Jaqueline Vargas vai a fundo no tema da maternidade. Em sua participação na mesa, a autora falou sobre como essa questão é uma construção recente e condenou a pressão social para que a mulher tenha a obrigação de ser mãe, vista como figura “divina”. “A gente está num momento em que as mulheres estão avaliando o que realmente querem”, afirmou.

Outro assunto que surgiu no encontro foi o abuso. Para a jornalista Ana Paula Araújo, que pesquisou o tema por quatro anos para escrever o livro-reportagem Abuso: a cultura do estupro no Brasil (2020), “a gente caminhou muito, mas ainda tem muito o que andar”.

“Violência sexual é o único crime em que a vítima é que sente culpa e vergonha”, explicou. “E não raro essa vítima é mulher. E não raro essa mulher é recebida com descrença, com dúvida, com deboche. Como se aquilo não fosse nada.”

Ailton Krenak e Martinho da Vila participaram virtualmente de um debate sobre língua e nação.

Língua e nação

Língua, idioma e cultura estiveram no centro da terceira mesa do dia, conduzida por Thelma Guedes. O ator e escritor Thiago Thomé, autor de E se desse para denegrir? (2021), e o intelectual Daniel Munduruku participaram presencialmente. De forma virtual, estiveram no encontro Ailton Krenak, vencedor do Troféu Juca Pato 2020, e Martinho da Vila, cronista e uma das principais vozes do samba carioca.

Thelma, a mediadora, abriu o encontro comentando a dificuldade de se encontrar definições para o que é a língua. Dentre as várias que encontrou, chegou a esta possibilidade: “A língua é um sistema de signos verbais e não verbais que possibilita que uma comunidade se comunique e interaja ao nível das ideias. É viva, porque está em constante mudança”.

A partir daí, questionou: “Uma nação cabe numa língua? A língua tem a capacidade de espelhar, retratar, reunir o povo?”. E jogou para os convidados uma “bomba”: “A língua brasileira nos reúne enquanto nação? Ela nos expressa?”.

A Bienal 360o separou alguns trechos de falas dos convidados sobre o que é, ou pode ser, a língua falada no Brasil, um país marcado pela pluralidade:

A língua brasileira é uma composição. Uma música com muitos tons diferentes. 
Daniel Munduruku

A grande missão de nós escritores e escritoras do Brasil é viver e escrever dentro de uma língua que sofre mutações a cada dia.
Thiago Thomé

Brasileirês é uma língua nova. Ela é bem diferente do português. Muito mais rica.
Martinho da Vila

É maravilhoso observar a língua como um tesouro que tem diferentes abordagens.
Ailton Krenak

Vera Eunice de Jesus falou a respeito de sua mãe, uma das vozes mais representativas da literatura brasileira.

Carolina Maria de Jesus

Uma das mais importantes escritoras brasileiras, cuja obra vem sendo resgatada e celebrada com mais força recentemente, foi tema do encontro mediado por Daniele Salles. Eliana Alves Cruz, Fernanda Felisberto, Jeferson De e Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, participaram do encontro.

Como o trabalho dos convidados é atravessado pela vida e obra da autora de Quarto de despejo? Foi refletindo a influência direta de Carolina na prosa atual que a mesa se iniciou.

A escritora Eliana Alves Cruz comentou a identificação que sente com a trajetória de Carolina, uma mulher negra e brasileira que tinha segurança de seu talento para as letras, mas vivia assombrada pela angústia de não ter seu trabalho reconhecido, por mais que tivesse se esforçado para que seu livro chegasse ao público.

Já o cinema de Jeferson De, que conheceu a escrita de Carolina há décadas, o trabalho da autora foi marcante por narrar o cotidiano de forma crítica, fazendo uma exposição “crua” da realidade do país — bem distante do “Brasil campeão” que alardeava a mídia da época, por volta da década de 1950.

“Minha mãe me deu uma edição de Quarto de despejo porque eu estava muito envolvida com movimento estudantil”, revelou Fernanda Felisberto. A professora contou que se impressionou com a informação de que o livro estava traduzido para 13 idiomas e publicado em 40 países, mas no Brasil a obra não era festejada.

A partir dessa curiosidade, começou a pensar a relação do mercado editorial com a autoria negra no Brasil. Até que, no doutorado, debruçou-se sobre o romance. “Existem várias chaves para se acessar em Carolina, mas existe uma que está autorizada no país: acessar pela miserabilidade”, explicou.

Para além de discutir a obra, a presença de Vera Eunice de Jesus permitiu que o público tivesse acesso aos “bastidores” da Carolina enquanto mãe. Vera, inclusive, fez questão de reforçar que há duas pessoas: a Carolina mãe e a escritora, mesmo que ambas tenham sido igualmente marcadas pelas grandes dificuldades de se viver num Brasil que não havia abolido a escravidão há muito tempo.

“Vi minha mãe poucas vezes feliz”, contou Vera. “Mas ela tinha uma preocupação muito grande com os filhos. Sempre falava que não queria meninas, o que hoje entendo: era mais difícil criar meninas na favela. (…) Mas sempre vi Carolina Maria de Jesus escrevendo.”

Conceição Evaristo e Itamar Vieira Junior encerram o nono dia de evento.

Bons frutos

Dois dos nomes mais representativos da literatura brasileira contemporânea encerraram o penúltimo dia de Bienal, em uma mesa mediada pela jornalista Rosane Borges: a mineira Conceição Evaristo (online), autora dos livros Becos da memória (2006) e Ponciá Vicêncio (2003), entre outros, e o baiano Itamar Vieira Junior, que assina o sucesso de público e crítica Torto arado (2019).

Se na escrevivência de Conceição o objetivo era acordar os da casa-grande de seus sonos injustos, no último encontro do dia o objetivo foi compartilhar reflexões para acordar todo um país. As atrizes Cyria Coentro e Dani Ornellas deram o pontapé inicial, lendo trechos das obras dos convidados.

Após a leitura, Conceição teve a palavra: “Esse momento é muito significativo da nossa luta e trabalho. Cada vez mais, nós estamos experimentando conquistas. E conquistas não só no plano individual, mas coletivo”.

A escritora festejou o fato de que a literatura contemporânea está rompendo com silêncios e dando voz aos excluídos, que não falam mais só por meio da escrita. Falam por si mesmos, no plano social. “Nós não pregamos no deserto. Nós pregamos em vozes, ou para as vozes, que se multiplicam”, disse.

Itamar, na sequência, também festejou os bons frutos da escrita contemporânea. Ele lembrou, também, que “teve gente que nos antecedeu e abriu caminhos” e que Conceição é uma dessas pessoas. Aos que ainda não conhecem o trabalho dela, deixou a recomendação.