Livros tentam desmistificar o uso de drogas por meio da ciência

Tabu na sociedade desde sempre, as drogas ganharam nos últimos anos um importante aliado: a ciência — e parte substancial de cientistas no mundo todo. É o que mostram dois livros lançados recentemente: Psiconautas: Viagens com a ciência psicodélica brasileira, do jornalista Marcelo Leite, e Drogas para adultos, do neurocientista americano Carl Hart.

Diferentes entre si, principalmente na forma, eles convergem ao passar o recado de que drogas discriminadas há décadas podem ser benéficas para a saúde mental das pessoas, e não contrário, como governos e grande parte da sociedade acredita.  

Há décadas se dedicando ao jornalismo que procura destrinchar as principais novidades científicas para o leitor leigo, Leite resolveu investigar o crescente interesse de cientistas no uso terapêutico de drogas.

Para que sua narrativa ganhasse ainda mais profundidade, ele decidiu aprender sobre os efeitos dessas substâncias em si mesmo para que pudesse escrever com mais propriedade sobre os efeitos psicodélicos em uma pessoa.

“Reportagem em carne viva, ali onde jornalismo se confunde com antropologia e psicologia experimental. Um autoexame radical na zona de arrebentação da consciência”, escreve o neurocientista Sidarta Ribeiro no prefácio da obra. Ribeiro, junto a Luís Fernando Tófoli, Stevens “Bitty” Rehen e Dráulio de Araújo, compõe o grupo dos psiconautas — pessoas que usam os estados alterados de consciência, intencionalmente induzidos, para investigar a própria psique e a dos outros — brasileiros que guiaram Marcelo em suas explorações.

Marcelo Leite, autor de Psiconautas: Viagens com a ciência psicodélica brasileira.

Grande reportagem

Marcelo Leite é conhecido dos leitores da Folha de S.Paulo, onde atualmente é colunista de Ciência e Ambiente. Ele também atuou no jornal como editor de Ciência, de Opinião e de Internacional, além de ter sido Ombudsman, de 1994 a 1996, e correspondente em Berlim, nos anos 1990.

Um jornalista acostumado a “traduzir” assuntos considerados “difíceis” para a linguagem dos jornais. E é assim que ele conduz Psiconautas. Com linguagem fluída e acessível, ele escreve uma grande reportagem, em que apresenta números e personagens instigantes. Além de uma irresistível visão “de dentro” do assunto que é narrado.

Logo no início, o jornalista apresenta uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sobre o potencial terapêutico da ayahuasca, a substância psicodélica usada em rituais de religiões como Santo Daime, em pessoas que sofrem de depressão.   

Com 5,8% dos brasileiros afetados por esse transtorno mental, o país tem um verdadeiro exército de deprimidos: são impressionantes 12 milhões de pessoas.

Pacientes e pesquisadores

Acompanhando a trajetória de pacientes, médicos e pesquisadores, Leite vai revelando novos rumos na relação entre ciência e doenças mentais. “A ciência talvez nunca explique como nem por que ocorreu a antepassados dos povos indígenas sul-americanos combinar, por meio de cocção, o DmT das folhas da chacrona com as betacarbolinas do cipó-mariri macerado, produzindo assim o chá conhecido como ayahuasca, hoasca, daime ou yagé”, escreve.

“Fato é que essa tecnologia ancestral, analisada com ferramentas da bioquímica e da neurociência, tem contribuído para abrir novas perspectivas para o tratamento da depressão — ou daquilo que psiquiatras definem como transtorno depressivo, a dolorosa condição caracterizada por pelo menos duas semanas de humor deprimido ou irritável e perda de interesse ou prazer, acompanhada também de outros sintomas como perda ou ganho de peso, distúrbios do sono, fadiga, baixa autoestima, sensação de culpa, desconcentração e pensamentos suicidas recorrentes.”

Ele mostra como o trabalho realizado pela equipe do Instituto do Cérebro e do hospital da UFRN confirma o potencial dos compostos da ayahuasca para os cerca de 300 milhões de pessoas que sofrem com depressão no mundo, dos quais 100 milhões são resistentes aos antidepressivos convencionais.

Carl Hart, autor de Drogas para adultos.

Renascimento

O livro também mostra que dependentes de crack podem ter novas chances graças à ibogaína, droga sintetizada a partir de uma planta do Gabão, deixando claro que o “renascimento psicodélico” já é uma das áreas mais promissoras da pesquisa em saúde mental. Algo em que a contracultura apostou e a ciência está confirmando, décadas após o apogeu hippie.

Os relatos em primeira pessoa do autor também ajudam a dar um caldo especial ao livro. É quando a narrativa ganha contornos quase ficcionais. “Quando a música cessou, as luminárias foram apagadas e restou só a luz de uma vela”, escreve Leite sobre sua primeira experiência com ayahuasca.

“Finalmente percebi o quanto já entrara num estado alterado de consciência. À frente, via um tapete artesanal de retalhos, desses que se usavam junto da pia da cozinha em casas antigas, com listras de cores fortes, mas havia algo de errado com ele: tive a impressão de que algumas faixas se moviam ligeiramente, ou pulsavam.”

Drogas para adultos

A experiência de um autor com alucinógenos também guia Drogas para adultos, do americano Carl Hart, recém-lançado no Brasil. Professor da Universidade Columbia, ele é conhecido por frases polêmicas como “a guerra contra as drogas é uma guerra contra as pessoas: é uma guerra contra o direito do usuário à felicidade, à liberdade e à vida!”.  

Hart também é assumidamente um usuário de drogas. E em seu livro ele dá detalhes sobre o uso “recreativo” que faz de substâncias como maconha e metanfetaminas. E cita o exemplo da cannabis, que hoje é liberada em mais de 30 estados americanos para uso medicinal, depois de décadas sendo marginalizada.

Claro que as ideias de Hart causam polêmica. No Brasil, recentemente ele foi chamado de “viciado” pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que no Twitter escreveu o seguinte: “Parem de usar negros para defender o que não presta! É um insulto aos negros e acirra o preconceito racial”.

Uma das coisas mais curiosas na trajetória de Hart é que por muitos anos ele tentou provar que o uso de drogas é perigoso, até que os resultados de seus estudos não sustentaram mais tal hipótese.

Em Drogas para adultos, o neurocientista apresenta números que tentam provar suas teorias. E de como a guerra antidrogas em países como Brasil, Colômbia e Estados Unidos é equivocada, gerando apenas miséria e horror.

Hart também descreve sua luta para convencer outros pesquisadores de sua área, que atuam impedindo a adoção de novos tratamentos e políticas humanas mais saudáveis. E narra por que decidiu não se calar diante da ideologia moralista e punitiva que cerca o tema.

Compre os livros na loja Bienal Rio

Psiconautas: Viagens com a ciência psicodélica brasileira
Marcelo Leite
Fósforo
264 págs.

Drogas para adultos
Carl Hart
Trad.: Pedro Maia Soares
Zahar
408 págs.