Talento e dedicação impulsionam carreira de Luly Trigo

A escritora e roteirista Luly Trigo esteve desde os 16 anos envolvida com o audiovisual. Seu pai foi diretor da TV Globo por mais de duas décadas e a mãe trabalhou em produtora.

Parece um caminho natural, então, que sua série Tudo igual… SQN — baseada no livro Na porta ao lado (2015) tenha sido anunciada como produção original da Disney+, com Gabriella Saraivah no papel principal e estreia marcada para 2021.

Luly Trigo: “Quem dá prazer é a história e não o objeto que utilizamos para lê-la. Esse apego ao livro é isso mesmo: apego”.

Apesar de ainda não poder comentar detalhes sobre a produção, Luly não esconde o entusiasmo. “Jamais imaginei que estaria trabalhando junto à Disney+. Minha criança interna segue extasiada”, diz. “Saí do projeto apaixonada por tudo e todos. Não poderia estar mais feliz.”

Aficionada pelo audiovisual desde sempre, a autora já tinha tido a experiência de transpor uma linguagem para outra quando o romance Meus 15 anos (2013) virou filme, em uma produção do SBT em parceria com a Paris Filmes — disponível no catálogo da Netflix.

“Tenho muito orgulho do trabalho que fiz até agora e sigo trilhando esse caminho, que não é nada fácil. Agora mais focada no audiovisual, mas sempre com um pezinho na literatura”, explica a autora de O reino de Zália (2018), Uma canção para você (2016) e Carnaval (2012).

Nesta entrevista exclusiva à Bienal 360º, Luly Trigo fala sobre seu processo criativo, sua paixão pelas histórias, pela literatura e pelo cinema. E dá bons conselhos a quem deseja se dedicar à escrita.

Há um espaço de seis anos entre o livro Na porta ao lado até o anúncio da série Tudo igual… SQN, da Disney+, que é baseada na obra. Pode contar um pouco sobre como foi todo o processo?

Há um hiato entre o livro e a obra audiovisual baseada nele, mas segui criando e batalhando. Nesse tempo lancei outros três livros e escrevi mais um, que tem previsão de ser lançado no meio do ano. E enquanto escrevia essas histórias, bolava novos projetos de séries e filmes, trabalhando lado a lado com produtoras, tentando vender minhas ideias. Foi assim que o livro e o projeto de série (que já existia) chegou à Disney.

Há alguma mensagem principal que deseja passar para o público – tanto com a série quanto com o livro do qual ela foi baseada?

Focarei no livro, já que sobre a série não posso falar ainda: uma mensagem importante da história é não julgar o livro pela capa. Nesse mundo frenético, que tudo acontece tão rápido, com as redes sociais tão presentes, a nossa mente se torna extremamente julgadora. Estamos o tempo inteiro julgando o outro sem nem conhecer e, mesmo quando conhece, tiramos nossas próprias conclusões das situações, sem viver o que a pessoa está vivendo. Então acho que um ponto importante é este: abrir-se para o que a gente não conhece, sem colocar rótulos ou querer encaixar as pessoas numa caixinha. Somos seres plurais e cheios de complexidades, o que nos torna únicos. Não podemos julgar alguém somente por um encontro, uma experiência, uma atitude. Nem mesmo depois disso. Outro ponto é a importância de respeitar e entender nossos pais como seres humanos. Parece óbvio lendo assim, mas durante muito tempo enxergamos nossos pais pela função e ignoramos uma vida inteira que eles têm e tiveram antes da gente. Parece que queremos que vivam somente esse papel, ignorando que eles sofrem como a gente, ficam felizes, tristes, frustrados, se apaixonam, se decepcionam… E essa é uma lição importante pela qual a Carol passa na história. Respeitar e entender a mãe como mulher.

Você trabalhou no filme Meus 15 anos (2017), uma produção do SBT com a Paris Filmes baseada no seu livro de mesmo nome, e agora entra na Disney+ com a série Tudo igual… SQN. Qual foi a sensação de antes em comparação com a de agora? Há algum receio?

