“Lira mensageira” e outros livros destrincham Semana de 22

A Semana de Arte Moderna de 1922 é o grande assunto cultural deste começo de ano no Brasil. O centenário do evento que mudou a cara da cultura brasileira tem movimentado também o mercado editorial.

Desde o final de 2021, vários livros têm sido publicados, com diferentes abordagens sobre a Semana de 22, cujo centenário será comemorado em fevereiro. Um dos mais interessantes trabalhos publicados é Lira mensageira, do professor da Universidade e São Paulo Sergio Miceli.

Isso porque o livro propõe uma abordagem diferente da Semana de 22, olhando-a sob a ótica da trajetória de Carlos Drummond de Andrade e do grupo de jovens intelectuais que se reuniam no Café Estrela, em Belo Horizonte, no começo dos anos 1920.

Além de Drummond, o grupo era formado pelo memorialista Pedro Nava, o romancista Cyro dos Anjos (autor de O amanuense Belmiro) e o poeta e contista João Alphonsus de Guimaraens. Miceli resgata uma história pouco conhecida de um grupo de intelectuais que, mesmo em Minas, conseguiram dialogar e contribuir para o movimento que tomava corpo em São Paulo.   

“Nascidos entre 1898 e 1906, procedentes de regiões variadas do ‘mosaico’, todos vieram residir em Belo Horizonte a fim de completar o secundário e ingressar na faculdade”, escreve Miceli sobre as origens do jovens mineiros.

“Apesar da medida desigual no tocante ao vulto material e simbólico do dote, a maioria pertencia a famílias de nomeada. Exceto Drummond e Pedro Nava (1903-84), formados, respectivamente, em farmácia e medicina, os demais concluíram o curso de direito ao longo da década de 1920”.

Cartaz criado por Oswald de Andrade e Di Cavalcanti

A política se mistura à narrativa a partir do momento em que quase todos os autores do grupo mineiro estiveram locados em cargos públicos, a começar por Drummond, que se beneficiou de sua relação com Gustavo Capanema, que mais tarde seria ministro da educação de Getúlio Vargas.

A obra também traz olhares sobre o modernismo paulista e a classe política na Era Vargas. Na segunda parte do livro, Miceli faz detalhadas análises sobre as obras de estreia de Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, os escritores na linha de frente da Semana de 1922. O autor relaciona, de forma bastante clara, o contexto em que esses livros marcantes foram gerados.   

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Lira mensageira
Sergio Miceli
Todavia
264 págs.

Outros livros sobre a Semana de 22

Participantes da Semana de Arte Moderna de 1922.

1922, a semana que não terminou
Marcos Augusto Gonçalves

Quando a Semana de Arte Moderna de 1922 completou 90 anos, em 2012, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves lançou 1922, a semana que não terminou, que entrou para a galeria dos principais livros a respeito do evento histórico. Um dos méritos da obra, é a linguagem clara com que relata os acontecimentos. Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo.

1922, a semana que não terminou
Marcos Augusto Gonçalves
Companhia das Letras
376 págs.

Semana de 22: Antes do começo, depois do fim
José De Nicola e Lucas De Nicola

“A Semana de 22, corretamente ou não, se tornou, na história cultural do Brasil, uma espécie de emblema de criação e de crítica, de inquietação e de criatividade”, dizem os autores de Semana de 22, José De Nicola e Lucas De Nicola. Com vasta documentação, o livro mostra como o evento foi duramente atacado pela crítica conservadora, mas também como a Semana subverteu os padrões artísticos e literários da época e virou um marco importante de nossa história, tornando-se matéria de reflexão sobre a cultura brasileira.

Semana de 22: Antes do começo, depois do fim
José De Nicola e Lucas De Nicola
Sextante
648 pás.

Clássicos
Mário de Andrade

Figura central do movimento modernista no Brasil, Mário de Andrade cravou seu nome na história literária do país por conta de seu engajamento cultural, mas principalmente pelos livros que escreveu — alguns deles considerados clássicos. Neste box estão reunidas três obras fundamentais para quem quer conhecer Mário de Andrade e o modernismo brasileiro. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de 1926, é o livro mais conhecido do escritor e leitura fundamental. Contos novos foi publicado em 1947, dois anos depois da morte de seu autor, e mergulha na realidade social e psíquica do homem brasileiro. Já Obra imatura reúne os primeiros passos de Mário de Andrade nas principais trilhas que seguiria em seu percurso artístico: a poesia.

Clássicos
Mário de Andrade
Nova Fronteira
864 págs.

Diário confessional
Oswald de Andrade

Outro nome fundamental da Semana de 22, Oswald de Andrade despe seu intelecto neste relato arrebatador. Organizado por Manuel da Costa Pinto, Diário confessional foi escrito à mão em dezenas de cadernos entre 1948 e 1954, ano da morte do escritor. O tomo registra o cotidiano de acontecimentos pessoais e familiares e se mistura a uma constelação de reflexões sobre filosofia, literatura e arte, temperadas com a conhecida ironia ferina de Oswald. O livro inclui fragmentos sobre a Semana de Arte Moderna no teatro municipal, num balanço retrospectivo realizado trinta anos depois, e o inacabado A antropofagia como visão do mundo, ensaio ambicioso que Oswald planejou como suma teológica de sua obra.

Diário confessional
Oswald de Andrade
Org. Manuel da Costa Pinto
Companhia das Letras
560 págs.