Literatura futebol clube: autores e seus times de coração

No Brasil, as boas histórias sobre futebol — das mais trágicas às mais alegres — percorrem o cotidiano, dobram esquinas, fervilham nas mesas dos botecos, invadem os encontros familiares. O futebol sempre esteve no imaginário do país.

Os escritores, obviamente, não fogem à regra e muitos têm o seu time do coração. O portal Bienal 360º revela as paixões de onze autores e autoras de diversas regiões do país.

O gaúcho Carpinejar é ovelha desgarrada, colorado em família de gremistas. Tony Bellotto, um santista que por influência dos filhos, virou também flamenguista. Assim como Sérgio Rodrigues, que era Cruzeiro e foi conquistado pelo Flamengo de Zico.

Já o catarinense Cristovão Tezza se viu Athletico ao pisar em Curitiba — a paixão é tanta que uma cena com o time encerra um de seus livros mais conhecidos, O filho eterno.

Cida Pedrosa, a grande vencedora do prêmio Jabuti em 2020, foi buscar na infância suas primeiras lembranças do Náutico. O que também fez Francisco Bosco, que com apenas 3 anos comemorou um título do Flamengo no Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro.

Do Rio Grande do Sul a Pernambuco, de Minas ao Rio, as histórias se entrelaçam em narrativas emocionantes sobre família, amizade, deslocamentos e lembranças.

Fabrício Carpinejar

Sempre fui um colorado numa família de gremistas. O que significa que é amor verdadeiro, transgressor, que não se limitou a acompanhar o rebanho. Sou uma ovelha vermelha, que criou a sua paixão do isolamento, não aceitou suborno ou facilidades. Ia ao estádio sozinho, e torcia trancado no quarto. Não deixa de ser um sinônimo da própria literatura, de ser desagradável e remar contra a maré da maioria.

Fabrício Carpinejar é poeta e cronista, autor de As solas do sol e Colo, por favor!.

Fabrício Carpinejar é um colorado em família de gremistas.

Cidinha da Silva

A primeira história infantil contada por meu pai é repetida até hoje. Por conta dela torcemos pelo Atlético Mineiro lá em casa. Como meu pai é de 1942, o fato deve ter ocorrido em meados da década de 1950. O velho, bom de bola, inscreveu-se para teste no Cruzeiro, Palestra Itália, àquela época. Mesmo tendo sido o primeiro a chegar, os demais meninos fizeram o teste antes dele. Quando finalmente chegou sua vez, o coordenador da seleção chamou-o com um seco “vem aqui” e quando meu pai, então menino, se aproximou, o homem cuspiu no chão, quase acertando o pé dele e disse apontando a rua: “Chispa daqui antes que seque”. Quem é mineiro conhece bem os usos do verbo “chispar”. Ele manda que a saída de determinado lugar seja imediata. Mas minha identificação com o Galo se deu também pela alegria, eu vi Reinaldo jogar, e quem viu Reinaldo em campo, foi, como eu, inexoravelmente tocado pela magia do futebol.

Cidinha da Silva é escritora, autora de Um Exu em Nova York e Os nove pentes d’África.

Tony Bellotto

Nasci em São Paulo, em 1960. Apesar de meu pai ser corintiano, não resisti às campanhas vitoriosas do Santos naquela década, e ao magnetismo do rei do futebol, Pelé. Depois que me mudei pro Rio e meus filhos cresceram naturalmente flamenguistas, por tradição da família carioca, me tornei um torcedor híbrido, que sempre torce pelo empate quando Santos e Flamengo se enfrentam.

Tony Bellotto é músico e escritor, autor dos romances No buraco e Dom.

Cida Pedrosa

Joguei bola quando menina. O dono da bola era meu sobrinho, quase da minha idade, hoje meu compadre. Uma menina de shortão no meio de muitos calções. O campinho — as barras improvisadas com as chinelas japonesas —, o sol torrando os pés — a magia da bola Dente de Leite novinha girando —, o abraço suado na hora do gol. Éramos uma única paz naquele instante e as diferenças só voltavam quando éramos chamados para a merenda da tarde. Naquele tempo o rádio, lindamente postado na mesinha, era a nossa ligação com os campeonatos e o mundo. O domingo tinha ouvido de apito e era muito mais feliz. Quando vim morar em Recife, encontrei o meu timão pela primeira vez. Num clássico: Náutico x Sport, no nosso Estádio dos Aflitos. Minha flâmula vermelha e branca, costurada à mão, bailava a cada compasso dos jogadores. Perdemos de 4 a 1. Bandeira enrolada debaixo do braço — ponto de ônibus lotado —, domingo vazio. Meu irmão e parceiro da torcida passou a mão na minha cabeça e disse: “Somos o timbu coroado e ser HEXA É LUXO!” No ano seguinte minha bandeira tinha que ser transportada do lado de fora da janela do busão e o “N. A. U. T. I. C. O. NAU, NAU, NÁUTICO!”, tantas vezes gritado, ecoou na minha barriga e fez mais dois torcedores na minha casa.