Da primeira vez foi tudo muito de repente e rápido, não estava atrás disso, então foi de surpresa. Fiquei maravilhada, me senti realizada, mas agora tem um gostinho diferente. Desde 2019 estou completamente focada no audiovisual, escrevendo e reescrevendo projetos. Na porta ao lado era um desses e, na verdade, o primeiro. Antes de ser livro, ele foi projeto de série, que criei em 2012. Então foi um sentimento de realização, de ver que um trabalho que às vezes parece não estar dando certo chegou onde eu queria. Na verdade, ainda mais longe, né?! Jamais imaginei que estaria trabalhando junto à Disney+. Minha criança interna segue extasiada. Receio tive nos dois, e sempre ligado ao processo de criação. Por mais que eu tenha fechado o meu trabalho como roteirista atrelado à venda dos direitos, não sabia como funcionaria, qual abertura me dariam, o que iriam querer mudar na história. Acho que é o pesadelo de todo autor. Mas posso dizer que foi uma delícia trabalhar com a equipe de criação do TISQN e da Disney. Saí do projeto apaixonada por tudo e todos. Não poderia estar mais feliz.

Em 2008, entrando na idade adulta, você dirigiu o curta Delito, com o qual ganhou prêmios. Foi ali que a paixão pelo audiovisual se solidificou? Pode contar um pouco da sua relação com a sétima arte?

Na verdade, não. Meus pais trabalharam com isso a vida inteira. Meu pai foi diretor na TV Globo durante mais de 20 anos e minha mãe trabalhava em uma produtora de audiovisual. Por conta disso, trabalho com audiovisual desde os 16 anos, quando fazia assistência de direção em DVDs musicais. Por conta desse trabalho fui fazer cinema e, durante a faculdade, decidi por conta própria fazer esse curta, que foi incrível, mas extremamente cansativo. E olha que foi um curta. Perdi 5 quilos em uma semana de tão nervosa que estava. Não me fez bem e repensei muitas coisas naquela época. Uma delas é que produção e o dia a dia do set não é comigo. Pelo menos não trabalhando na equipe. Em 2009 escrevi meu primeiro livro, que viria a ser lançado em 2012, pela Rocco, e isso me apontou o caminho da escrita. Decidi focar então em roteiro e assim que me formei fui para Nova York fazer um curso, focada muito em um sonho de escrever roteiros. Apesar de voltar para o Brasil completamente apaixonada por isso, a vida me levou para outro caminho, mas o desejo de trabalhar com audiovisual sempre esteve dentro de mim.

Trabalhar com roteiro é muito diferente de escrever um livro? Quais são as principais diferenças e semelhanças?

Demais da conta, nem sei citar uma semelhança. Roteiro é tudo muito direto, sempre na terceira pessoa e os diálogos precisam de atenção especial para que caibam na boca dos atores e soem reais. Já nos livros a gente cria o mundo inteiro. Descreve os lugares, os sons, as cores, os cheiros… Estando em primeira pessoa, adentramos o mundo particular daquela personagem e acompanhamos os pensamentos, sentimentos, emoções… coisa que no roteiro é mais cru, porém talvez ainda mais difícil justamente por ter que passar esses detalhes por indicação de gestos e olhares.

Como vê hoje seu livro de estreia, Carnaval (2012)? Acha que seu olhar sobre a literatura, e o modo como você a produz, mudou muito desde então?

Com certeza e muito. Quando me perguntam qual livro comprar, já respondo para começar pelo último, que tem muito mais a ver com meu momento atual, minha escrita… Carnaval também foi escrito antes do curso de roteiro de Nova York. Então todos os outros depois ganharam uma visão diferente de como contar uma história. Fora as minhas transformações pessoais, o que passei ao longo desses anos todos, minha visão de mundo vai mudando e, com isso, das personagens que crio também.

Qual é a relevância atual do livro impresso, em um período que se volta fortemente para o digital?

