Leitura: um passaporte poderoso e transformador para a infância

Com a ajuda dos pais, a pequena Daniella Lima ampliou o leque de leitura durante a pandemia.

Daniella Lima, de 6 anos, sempre gostou de folhear os livrinhos infantis, de preferência os com adesivos, brilho, imagens de princesas e desenhos para colorir. Foi durante a quarentena que a pequena buziana se rendeu aos novos formatos, títulos e gêneros a partir do incentivo da família. Com as novidades literárias, Dani ficou mais “esperta”, diz a mãe. 

“Li um livro sobre a beleza do cabelo black power e sobre a história da Malala. Esses foram meus preferidos. Vi que existem muitos cabelos diferentes e bonitos e que a Malala é uma heroína e existe de verdade. Quando acabei de ler o livro sobre ela, deu mais saudade da minha escola, das professoras e das aulas”, disse a menina, afastada do ambiente escolar desde março devido à pandemia do coronavírus. 

Os pais de Daniella notaram que, através das novas leituras (O Mundo no Black Power de Tayó, da Editora Peirópolis, e Malala, a menina que queria ir para a escola, da Companhia das Letrinhas), ela passou a ter mais autoestima com o cabelo crespo e a compreender que no mundo existem outras culturas, muito diferentes da que ela vive, despertando-a para os modos de vida em outros países. Essa ampliação de repertório é um dos benefícios dentre muitos que a leitura soma à infância.

De acordo com a pedagoga Rona Hanning, mestre em Educação, “a leitura e a cognição possuem uma relação de mão-dupla, uma favorece a outra, e vice-versa”. A intensidade dessa relação, segundo ela, resulta em atitude transformadora.“Aprendemos e apreendemos esse mundo que vemos e vivemos para conseguir transformá-lo. Este é o papel da cognição relacionada à leitura transformadora. Lembrando que a leitura também favorece as nossas macrocompetências emocionais, racionais, sociais que precisam ser cuidadas, alimentadas e geridas para que tenhamos uma boa performance como pessoa nesse mundo”, afirma a pedagoga, que é uma das idealizadoras da agência Lerconecta.

Sobre narrativas que emocionam e abrem portas para um mundo de aprendizados em outras esferas da vida, autores como Ana Maria Machado e Pedro Bandeira são considerados referências com livros que marcam a infância. Ambos são lembrados por adultos de diferentes gerações. Atuando há décadas no segmento infantojuvenil, cada um possui seu próprio processo criativo. 

“O processo da escrita é muito intuitivo para mim, ainda que evidentemente incorpore toda minha experiência acumulada como leitora atenta e como alguém que estudou Letras. Mas talvez haja uma coisa que sempre me ajudou muito: é o fato de que venho de uma família grande, sempre com crianças e adolescentes de idades variadas. Ao escrever, sempre posso imaginar alguns leitores específicos como meu público-alvo, e posso me dirigir a eles, como se estivesse conversando ou contando histórias ⎯ algo que sempre fiz com muito gosto, no ambiente familiar”, afirma a escritora.

Formado em Jornalismo, Pedro, ao decidir escrever para crianças e jovens cerca de 40 anos atrás, passou a estudar Psicologia do Desenvolvimento para conhecê-los melhor: saber de suas dúvidas, esperanças, seus medos e desejos.

“Quanto à linguagem, só posso usar a norma culta, porque as gírias e os modos de falar dos jovens mudam muito, de uma hora para outra. Só a norma culta permanece. Mas não pretendo ser didático. Isso cabe aos autores especializados nas matérias do currículo. A literatura nada pretende ensinar. Ao contrário, ela serve para levantar dúvidas, propor hipóteses e esperanças, as mesmas que perfazem as emoções dos meus leitores”, defende. 

Com mais de 100 títulos no currículo e muitos prêmios, Ana Maria defende que a leitura na infância e em qualquer fase etária ajuda a desenvolver a empatia. “Lendo, abre-se a consciência para a variedade, diversidade e complexidade do mundo, mostrando como as histórias alheias são inúmeras e podem ser infinitas, e como estamos todos interligados”, complementa. 

 Bandeira, que tem mais de 100 livros publicados e muitos consagrados como clássicos, ressalta que a literatura é formadora. “Ela amadurece as emoções, fortalece a autoconfiança e abre os olhos dos leitores. Sem as Artes, sem livros, somos vazios e ingênuos, sendo facilmente enganados pelos maus políticos, pelos vigaristas”, finaliza o escritor. 

Foi pensando na transformação de vidas através da leitura que a Bienal do Livro Rio chegou até o projeto Bienal nas Escolas. Ao levar autores e atividades didáticas para o ambiente escolar, o evento leva sua essência para estes espaços de ensino, estimulando alunos de diferentes realidades sociais a lerem e valorizarem ainda mais os estudos. Dessa forma, crianças e jovens podem desenvolver novos campos de interesse e ter acesso a melhores oportunidades, construindo futuros promissores. 

Saiba mais sobre os livros e autores citados acima:

Obras:

O Mundo no Black Power de Tayó (Editora Peirópolis). Autor: Kiusam de Oliveira.

Malala, a menina que queria ir para a escola (Companhia das Letrinhas).  Autora: Adriana Carranca.

Autores: 

Pedro Bandeira – Escritor de livros infantojuvenis. Entre os seus títulos mais    famosos, estão: A droga da obediência, A marca de uma lágrima e O fantástico mistério de Feiurinha. Todos da Editora Moderna. Ana Maria Machado – A escritora, que pertence à Academia Brasileira de Letras, é autora de clássicos infantis, como: Bisa Bia, Bisa Bel, História meio ao contrário e Menina Bonita do Laço de Fita.

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