O livro vai ao cinema

As plataformas de streaming operam com números astronômicos. A Netflix, em atividade no Brasil desde 2011, informou no último mês de janeiro — em carta aos investidores — que atingiu a marca de aproximadamente 204 milhões de assinantes ao redor do mundo.

Essa notícia — por mais que exista quem considere o livro e o audiovisual como concorrentes — não poderia ser melhor para o público leitor: uma das produções recentes da gigante sediada em São Francisco, na Califórnia, é O gambito da rainha (2020) — minissérie de sete episódios sobre a jornada turbulenta da personagem Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy) no mundo do xadrez e contra o alcoolismo, baseada em livro homônimo do norte-americano Walter Tevis.

Anya Taylor-Joy interpreta a enxadrista Elizabeth Harmon na série “O gambito da rainha”, da Netflix.

A adaptação, dirigida por Scott Frank e que rendeu à série e à protagonista um Globo de Ouro, é apenas a ponta do iceberg quando se pensa no que essa dupla — literatura e audiovisual — já proporcionou tanto para os apreciadores da sétima arte quanto para leitores fiéis.

Em entrevista à Bienal 360º, o escritor e roteirista Marçal Aquino lembra um clássico contemporâneo anterior aos canais de streaming, mas atualmente disponível no catálogo da Amazon Prime. “Quando se fala em adaptação, se tivesse de citar um exemplo relativamente recente, mencionaria o filme Onde os fracos não têm vez (2007), feito pelos irmãos Coen a partir da extraordinária novela do Cormac McCarthy”, diz Aquino, que participou do roteiro de filmes como O cheiro do ralo (2007), O invasor (2002) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2011), todos baseados em obras literárias, as duas últimas de seus próprios livros.

Marçal Aquino colaborou com os roteiros de “O cheiro do ralo” e “O invasor”.

Tem espaço para todos

Ainda nessa levada mais adulta e violenta, ou ultraviolenta, Fernando Bonassi — outro nome experiente do cinema nacional — cita três figuras importantes quando se fala em adaptações audiovisuais de livros: os americanos Stanley Kubrick (1928-1999) e Francis Ford Coppola e o paulistano Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). “Admiro e me emociono com a versão cinematográfica de Vidas secas, do Nelson, tanto quanto como a obra-prima do Graciliano Ramos”, diz o autor que lança ainda neste ano, pela editora Record, o romance Degeneração. “Duas obras poderosas que correm em paralelo, arrancando pedaços do coração da gente!”, completa. Bonassi participou da elaboração dos roteiros de filmes como Carandiru (2003) e Os matadores (1997).

Fernando Bonassi participou dos roteiros dos filmes “Carandiru” e “Os matadores”.

Voltando às crias do Tio Sam, vale lembrar que Kubrick dirigiu filmes como Lolita (1962), 2001: Uma odisseia no espaço (1968), Laranja mecânica (1971) e O iluminado (1980), entre outros. Já Coppola, indicado 14 vezes ao Oscar e ganhador de 5 estatuetas, esteve à frente da franquia O poderoso chefão (1972, 1974 e 1990) e encabeçou, entre outros longas-metragens baseados em livros, Apocalypse now (1979) e Vidas sem rumo (1983).

Esse name-dropping poderia se estender por várias páginas, considerando desde as narrativas mais leves (Harry Potter e O senhor dos anéis, por exemplo) até as distopias mais brutais (como a série O homem do castelo alto ou o filme Blade runner, baseados em livros de Philip K. Dick), mas a conclusão parece se insinuar com facilidade: essas diferentes linguagens podem conviver em harmonia.

O filme “Blade runner”, dirigido por Ridley Scott, é baseado no romance “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick.

“A relação entre cinema e séries e a literatura é a melhor possível, uma tem ajudado muito a outra a vencer em inteligência, ousadia e na disseminação de boas obras entre o grande público”, opina Bonassi. E àqueles ainda preocupados com a possibilidade de um formato “engolir” o outro, Aquino compartilha sua visão: “Não acredito no fim do livro. Penso que sempre vão existir leitores e interessados, não importa o número”.

E como é que faz?

“Na adaptação você precisa ser fiel ao espírito do livro, mas sabendo que as linguagens em transição, em atrito, elas são diferentes e requerem certas invenções e articulações”, comenta Bonassi a respeito de uma questão que dá pano para mangas: até onde a adaptação deve respeitar o texto original?

Um caso icônico, a título de curiosidade, remonta o início dos anos 1970: quando Kubrick lança Laranja mecânica, adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess (1917-1993), o escritor inglês fica possesso — a conclusão do longa-metragem, afinal, é diametralmente oposta ao desfecho da narrativa literária. Toda história dá em nada, excluindo-se uma ou outra farpa trocada entre os autores, e hoje a saga de Alex e seus “drugues”, como se diria no dialeto fictício Nadsat, foi incorporada pela cultura pop — a mesma que parece, atualmente, muito receptiva às adaptações baseadas em literatura ou quadrinhos.

Quadrinhos em movimento

Para não deixar as HQs de fora da discussão, cabe lembrar o sucesso recente de The boys (2019). A produção, original da Amazon, é inspirada nos quadrinhos de mesmo nome de Garth Ennis e Darick Robertson. Em duas temporadas e 16 episódios, a adaptação que traz Karl Urban no papel do durão Billy Butcher se passa em um universo que busca humanizar os super-heróis, expondo os bastidores podres do que supostamente seria uma vida glamorosa (a de super-herói), em uma proposta que conversa com Watchmen (1986-87), do “mago” dos quadrinhos Alan Moore — ou do longa homônimo de Zack Snyder, que levou a narrativa de Moore para as telonas em 2009.

A série “The boys”, original da Amazon, é inspirada nos quadrinhos de mesmo nome de Garth Ennis e Darick Robertson.

Nota-se que não faltam opções dentro desse universo das adaptações. Aos que de repente estejam pensando em iniciar uma jornada nessa área ou se interessam pelo assunto, enfim, Bonassi dá ainda outro conselho: “Uma boa ideia traduzida numa boa trama faz um bom filme, mas não basta ter uma história bacana se você não tem o compromisso de contá-la. Arte ainda é vontade, mais do que técnica; ousadia, mais do que repetição de uma fórmula. Mas ter uma ideia estruturada faz toda a diferença”. Já Marçal, mais sucinto, diz: “Não existe receita”.