Livro de frases e exposição mostram Clarice Lispector por inteira

Hoje Clarice Lispector é um dos rostos que personificam a literatura brasileira no exterior — rivalizando apenas com Machado de Assis e Paulo Coelho entre os nossos autores mais conhecidos na Europa e nos Estados Unidos.

Parte desse sucesso se deve à internet, porque Clarice é uma das personalidades mais citadas nas redes sociais devido à força de suas frases. Mesmo isoladas, tiradas do contexto dos livros em que foram publicadas originalmente, elas parecem ter vida própria — cheias de poesia, musicalidade e, claro, um misticismo carregado de incógnitas —, como se pode ver ao longo deste texto.

Há impossibilidade de ser além do que se é — no entanto, eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu sou normalmente.
(Perto do coração selvagem, 1943)

É o que mostra As palavras e o tempo, livro que a editora Rocco acaba de publicar, compilando nada menos do que 4.500 frases de Clarice Lispector, de todos os seus livros. Além dessa nova reunião de frases, o leitor vai poder entrar ainda mais fundo no universo da escritora nascida na Ucrânia ao visitar a exposição Constelação Clarice.

Com curadoria do poeta Eucanaã Ferraz e da escritora Veronica Stigger, a mostra faz uma aproximação da obra de Clarice com as artes visuais, manifestação artística bastante presente em sua obra. A mostra, organizada pelo Instituto Moreira Salles, em sua sede na Avenida Paulista (SP), tem agendamento pelo site da instituição e segue até 27 de fevereiro de 2022.

Detesto as pessoas de quem assisto às convulsões da inteligência.
(O lustre, 1946)

Clarice Lispector, autora de As palavras e o tempo. Foto: Acervo IMS

Frases e mais frases de Clarice Lispector

Junção de duas outras coletâneas de frases  de  Clarice, a edição de As palavras e o tempo conta com ilustrações da neta da autora, Mariana Valente, e traz 180 novas citações atualizadas com as últimas publicações de sua obra, incluindo o mais recente Todas as cartas.

Divididos cronologicamente conforme apareceram pela primeira vez no livros, os trechos se referem a romances, contos e crônicas, mas também cartas e anotações pessoais. Apesar de não cobrir toda a obra da escritora, o livro dá conta de boa parte dela.

Em certas coisas, mesmo boas, não se devia tocar jamais, nem com o pensamento.
(A cidade sitiada, 1949)

As frases revelam Clarice em diferentes etapas de sua vida, já que estão presentes trechos de seu romance de estreia, Perto do coração selvagem, publicado em 1943, escrito quando ela tinha apenas 19 anos (mas publicado quando Clarice estava com 24 anos), até fragmentos de seu último livro, Um sopro de vida, publicado postumamente em 1978.

O espanto parece com a grande alegria.
(A maçã no escuro, 1961)

Uma das razões que fez de Clarice uma escritora até certo ponto “popular” é a grande “empatia” que ela estabelece com o leitor, em que parece conversar, mais do que narrar. Essa característica fica ainda mais evidente com as frases sendo lidas de forma aleatória, mesmo pinçadas fora de contexto.

Podem ser lidas, de certa forma, como “ensinamentos”, mas nunca com “ar professoral”, ou um olhar de cima para baixo. Como diz o velho ditado sobre a crônica, Clarice estabelece uma conversa “ao rés do chão” com seu leitor.

Todos os retratos de pessoas são um retrato de Mona Lisa.
(A paixão segundo G. H., 1964)

A vida

Clarice estreou na literatura muito jovem, e começou com tudo, fazendo muito barulho com o romance Perto do coração selvagem. Ela se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, e em 1944 partiu para uma longa temporada no exterior.

Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida.
(Água viva, 1973)

Avessa à vida social, encontrou refúgio na literatura. Em 1964, publicou o romance A paixão segundo G. H., seu livro mais importante e também uma de suas obras mais difíceis: é lá que está a cena em que a protagonista esmaga e come a gosma de uma barata.

Seus livros se caracterizam pelo uso brilhante do fluxo de consciência, o que por vezes aproxima sua escrita da de Virginia Woolf, apesar das enormes diferenças entre as duas escritoras.

Essa vida ao mesmo tempo cheia de aventuras e viagens, mas também bastante “caseira”, pode ser conferida na exposição Constelação Clarice, que celebra a obra e o legado da autora, reunindo aproximadamente 300 itens, entre manuscritos, fotografias, cartas, discos e matérias de imprensa, além de outros documentos do acervo pessoal da autora.

Amor é a desilusão do que se pensava que era amor.
(A legião estrangeira, 1964)

A mostra também faz uma conexão entre a obra de Clarice e as artes plásticas, com a exibição de obras de cerca de 20 artistas visuais mulheres, que atuaram na mesma época que a autora, entre as décadas de 1940 e 1970. No conjunto, há trabalhos de Maria Martins, Mira Schendel, Fayga Ostrower, Lygia Clark, Letícia Parente, Djanira e Celeida Tostes, entre outras.

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As palavras e o tempo
Clarice Lispector
Rocco
544 págs.