Livros para atravessar um Carnaval de pouca folia

O Carnaval neste ano será como o anterior: pouca folia e mais descanso. Com as festas suspensas na maior parte das grandes cidades, sobra mais tempo para a leitura. Uma ótima oportunidade para entrar de cabeça em livros que fazem referência ao Carnaval, como a história do samba contada por Lira Neto. Ou imergir em assuntos completamente diferentes, como o recente Cidade nas nuvens, mais recente livro do vencedor do Pulitzer Anthony Doerr. 

Uma história do samba
Lira Neto

As origens do samba são tão controversas quanto a magia desse ritmo tipicamente brasileiro. Nasceu ou não no morro? E em que região do país ele teria surgido primeiro? O biógrafo cearense Lira Neto teve a ousadia de responder a essas questões em um livro que já virou essencial: Uma história do samba. Neste primeiro volume, o escritor leva o leitor das origens do samba até o desfile inicial das escolas de samba no Rio. Descendente das batidas afro-brasileiras, mas igualmente devedor da polca dançante, o gênero encontrou terreno fértil nos festejos do Carnaval de rua. Nas décadas de 1920 e 30, com o aprimoramento do mercado fonográfico e da radiodifusão, consolidou seu duradouro sucesso popular. Uma leitura enriquecedora e prazeirosa.

Uma história do samba
Lira Neto
Companhia das Letras
376 págs.

Arranjos para assobio
Manoel de Barros

Poesia é um gênero que cai bem em qualquer momento. Mas, quando se está descansando, é ainda melhor. E melhor ainda é ter um Manoel de Barros debaixo do braço se você está naquele retiro idílico, longe de qualquer resquício de civilização. Arranjos para assobio é um marco em sua carreira. É nesse livro que ele comete uma frase que vive na boca de outros poetas: “O poema é antes de tudo um inutensílio”. Mas além dessa sentença complexa em sua simplicidade, o poeta mato-grossense enche seus textos com pássaros, pedras, cachoeiras, insetos. Transforma seu habitat em grande poesia.

Arranjos para assobio
Manoel de Barros
Alfaguara
120 págs.

Os anos
Annie Ernaux

Annie Ernaux é uma estrela da literatura francesa que aos poucos conquista lugar entre os leitores brasileiros. Best-seller em seu país, Os anos foi publicado aqui pela Fósforo, que também tem editado outros títulos da autora. Seus livros, em geral, são curtos, mas extremamente densos. A escrita é totalmente autêntica, ainda que ele se utilize de um recurso antigo: a autoficção. Mas, devido ao seu modo de escrever, os críticos costumam usar a expressão “autobiografia impessoal” para rotular o que Ernaux escreve. É um termo apropriado, já que a escritora lança mão de um sujeito coletivo e indeterminado, que ocupa o lugar do eu para dar luz a recordações pessoais que se mesclam à grande História.

Os anos
Annie Ernaux
Fósforo
224 págs.

Carnaval no fogo
Ruy Castro

O Carnaval do título é mais uma alegoria do que a temática deste livro memorável de Ruy Castro. Com uma pegada jornalística forte e uma capa que retrata bem o seu conteúdo, Carnaval no fogo repassa 500 anos da história do Rio de Janeiro — da primeira índia tupinambá que namorou um pirata francês aos réveillons de Copacabana. Estudioso apaixonado do Rio, Ruy Castro retoma histórias importantes da cidade e os relaciona com o Rio contemporâneo, com seus problemas e prazeres.

Carnaval no fogo
Ruy Castro
Companhia das Letras
256 págs.

Cidade nas nuvens
Anthony Doerr

O mais recente romance de Anthony Doerr tem recebido ótimas críticas nos Estados Unidos. Como se trata do famoso “romanção”, um livro grande, um feriado talvez seja pouco para dar cabo à história. Mas certamente a trama vai “prender” a atenção. Cidade nas nuvens acaba de chegar ao Brasil e traz mais uma história surpreendente do vencedor do  Pulitzer em 2014 com Toda luz que não podemos ver. No novo livro, Doerr imagina que, um dia, as bibliotecas podem acabar. Esse tema é entrelaçado à vida de cinco protagonistas usando um livro como elo. É aí que a imaginação de Doerr “pega” o leitor o transporta para mundos dramáticos e imersivos.

Cidade nas nuvens
Anthony Doerr
Trad.: Marcello Lino
Intrínseca
752 págs.