Cida Pedrosa é poeta, autora de Solo para vialejo.

Cristovão Tezza

Minha vida de torcedor tem dois momentos distintos. O primeiro na infância, quando cheguei a Curitiba, aos 7 anos. Em frente de casa, na Mateus Leme, havia um campinho de futebol maravilhoso, onde exercitava minha perna de pau de sempre — e lá descobri o Athletico por influência dos amigos. Passei os anos como um torcedor fiel, mas não praticante, acompanhando à distância os altos e baixos do rubro-negro. Já o segundo momento foi impactante, ao perceber a extraordinária importância do futebol e de todo o seu imaginário na educação social do meu filho Felipe (que é Down), um athleticano absoluto que despertou minha paixão adormecida. Com ele, na alegria e na tristeza, acompanho há décadas os jogos do Athletico, no campo, na tevê, no rádio, e torcer passou a ter um sentido especial para mim, tornando-se uma misteriosa necessidade emocional.

Cristovão Tezza é romancista e contista, autor de O filho eterno e A tensão superficial do tempo.

Cristovão Tezza compartilha a paixão pelo Athletico com seu filho Felipe.

Martha Medeiros

Medeiros é um sobrenome familiar ao Internacional. Quando eu era adolescente, meu tio foi presidente do clube e, recentemente, o filho dele, meu primo, também. Logo, vermelho sempre foi a cor mais quente lá em casa. Entre os 14 e 18 anos, eu assistia a todos os jogos no Beira Rio — não faltava nem quando a partida era desimportante, contra um time pequeno, numa noite gelada do inverno porto-alegrense. Mas as três grandes experiências que tive no estádio foram as finais do campeonato brasileiro em 1975, 1976 e 1979. Depois larguei: fui namorar, trabalhar, viajar — que futebol, que nada. Passei a acompanhar apenas os jogos decisivos. O título mundial, em 2006, vi pela tevê e vibrei, e o último jogo a que assisti ao vivo foi contra o Flamengo, em 2019, no Maracanã. Perdemos, mas eu ganhei. Que saudade que estava da energia eletrizante de um estádio apinhado — e vermelho para tudo que é lado.

Martha Medeiros é romancista e cronista, autora de Divã e A claridade lá fora.

Martha Medeiros: o vermelho do Inter sempre foi a cor mais quente na família.

Francisco Bosco

A primeira memória que tenho de toda a minha vida é a seguinte: eu sentado, aos 3 ou 4 anos, em cima do capô de um carro, dentro do túnel Rebouças, em meio à comemoração do título brasileiro de 1980. Os novinhos talvez não saibam, mas era uma tradição comemorar títulos do Fla dentro do Rebouças. A atmosfera originária do meu inconsciente é vermelha e preta, o som é de cânticos, gritos e buzinas. Os heróis da minha infância tinham short curto, pernas grossas e cabelos longos — lisos, como os de Leandro e Zico, ou crespos, como os de Nunes e do Capacete. Muita gente sabe que durante o Complexo de Édipo (entre os três e cinco anos, mais ou menos) encaminha-se a sexualidade de uma pessoa. Mas é também nessa época que se decide a outra dimensão fundamental da vida de um sujeito brasileiro: seu time de futebol. São decisões do inconsciente, em que o eu não desempenha papel algum. E é precisamente isso que as torna pétreas, míticas, irrevogáveis (alguém que mantém uma relação séria com futebol respeita uma pessoa que mudou de time?). Ora, o inconsciente “escolhe” por identificação. Daí o papel do pai, sobretudo, e dos demais homens da família que torcem pra outros times e tentam disputar a alma do garoto (na minha infância o conceito de igualdade de gênero não tinha chegado ainda ao futebol). No meu caso, meu pai era um mineiro rubro-negro que me levava ao Maracanã. Mas desconfio que o argumento que venceu meu inconsciente foi a magia da torcida, na época do velho Maracanã, e a poesia máxima daquele esquadrão comandado por Zico, o Aquiles de minha epopeia infantil. Campeão, energizado pela massa e descobrindo a poesia do jogo bem jogado — como poderia ser diferente? Flamengo sempre eu haveria de ser.

