Luciene Nascimento, a poeta que conquistou Lázaro Ramos e milhares de fãs

A trajetória da poeta Luciene Nascimento na literatura é uma sucessão de “acasos”. Advogada e maquiadora, ela virou um fenômeno a partir de um vídeo em que declamava um poema forte, sobre as trajetórias de mulheres negras e seus percalços, chamado “Tudo nela é de se amar”.

Os primeiros versos dizem assim: “Eu ouvi recentemente que sou da ‘Geração Tombamento’: preta, pobre, consciente, que carrega esteticamente a cura pro próprio tormento”.

O vídeo, gravado em um evento de faculdade e postado no YouTube, foi o gatilho para que Luciene “se descobrisse” poeta. O ator Lázaro Ramos topou com a gravação por acaso e virou fã da escritora até então desconhecida. Ele usou o trecho de um poema de Luciene em seu próprio livro, Na minha pele.

“Luciene Nascimento é uma explosão em forma de poesia. Foi exatamente o que percebi quando, pela primeira vez, tive contato com a sua forma de compreender a identidade. Com especial talento, Luciene como que recolhe palavras que andam soltas por aí e as ressignifica, explicando, de forma terna e contundente, toda uma existência”, foi o que Lázaro escreveu no prefácio do primeiro livro da escritora, lançado recentemente e que traz o mesmo título do poema que a fez conhecida, Tudo nela é de se amar.

“Sempre escrevi”, diz Luciene. “Mas escrevia sem pretensão nenhuma. Acho que fiquei uns 10 anos produzindo assim. A partir da repercussão do vídeo, comecei a me entender como poeta. Percebi que as coisas que eram importantes para mim também eram para outras pessoas. Recebi um retorno do mundo.”

Luciene Nascimento: “Gosto muito da definição de uma leitora, que disse que eu ‘milito com ternura’. Acho que é isso mesmo”.

Repercussão

O vídeo de Tudo nela é de se amar saiu em 2016. Além de milhares de visualizações, o texto declamado foi muito debatido e até estudado na universidade. Depois disso, ela gravou ainda outros dois vídeos que também repercutiram muito.

Mas o ponto de virada viria mais uma vez veio de forma inusitada. Em uma live promovida por Lázaro Ramos, Luciene foi “convocada” pelo ator a participar. “Eu entrei na live apenas para ouvir e, quando o Lázaro viu que eu estava lá, me chamou para participar. Acabei declamando um poema sobre o amor, que era o tema do dia.”

Presente no evento virtual, o editor Pascoal Soto, da Sextante, procurou Luciene para conhecer mais sua história e o que ela escrevia. A partir daí, a poeta juntou os textos engavetados, reescreveu alguns e criou outros até dar forma aos 40 poemas que compõem Tudo nela é de se amar.

Junto aos poemas, Luciene escreveu breves textos em prosa que ajudam o leitor a entender o contexto em que os versos foram criados. “Isso foi uma sugestão do Pascoal. Eu gostei e acabamos construindo juntos essa ideia”, diz a autora. “Recebi muito retorno de leitores, dizendo que leram meu livro de poemas quase como uma narrativa, um romance, porque os textos se entrelaçam.”

A grande maioria dos poemas do livro trazem uma carga política, de protesto, muito grande, tocando em questões relacionadas à formação de identidade e à necessidade de se posicionar em uma sociedade preconceituosa.

Ainda que seja um livro bastante contundente em sua militância, a obra também traz outros assuntos, como saúde mental, amor e autoestima. “Isso porque eu sou uma pessoa plural”, explica Luciene, que concilia a literatura com outras duas atividades: ela é advogada e maquiadora profissional.

“Aparentemente essas questões são muito diferentes, mas há conexões entre o direito, a estética, o racismo e a literatura”, diz a autora, que criou o que chama de “pedagopoesia”, uma mistura de poesia com a pedagogia que ensina sobre direitos, preconceito e outros assuntos fundamentais.

Luciene Nascimento: “O slam é um grito. Minha poesia também é”.

Biografia

Luciene Nascimento é nascida e criada em Quatis, pequeno município do interior do Rio de Janeiro, a 260 km da capital. Apesar de escrever desde “a época do colégio”, não era uma pessoa da cena literária ou poética. “Escrevia de forma lenta”, diz a escritora, que costuma citar a americana bell hooks (assim, em minúsculas) como uma influência.

Seus vídeos declamando poesia se aproximam muito da estética do slam, poesia falada que tem sido usada, principalmente por mulheres negras das periferias brasileiras, como forma de expressão para denunciar desigualdades e preconceitos na sociedade.

Luciene, no entanto, não conhecia o slam e a cena literária em torno do estilo quando se tornou conhecida. Mas se identificou, ainda que veja pontos de contato e diferenças. “Muita gente veio me falar disso, que havia outras mulheres fazendo algo parecido. Eu achei o máximo. Porque não era uma referência para mim até então.”

Hoje, ela consegue perceber melhor as similaridades e diferenças daquilo que escreve em relação à poesia do slam. “O slam é um grito. Minha poesia também é. Mas gosto muito da definição de uma leitora, que disse que eu ‘milito com ternura’. Acho que é isso mesmo.”

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Tudo nela é de se amar
Luciene Nascimento
Sextante
144 págs.