“Love, death & robots”: uma série para quem ama literatura

Quem está familiarizado com os curtas-metragens animados de Love, death & robots, que estreou em 2019 e ganhou uma segunda temporada no último mês de maio, sabe que a série é cercada de boas referências à literatura, especialmente à de ficção científica, aos quadrinhos e aos livros de fantasia. Um universo rico, repleto de melancolia e violência, que os produtores Tim Miller e David Fincher levaram cerca de dez anos para tirar do papel e levar às telas dos assinantes da Netflix.

As referências são muitas e variadas. A começar por David Fincher, que tem no currículo duas adaptações de grandes obras literárias: Clube da luta, de Chuck Palahniuk, e O curioso caso de Benjamin Button, longo conto do americano F. Scott Fitzgerald, publicado em 1921. Já o parceiro, Tim Miller, é responsável pela adaptação dos quadrinhos Deadpool (2016).

Em Love, death & robots, especificamente, há episódios baseados diretamente em trabalhos literários — seguindo uma linha já comentada pela Bienal 360º na matéria “Um passeio pelo mundo das séries”, a de que as boas produções audiovisuais costumam beber da literatura. O episódio “Boa caçada” veio de um conto do autor chinês Ken Liu, que venceu três vezes o Prêmio Hugo, e “O gigante afogado” é inspirado em uma narrativa homônima do inglês J. G. Ballard.

Além disso, ao pensar uma conexão entre Love, death & robots e outras linguagens, é difícil não mencionar o livro Sonhos elétricos, de Philip K. Dick. O norte-americano foi um mestre nessa linha de ficção científica que flerta com um profundo existencialismo, fugindo à ideia equivocada que alguém ora possa ter de que o sci-fi é um gênero mais infantilizado.  

Cena do episódio “Quando o iogurte assumiu o controle”, do primeiro volume da série.

Formato de Love, death & robots

Há mais de uma década, momento em que as séries obedeciam aos formatos fixos de episódios de meia ou uma hora, Fincher estava com outras ideias. Para o diretor, cada episódio de seu novo projeto deveria ter a duração necessária para que a história fosse devidamente contada — nem mais, nem menos. Pode parecer pouca coisa, mas até hoje esse estilo de produzir audiovisual não pegou. De qualquer forma, Miller apoiou o colega à época e o resultado é surpreendente.

Em formato de antologia (episódios escritos, animados e dirigidos por diferentes profissionais), o primeiro volume de Love, death & robots tem dezoito curtas-metragens — o de menor duração, que relata a soberania de um iogurte, tem seis minutos e os três mais longos empatam em dezessete. Esse conjunto de estreia venceu cinco troféus do Emmy Awards no ano de seu lançamento, incluindo o de Melhor Série Animada de Curtas.

Agora é aguardar para ver como o segundo volume, com oito episódios, vai se sair. Na nova leva, o curta de maior duração tem dezoito minutos e o mais breve, que mostra uma versão radicalmente alternativa do Papai Noel, sete. A cerimônia do Emmy deste ano está marcada para 19 de setembro.

Cena do episódio “Pela casa”, do segundo volume da série, que apresenta um Papai Noel alternativo.

Dinâmica e diferentes temas

Engana-se quem pensa que, devido à curta duração dos episódios, Love, death & robots é de fácil absorção. Recomendadas para maiores de 18 anos, as animações — que mudam radicalmente de estilo — flertam em sua maioria com a ficção científica e têm muita violência, sangue, sexo, corpos explodindo e uma absurda melancolia. Quase um filme do Quentin Tarantino — diretor norte-americano que acaba de lançar o romance Era uma vez em Hollywood, inspirado em seu premiado filme homônimo.

Em entrevista concedida durante o festival SXSW de 2019, Tim Miller  descreve a forma que David Fincher abordou-lhe para falar sobre o projeto: “A gente pode experimentar, enlouquecer, juntar um bando de diretores, e criar um troço com visuais pesados”. Foi exatamente o que aconteceu.

Na mesma conversa, Fincher descreve sua forma de encarar produções audiovisuais: “Tento me envolver com coisas que eu mesmo gostaria de ver. (…) Que podem ou não realmente se concretizar, ou que a gente ainda nem sabe se vai ter audiência”. Faz sentido pensar que esse é o mesmo diretor de Clube da luta (1999).

Cinco episódios marcantes

Para dar uma amostra do que é o universo de Love, death & robots, a Bienal 360º separou cinco episódios marcantes, considerando os dois volumes e tentando não entregar muito sobre os roteiros, mas sim refletir um pouco a respeito de seus possíveis significados.

