Leituras que propõem reflexões e resiliência para um novo ano com pandemia

Livros têm propriedades mágicas. A leitura pode acalmar dores, despertar alegrias, motivação e até mesmo curas psíquicas. A pandemia e todos os seus efeitos têm estimulado autores e editoras a publicarem reflexões sobre esse tema, oferecendo aos leitores caminhos para entender e enfrentar as incertezas e instabilidades emocionais, sociais e políticas dos novos tempos.

 O escritor Fabrício Carpinejar foi um deles. Seu livro Colo, por favor! (Editora Planeta) foi produzido durante o confinamento e sua primeira edição, de 4 mil exemplares, está esgotada. Nele, o leitor encontra 40 textos sobre sentimentos variados que têm afligido a sociedade. Novo Normal: Provocações sobre tempo, liderança, relacionamento e o si-mesmo (Editora Vozes), dos autores Gustavo Barcellos, Luciano Alves Meira, Luís Mauro Sá Martino e Volney J. Berkenbrock; e Lupa da alma: Quarentena-revelação (Editora Todavia), da psicanalista Maria Homem, foram frutos também deste período conturbado da História da humanidade.

 Segundo Carpinejar, que inclusive foi um dos participantes do Café Digital produzido em julho do ano passado, Colo revela nossa necessidade por aconchego. Para ele, com as mudanças provocadas pela crise do coronavírus, o indivíduo perdeu o colo da normalidade, da rotina.

Fabrício Carpinejar autor de “Colo, por favor”.

“Talvez a gente esteja redescobrindo o colo de si mesmo. Os textos desse livro ajudam nesta redescoberta. O momento agora é de não ter pressa, conviver com as dúvidas, deixar o tempo cicatrizar. É saber que aquilo que a gente planejou pode mudar. Nunca foi tão importante o improviso, a adaptação. Foi nos roubado o futuro, ficamos confinados no mesmo lugar e no mesmo tempo. Mas há que se ter esperança, e a nossa esperança vem da vacina e um novo mundo de possibilidades que se abrirá com ela”, declarou o escritor. Dividido em quatro capítulos, Novo Normal também aponta a importância de saber conviver com o tempo. O primeiro capítulo, escrito por Volney J. Berkenbrock, parte de saberes da mitologia grega para explicar as cinco formas de perceber o tempo. O autor recorre ao significado de Kairós, que reflete oportunidade, tempo oportuno. 

“Novo Normal” publicado pela editora Vozes.

“No início da pandemia, muitos ficaram lamentando oportunidades que não tinham mais, que haviam passado. Outros perceberam que este tempo diferente também apresentava oportunidades. E as agarraram. Desta forma, este mito do deus Kairós ajuda a refletir sobre a percepção de oportunidades neste tempo, deixando para trás as lamentações sobre as oportunidades perdidas”, explica.

O autor Volney J.Berkenbrock recorre à mitologia grega para refletir sobre o tempo.

O livro, entretanto, não se atém a respostas e sim a provocações. Questionado sobre o que virá com o mundo pós-pandemia, Luciano Alves Meira pontua: 

“Não podemos assumir a missão de projetar o futuro do mundo. Como ele será? Se, por um lado, certas tendências já se configuram, a exemplo do uso intensificado das tecnologias em nosso cotidiano, por outro lado as relações humanas, a cultura, e até mesmo o nível de consciência que orientará nossas formas de vida serão derivações das microescolhas que estamos fazendo agora. Se soubermos compreender as escolhas conscientes ou inconscientes que nos trouxeram ao estado de coisas atuais, talvez possamos determinar um pouco mais esse vir-a-ser que nasce no tecido das histórias que contamos sobre quem somos e quem desejamos nos tornar”, diz o autor.

Luciano Alves Meira afirma que futuro pós-pandemia depende das microescolhas de agora.

Já Maria Homem, em Lupa da alma, reflete sobre as angústias evidenciadas, como isolamento social, o qual denomina de “quarentena-revelação”. A partir do ponto de vista da psicanálise, ela lança um olhar aprofundado sobre questões que tecem as esferas da vida: desde a mais íntima à mais pública, como o “eu”, “o outro”, amor, ódio, família, amigos, trabalho, luto e morte, entre outros. Em seu canal no YouTube suas abordagens têm atraído ainda mais internautas durante a pandemia.

Para a psicanalista Maria Homem isolamento representa uma “quarentena-revelação”.

“O ano de 2020 foi de muita turbulência na viagem, com várias perdas, em diferentes registros. Perdas que podem ser reais, materiais, de saúde, de renda, de vidas e mesmo perda de ideais, de estabilidade, de centro. Poder elaborar tudo isso, se deixar penetrar tanto pelos sentimentos quanto pelas ideias e novas reflexões a serem construídas coletivamente, é muito importante para ao menos não enlouquecer no meio do processo”, declara. 

A escritora, que se posiciona criticamente a respeito das desigualdades e do fazer político no Brasil em sua nova obra, acredita que, depois de 2020, o mundo será outro. Mas defende:

“Temos a possibilidade, inerente a qualquer tormenta, de nos assustar, sofrer, lutar e, com tudo isso, aprender algo novo. Aprender algo novo do mundo, do vírus, do corpo, da natureza e de nossas próprias estruturas de funcionamento, tanto subjetivas quanto sociais. Inevitavelmente carregaremos ao menos o legado mínimo de 2020: o aumento da consciência de quem somos e de como vivemos. Para o bem e para o mal. Com todas as injustiças e desigualdades e capacidade de invenção e de enfrentamento. Estaremos à altura dessa consciência e faremos uso da possibilidade de transformação que isso pode implicar? Não acredito, mas não duvido.”