Livro-reportagem conta histórias de pessoas trans

Em 2017 o público do Fantástico, da TV Globo, foi surpreendido com uma ousada reportagem sobre homens e mulheres transgêneros. Chamada “Quem sou eu?”, a série ajudava a entender pessoas que questionam seu gênero sexual. “Nos espantamos muito com a recepção positiva. Porque até então não havia muito essa discussão, ainda mais na TV aberta”, diz Renata Ceribelli, que conduziu as reportagens, vencedoras do prêmio Vladimir Herzog.

Dois anos depois, a repórter e o editor Bruno Della Latta procuraram os personagens e atualizaram as histórias da série televisiva, trabalho que deu origem ao livro Trans — histórias reais que ajudam a entender a vida das pessoas transexuais desde a infância.

A obra traz dez perfis e inclui histórias inéditas, que não foram ao ar. Em um trabalho jornalístico de muita pesquisa, apuração e entrevistas, os textos buscam mostrar ao leitor a realidade e a vida dessas pessoas que nasceram com órgão sexual do qual não se identificam e que acabam estigmatizadas por conta disso.

Renata diz que no livro tiveram a oportunidade de aprofundar certas questões que, dado o tempo limitado da TV, não puderam entrar nas reportagens. “Foi interessante revisitar as histórias”, diz a repórter, que está no Fantástico desde 1998. “Entre os personagens, alguns queriam trocar de sexo, outros já tinham feito a conversão e alguns ainda estavam se descobrindo. Acho que conseguimos fazer um panorama geral de todas as fases de um transgênero.”

Renata Ceribelli: “O livro e a série de TV deram voz a pessoas que não estão acostumadas a serem ouvidas pela sociedade”.

Bastidores das reportagens

Ela cita como exemplo a história de Mel, de apenas 11 anos, que abriu a série da TV e também está no livro. A garota nasceu com genitália masculina, mas sentia-se uma menina. “Como a série abre com essa história, e não tem nenhum tom sexual, pois se trata de uma criança, isso acabou mudando um pouco o olhar das pessoas. Foi um acerto.”

Renata e Bruno “dividiram” a escrita das reportagens. No entanto, a dupla conseguiu imprimir um padrão que dá unidade às histórias, sem que o leitor saiba quem produziu um ou outro texto. As reportagens também trazem um tom de “bastidor”, narrando coisas que aconteceram em off, além de gestos, olhares e sentimentos que as câmeras não captaram na TV.

Consultorias e orientações

Assunto espinhoso e cheio de “pequenas cascas de bananas”, a série contou com diversas consultorias, como a de Bárbara Aires, que trabalhou durante toda a produção da série junto a equipe do Fantástico. Além de consultora, ela também é personagem do livro.

Bárbara alimentava a equipe com informações sobre o sofrimento de se nascer trans e orientava também sobre os termos adequados que a comunidade LGBTQIA+ — cuja sigla tem o significado descrito no Glossário que acompanha a obra — adota para falar de suas questões. “É fácil cair na armadilha de usar uma palavra que possa soar ofensiva”, confessa Renata. “Até porque mesmo dentro da comunidade trans, há divergências.”

Em parceria com Renata Ceribelli, o editor Bruno Della Latta atualizou as histórias da série do Fantástico.

Pelo lado da ciência, o dr. Alexandre Saadeh forneceu orientações imprescindíveis. Psiquiatra, ele coordena o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), onde vários personagens foram encontrados.

“O livro e a série de TV deram voz a pessoas que não estão acostumadas a serem ouvidas pela sociedade. São elas e a ciência falando que ser trans não é uma opção, pois as pessoas nascem trans”, diz Renata.

Os autores têm feito lives no Instagram com seus personagens. A primeira foi com Bárbara Aires. “Acho que o livro pode ser uma referência na área, pelo menos sob esse ponto de vista mais jornalístico”, diz Renata. Além dos perfis, o livro ainda traz textos introdutórios dos autores, da consultora Bárbara Aires e da repórter Cristina Serra, que acompanhou de perto a produção das reportagens e no meio do processo “descobriu” que seu filho era trans.

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Trans — histórias reais que ajudam a entender a vida das pessoas transexuais desde a infância
Renata Ceribelli e Bruno Della Latta
Globo Livros
232 págs.