Leituras compartilhadas com amor e animação

A cena do leitor ou leitora clássicos habita o imaginário popular: alguém confortavelmente sentado numa poltrona, sob uma luz agradável e um livro em mãos. Mas esqueça isso na agitação dos dias que nos embalam a vida. Ao aconchego da poltrona, juntou-se a leitura em celulares, tablets, computadores, redes sociais. Enfim, a oferta de texto está em todas as partes.

E, neste turbilhão de conexões, o solitário ato de ler ganhou a bem-vinda companhia das leituras compartilhadas nos clubes presenciais e online – cada vez mais populares devido à pandemia de Covid-19 e suas restrições impostas ao mundo.

Os clubes de leitura — grupos de leitores que se reúnem para discutir um ou mais livros — se espalharam pelo país nos últimos anos. Entre as várias peculiaridades desses grupos, uma das mais interessantes é que a maioria surge de forma espontânea, a partir da empolgação e paixão que algumas pessoas têm pela leitura e literatura.

Um exemplo é o Clube de Leitura conduzido pela comentarista da CNN Brasil Gabriela Prioli. Advogada e professora de Direito, ela tem uma “relação muito profunda com livros”, desde que começou a ler a partir da biblioteca deixada pelo pai, que morreu quando Gabriela tinha apenas seis anos.

Paixão pelos livros desde os 6 anos, quando seu pai faleceu.

“A leitura mudou minha vida. Me permitiu conhecer um amor fisicamente ausente. Me fez compreender mais sobre mim e o mundo que me circunda. As pessoas me conheceram no debate e eu me coloquei nos debates da vida pela segurança que adquiri com os livros”, diz a advogada, que também assina coluna na Folha de S. Paulo.

Esse entusiasmo fez com que, pouco a pouco, Gabriela fosse disseminando suas preferências literárias a um número cada vez maior de pessoas. Quando abriu uma conta no Instagram, teve a ideia de postar, nos stories, uma espécie de “coluna” chamada “Café com Letras”, cujo objetivo era a troca de experiências literárias: ela publicava o trecho de um livro e os seus seguidores faziam o mesmo.

“Assim, íamos trocando experiências e cultivando o hábito”, explica. “Foi pensando em ampliar essa troca que surgiu a ideia do Clube do Livro. Digo que leitores estão sempre à procura de interlocutores, de pessoas com quem conversar sobre aquilo que conversamos com os livros.”

Escolhidos por Gabriela, os livros variam entre ficção e não ficção. Depois de um mês de leitura conjunta, com postagens quase diárias nas plataformas onde o Clube se desenvolve, o grupo faz dois encontros virtuais. Um, o meeting, é uma aula ministrada pela advogada sobre o livro lido. O outro é uma live na qual ele responde perguntas enviadas pelos participantes. Diferentemente da maioria dos clubes similares, o da Gabriela é pago. Mas é um “valor acessível, que pode ser parcelado em até 12 vezes”, diz.

O clube já contou com participações de celebridades intelectuais brasileiras, como o Ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, o ex-Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, o historiador Júlio Vellozo e a antropóloga Lilia Schwarcz, entre outros.

A marca da diversidade

A diversidade é a marca dos clubes de leitura atuais, tanto no formato quanto no conteúdo. Há leitores reunidos para discutir os mais diversos assuntos, entre eles autores negros, escritores brasileiros contemporâneos, além de clubes voltados para pessoas com mais de 60 anos, crianças e pré-adolescente de até 14 anos. Livrarias e booktubers também têm seus clubes.

Nessa onda segmentada, uma das iniciativas mais exitosas é o Leia Mulheres. Em 2014, a escritora inglesa Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que consistia basicamente em ler mais escritoras. No ano seguinte, Juliana Gomes convidou as amigas Juliana Leuenroth e Michelle Henriques para transformar a ideia de Walsh em algo concreto, em livrarias e espaços culturais. Na pauta, claro, leituras de obras escritas por mulheres, contemporâneas e do passado.

Encontro do clube Leia Mulheres no Sesc em Belo Horizonte.

“O clube mudou nossas vidas”, conta Michelle Henriques. “As leituras e conversas com participantes mudaram nossa visão de mundo. Aprendemos muito em cada encontro. Também vemos que as pessoas passaram a ler mais depois do clube.”

As coordenadoras do clube Leia Mulheres: Juliana Gomes, Michelle Henriques e Juliana Leuenroth.

Nascido em São Paulo, o Leia Mulheres se ramificou e tomou o Brasil. Arapiraca (AL), Sinop (MT) e Caxias do Sul (RS) são alguns dos lugares onde o clube acontece. Todos os estados do país têm pelo menos um Leia Mulheres ativo. Um site agrega todos as informações sobre os grupos e seus encontros. “Cada cidade escolhe as leituras de formas diferentes. Em São Paulo nós variamos sempre o gênero literário e o país de origem da escritora”, explica Michelle.

Uma experiência agradável

Se a maioria dos clubes surge de iniciativas individuais, há exceções. As bibliotecas São Paulo (BSP) e Villa-Lobos (BVL), mantidas pela organização social SP Leituras, juntas têm quatro clubes de leitura. Funcionando desde 2014, já envolveram dois mil participantes, em cerca de 200 encontros.

Encontro do clube de leitura da Biblioteca Parque Villa-Lobos, em São Paulo.

Segundo Pierre André Ruprecht, diretor da SP Leituras, o perfil dos participantes dos clubes varia muito em função do tipo de “curadoria” feita pelo mediador. Mas, garante, há uma enorme diversidade de leitores, tanto em gênero quanto em idade. Uma parte importante dos participantes frequenta os clubes com regularidade, mas há sempre a presença de novos integrantes e de pessoas que entram por causa de um título específico.

Pierre André Ruprecht, diretor da SP Leituras: diversidade é a marca dos clubes de leitura das bibliotecas de São Paulo.

“Clubes de leitura são uma ferramenta maravilhosa para a leitura e para a socialização”, diz Ruprecht. “As pessoas buscam os clubes por motivos muito variados: aproveitar uma seleção de leitura, criar uma disciplina pessoal para ler, embarcar na aventura de ler com companhia, enriquecer a leitura. O que é fundamental, é que as pessoas buscam uma experiência agradável e querem expandir sua leitura do texto.”

Além dos grupos de leitores adultos, a Biblioteca de São Paulo tem um clube direcionado a crianças de 11 a 14 anos, em que o foco são os audiolivros.

Se a pandemia do novo coronavírus fez, de alguma forma, aumentar a procura por livros e novas experiências de leitura, também deu uma certeza: a partir de agora, os encontros online serão uma opção cada vez mais utilizada, mesmo quando a vida voltar ao tão esperado “normal”.

“A pandemia serviu para todos descobrirmos meios de fazer os clubes de modo remoto. Com a volta das bibliotecas e, a partir do momento em que pudermos articular clubes presenciais, pretendemos preservar os clubes online. Ambos são ferramentas ótimas e oferecem experiências distintas”, diz o diretor da SP Leituras.