Aos que ainda não se convenceram dos absurdos (positivos) da série, preparem-se: entre outras situações, há um gigante morto na praia, o nascimento e morte da humanidade no congelador de um casal e um passeio descontraído de três robôs em uma cidade pós-apocalíptica.

Era do gelo

No único episódio que utiliza atores reais, o casal formado por Mary Elizabeth Winstead e Topher Grace acaba de se mudar para um apartamento modesto e vai comemorar a conquista tomando um vinho. O homem tem a ideia genial de pôr gelo na bebida e, no cubo que colocou em seu copo, descobre um minúsculo mamute morto a flechadas.

A história se desenvolve de forma a normalizar o absurdo da situação: ao invés de ficarem perplexos ou aterrorizados, os dois espiam o freezer da geladeira e acompanham o nascimento e morte da espécie humana. “Caralho! Tem uma civilização perdida na nossa geladeira”, constata a personagem de Elizabeth.

Os três robôs

Em uma cidade pós-apocalíptica, três robôs irreverentes dão um passeio — a sabichona irônica, o baixinho descontraído e o mais gente boa. Flanando pelos destroços de uma civilização que destruiu a si mesma devido à forma que tratou a natureza, as máquinas vão fazendo reflexões pertinentes e comentários engraçados, por mais que o escárnio também esteja presente.

Em um dado momento, enquanto conversavam sobre a extinta espécie humana em uma lanchonete, o robô descontraído diz que não havia assinatura do criador no código humano e a sabichona irônica completa: “É porque foram criados por um deus inexplicável a partir do barro, sem motivo aparente. Estou brincando. Eles vieram de uma sopa muito quente”, ironizando tanto o criacionismo quanto a abordagem científica da origem humana.

Boa caçada

“Quando eu era criança, o mundo era repleto de magia”, diz o nostálgico protagonista na abertura do episódio. Na história, seu pai é um bravo caçador de espíritos que se transmutam em raposas, os huli jing, que podem ser do bem ou do mal e assumem a forma de mulheres sedutoras. A cena de abertura é um show à parte, na qual o espadachim se bate com a mulher-raposa no maior estilo O tigre e o dragão (2001), dirigido por Ang Lee.

No desenvolver da narrativa, o personagem central acaba se aproximando de uma huli jing. O tempo passa, a tecnologia vai engolindo o mundo antigo. Nesse processo de adaptação, o rapaz vai tentar ajudar sua amiga pouco convencional a poder continuar sendo um espírito em meio à modernidade, isto é, não deixar a magia morrer — mesmo que, para isso, ela precise de algumas modificações corporais mecânicas.

Zima Blue

O personagem que dá nome ao episódio ganhou o mundo com sua arte. Apesar de um início modesto, em que pintava retratos, ele sempre soube que queria algo grandioso. Seus painéis imensos retratando o cosmos renderam-lhe reconhecimento, mas o artista parecia sempre insatisfeito. Após adicionar uma peça azul em uma das suas telas, em uma manobra que iniciaria sua Fase Azul, Zima guina para uma empreitada artística sem volta.

Neste que é um dos curtas mais “sérios” de Love, death & robots, discute-se a evolução do artista e como sua incansável busca pela perfeição pode levar a caminhos sombrios. É cercado de gente e sem nenhuma alegria, afinal, que Zima faz sua última grande apresentação.

O gigante afogado

A melancolia dita o ritmo desta animação bastante realista, que se assemelha aos melhores gráficos de videogame da atualidade. Uma vez mais, o absurdo é normalizado. Certo dia, um homem gigante aparece afogado na orla da praia. A notícia causa um fuzuê geral, naturalmente, e todos os dias as pessoas vão até lá para ver o corpo. Uma delas é o cientista que protagoniza o curta e fica fascinado com a descoberta, por mais que não demonstre a mesma euforia dos moradores locais.

Os dias passam, o corpo do gigante começa a se decompor e é vandalizado pelos jovens. A certa altura, está todo pichado. Combinado à aparência grotesca que começa a adquirir devido à decomposição, tem-se uma imagem forte. E o cientista melancólico continua indo visitá-lo, refletindo a respeito da situação: “Nós, espectadores, éramos cópias imperfeitas e insignificantes”. Até que o espetacular, como é comum à modernidade, logo é esquecido.

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Era uma vez em Hollywood
Quentin Tarantino
Trad.: André Czarnobai
Intrínseca
560 págs.

Sonhos elétricos
Philip K. Dick
Trad.: Daniel Lühmann
Aleph
244 págs.

Clube da luta
Chuck Palahniuk
Trad.: Cassius Medauar
LeYa
272 págs.

O curioso caso de Benjamin Button e outras histórias da era do jazz
F. Scott Fitzgerald
Trad.: Brenno Silveira
José Olympio
278 págs.