A leitora Rita von Hunty

Expandir o olhar sobre o mundo e, consequentemente, dilatar a consciência crítica parecem ser preocupações centrais do paulista Guilherme Terreri, de 30 anos, que desde 2013 dá corpo e voz à drag queen Rita von Hunty — conhecida, entre outros motivos, por sua irreverência e amplo repertório ao tratar de assuntos político-sociais no canal do YouTube Tempero Drag. “Quanto mais você sabe, mais sensatas, racionais, de fácil apreensão, são suas ideias”, diz.

Rita von Hunty: “Quanto mais você sabe, mais sensatas, racionais, de fácil apreensão, são suas ideias”. Crédito: Arthur Viana.

Com cerca de 30,5 milhões de visualizações e se aproximando dos 740 mil inscritos na plataforma, essa “esposa, mãe de dezesseis crianças e dona de lar”, conforme brincadeira feita na descrição do canal, não se atém somente às leituras críticas e de teoria. Apesar de esses gêneros predominarem em sua biblioteca pessoal, composta por algo em torno de 400 livros (“Nunca contei”), a literatura de ficção também tem espaço.

Guias literários

Aos 14 anos, quando ainda não tinha assumido a persona de Rita, Terreri recebeu de sua mãe uma recomendação de leitura. Foi assim que A insustentável leveza do ser (1984), do tcheco Milan Kundera, fez com que ele se tornasse um apaixonado pela ficção. “Foi a primeira obra que me marcou profundamente”, explica o docente e educador, formado em Letras (USP) e Artes Cênicas (Unirio).

A influência da mãe, que estudou literatura na faculdade, não para por aí. “Ela possuía uma capacidade assombrosa de elencar, fazer paralelos, ligar e tecer comentários sobre os mais vastos e distintos campos”, conta Terreri, que parece ter levado muito dessa postura dialética, própria de quem acumula referências de diferentes áreas, para a interpretação de Rita von Hunty.

Outra figura incontornável de sua formação intelectual é sua avó, uma leitora ávida, responsável por lhe apresentar a obra do norte-americano Ernest Hemingway, autor de títulos como O sol também se levanta (1926), Adeus às armas (1929) e O velho e o mar (1952), entre outros. “Conheci, me interessei e me apaixonei pelo Hemingway”, afirma.

Ainda sobre esses guias literários, Guilherme — nome pelo qual atende quando não está “montado”, isto é, caracterizado como Rita — lembra a importância de seus primos para sua formação. O psicanalista Jacques Lacan, por exemplo, foi indicação de uma prima. Todos esses mesmos parentes que hoje, a exemplo do próprio Terreri, seguiram carreira acadêmica e são professores.

“Minha experiência no curso de Letras foi fantástica. Me formei na USP tendo sido muito feliz na minha escolha de professores e matérias. Só tenho elogios”, comenta ao ser questionado a respeito de possíveis críticas em relação à academia.

Alguns incontornáveis

A pluralidade das obras em sua mesa de cabeceira, hoje, chama atenção: A paixão segundo G. H.(1964), de Clarice Lispector, divide espaço com títulos como Marx estava certo (2011), do filósofo e crítico literário inglês Terry Eagleton, e o quarto volume da História da sexualidade, do francês Michel Foucault.

É a ficção de Clarice, no entanto, que se destaca nesse ambiente mais “pesado”: “Tem sido minha leitura de cabeceira”. Ao lado da prosadora radicada no Brasil, o alemão Hermann Hesse e a inglesa Virginia Woolf compõem um trio que encabeça seu imaginário devido ao uso que fazem da prosa poética e às diferentes maneiras de encaram o mundo, as quais conseguem representar em suas ficções de formas distintas.

Dos escritores e escritoras que ainda não descobriu ou não desfrutou o bastante, comenta: “Uma infinidade”. Para citar alguns exemplos, gostaria de ter se aprofundado mais no trabalho de Thomas Mann, do qual leu somente as novelas Morte em Veneza(1912) e Tonio Kröger(1903), e se dedicado mais às obras de russos como Gógol e Pushkin e do norte-americano Allen Ginsberg, autor de Uivo (1956).

Ainda dos tempos de USP, lembra uma dívida paga pela metade com a inglesa George Eliot, autora do calhamaço Middlemarch — um romance romântico que ainda está em sua estante, marcado no mesmo lugar em que parou de ler quando era estudante e acabou tomado por outras demandas.

Abrace o cânone

Apesar de plenamente inserido no mundo virtual enquanto Rita von Hunty, Guilherme não é do tipo que profetiza o fim da literatura — uma forma de expressão que, afinal, acompanha o ser humano desde os primórdios, assim como o teatro.

“Essas formas de artes são constituintes da experiência humana”, reflete. “Prefiro imaginar que essas expressões encontram meios e modos de sobreviver.”

Assim, ainda há tempo para marinheiros de primeira viagem se aventurarem nesses mares literários. Aos desbravadores, a dica é se apegar ao cânone de sua área de interesse e tentar entender, por exemplo, por que Edgar Allan Poe e Lovecraft são referências do terror.

“Ter um repertório canônico permite a você desnudar dispositivos”, explica, lembrando-se da relação de sua mãe com as letras e como ela tinha traquejo ao transitar por diferentes áreas do conhecimento.