Hoje em dia o livro impresso ainda é a forma mais fácil de fazer as histórias chegarem a todos os lugares. Nem todo mundo tem acesso à internet ou dinheiro para comprar um livro. O impresso chega às bibliotecas escolares e comunitárias, além de também poder ser emprestado. Acho que a relevância é que ele é mais democrático.

Um e-book te dá o mesmo prazer da literatura impressa? Acha válida a discussão que tende mais para um do que para outro?

Quem dá prazer é a história e não o objeto que utilizamos para lê-la. Esse apego ao livro é isso mesmo: apego. E tudo bem não querer se livrar dele. Acredito muito que tem lugar para os dois.

Você mantém relação próxima com o público. Qual é a importância de estar conectada com seus leitores e seguidores?

Superpróxima. Além do Instagram, que tento estar sempre presente (pelo menos nos stories), faço lives de segunda a sexta no meu canal da Twitch, onde nos encontramos para um grande “coworking online”. No meio dessa pandemia, com quase todo mundo isolado e trabalhando em casa sem companhia, as lives de sprints (como são chamadas as leituras virtuais em conjunto) se tornaram um espaço especial para muita gente. Fazemos diariamente sprints (que são intervalos de foco, o famoso método pomodoro) com breves intervalos, nossa pausa para o café, onde batemos papo para relaxar e voltar ao foco na sequência. Isso tem sido muito produtivo pra todo mundo, além de extremamente acolhedor. Para mim, é importante porque a troca é muito enriquecedora. Cada um é um mundo particular, cheio de peculiaridades, com histórias incríveis e ao mesmo tempo com anseios e sonhos tão semelhantes. Aprendo e cresço muito com todo mundo que me acompanha, independentemente se está sempre presente ou se aparece apenas vez ou outra.

Sua obra individual mais recente, O reino de Zália, saiu pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras. Como foi publicar por uma casa tão grande assim? Considera-se satisfeita com seu rumo profissional?

Todas as casas que publicaram meus livros são grandes. Rocco, Arqueiro, Seguinte… As três são incríveis e trouxeram elementos diferentes para cada livro publicado. E estou muito feliz de estar atualmente com o pessoal da Seguinte, com todos os nossos projetos em andamento. Tenho muito orgulho do trabalho que fiz até agora e sigo trilhando esse caminho, que não é nada fácil. Agora mais focada no audiovisual, mas sempre com um pezinho na literatura.

Meu jeito certo de fazer tudo errado foi escrito a quatro mãos, junto com a Klara Castanho. Como foi trabalhar com uma autora tão jovem? E o processo de produzir em conjunto, como é?

Foi incrível, porque ela trouxe questões que eu ainda não havia abordado nos outros livros ainda. Mas o processo da escrita foi como qualquer outro. Klarinha e eu debatemos muito antes e nos encontramos para montar juntas o esqueleto da história. Uma vez com todas as linhas traçadas, escrevi o livro. Vez ou outra queria a opinião dela, mas como trabalhava de madrugada e ela estava dormindo, precisava segurar a ansiedade de resolver alguma questão. Acho que essa foi a maior dificuldade.

Para quem está começando a escrever ou entrando no audiovisual, qual conselho daria?

Leia muito, assista a muitos filmes e séries. Quanto mais a gente busca referência, mais a gente entende o que gosta para, então, colocar no papel. Escreva sempre. Ser escritor/roteirista é um trabalho, trate como um. Não trate como hobby e não caia na história de só escrever quando estiver inspirado. É preciso disciplina, rotina e muita escrita. Então escreva todos os dias. E-mails, desabafos, reflexões, contos, livros, projetos… o que estiver a fim no momento. Assim como a busca de referência fora, a escrita é uma busca de referência dentro. Entendemos melhor sobre como colocamos as ideias no papel, praticamos maneiras diferentes e aprendemos a editar. Falando em editar…. Mostre seus textos para os amigos, familiares e aceite as críticas. Se eles não entenderam alguma coisa, não adianta ficar bravo. As ideias estão na sua cabeça, às vezes está claro pra você, mas não no texto. Respire, durma e reavalie as observações. Saber escutar é um ponto crucial para ser escritor.