Francisco Bosco é filósofo e ensaísta, autor de Alta ajuda e A vítima sempre tem razão?

Francisco Bosco: flamenguista desde os 3 anos ao comemorar título no Túnel Rebouças.

Claudia Lage

Já gostei mais de futebol, nos últimos anos, e em especial da pandemia para cá, perdi totalmente a conexão com ele. Melhor relembrar lá no início, quando meu pai me entupia de camisas, toalhas e almofadas do Flamengo desde bebê, até que um dia fui capturada e me rendi, virei flamenguista, mas sem muita emoção e interesse, vibrava mais com a Copa do Mundo do que com o meu time. Tudo mudou de forma drástica e imprevista anos depois. Tornei-me leitora do Nelson Rodrigues. Algumas páginas de A pátria em chuteiras foram suficientes: virei casaca, virei Fluminense. Não precisei ir para a análise, meu pai me perdoou: ele reconheceu a paixão. Em 2009, sofri, em 2010, vibrei, e, em 2015, me vi fazendo o mesmo que o meu pai, comprando roupinhas tricolores para o meu filho. Se vai vingar, não sei. Agora é com ele.

Claudia Lage é escritora e roteirista, autora de O corpo interminável.

Xico Sá

Virei santista em uma noite de 1968, tentando dormir em uma rede no sítio das Cobras, Santana do Cariri, Ceará. Tinha quase seis anos. Nivaldo Barbosa, um primo mais velho da mesma roça, ouvia o rádio e berrava “Pelé, Pelé, Pelé”. Era um Santos x Corinthians. Além de atrapalhar meu sono de sertanejo, Pelé me fazia torcedor do Peixe naquela hora. Acordei e soube, também pela resenha de rádio, que Pelé seria o maior jogador de bola do mundo. Nunca mais larguei os passos do rei e do Santos Futebol Clube. Certo dia, já nos anos 1990, contei essa história ao Rei. Eu já era um jovem repórter da Folha de S. Paulo. Eu chorei de novo. A majestade me deu um forte abraço.

Xico Sá é jornalista, cronista e escritor, autor de Big Jato e O livro das mulheres extraordinárias.

Xico Sá: santista de ir às lágrimas ao abraçar o rei Pelé.

Sérgio Rodrigues

Virei torcedor num tempo e num lugar em que o poliamorismo era não só aceito, mas incentivado. Na Zona da Mata mineira, no fim dos anos 60, antes portanto de sequer existir Campeonato Brasileiro, nós torcíamos por um time em Minas e outro no Rio — isso no mínimo, pois havia o pessoal que caprichava no ecletismo e ia buscar simpatias também em outros estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Eu era mais econômico nos afetos: torcia apenas por Flamengo e Cruzeiro, os dois ao mesmo tempo, sem hierarquia. Essa situação não durou muito. Logo veio o tempo da nacionalização do futebol e o Flamengo foi se impondo naturalmente como soberano. Por quê? A geografia deve ter sido um fator: eu tinha 12 anos quando meus pais se mudaram para Resende (RJ), dando início a um movimento que eu completaria aos 17, quando desembarquei sozinho no Rio para fazer vestibular e nunca mais fui embora. Mas acho que o mais importante foi ter, ainda no início da adolescência, visto aparecer um sujeito chamado Zico, o maior craque brasileiro daquela geração. Na fase em que se torce com mais paixão e abandono, entre a adolescência e o início da idade adulta, eu tive a sorte de ser torcedor do Flamengo do Zico, e isso deixa marcas para sempre. Embora tenha sido obrigado a esperar até 2019 para voltar a ver meu time jogar em nível tão alto outra vez, não posso negar que sou um cara de sorte.

Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor, autor de O drible e A visita de João Gilberto aos Novos Baianos.

Frei Betto

Nasci em uma família que não tinha o mínimo interesse por futebol. Então talvez por influência de meu pai, que era totalmente indiferente ao esporte, eu acabei não me interessando também. Dos oito irmãos, apenas um virou torcedor. Mas minha avó morava em frente ao estádio do Atlético Mineiro e minha mãe virou torcedora. Então nessa época eu fiz de conta que era atleticano. E na Copa do Mundo de 1950, fui com meu pai e meu irmão ao jogo entre Estados Unidos e Inglaterra, no estádio do América — construído para o evento. Mas o troféu que guardo comigo é que estive na final do mundial de clubes disputada por Santos e Milan, no Maracanã, em 1963, jogo vencido pelo time de Pelé. Essa foi a última vez que entrei em um estádio.

Frei Betto é jornalista e escritor, autor de Batismo de sangue e Diário de quarentena: 90 dias em fragmentos evocativos.