Leandro Karnal: “Sou um otimista prático e estratégico”

Um texto com a conhecida espontaneidade de Ignácio de Loyola Brandão abre a nova seleta de crônicas do filósofo e professor Leandro Karnal. Nele, o romancista enaltece a habilidade de Karnal para falar sobre assuntos espinhosos de um “jeito ameno, sem pompa”.

A presença, no prefácio, do autor dos romances distópicos Zero e Não verás país nenhum não é por acaso. A coragem da esperança marca uma aproximação de Karnal com a ficção, não apenas como tema referencial, mas como gênero predominante em vários textos.

“O livro tem crônicas de ficção pela primeira vez. Passei a escrever assim a partir do ano passado. É uma descoberta”, diz Karnal em entrevista à Bienal 360°. “O livro abriu um riacho que tem potencial de virar um rio importante na minha produção.”

Além dos textos inéditos, a coletânea reúne as melhores crônicas do autor publicados no jornal O Estado de S. Paulo, onde é colunista.

Lançada em um momento em que o país atravessa uma sequência de crises — sanitária, política, econômica —, a obra incentiva o leitor a persistir na esperança, em acreditar na “vontade imperiosa da vida em se manter e continuar”, apesar de tudo.

Figura constante em vários meios de comunicação, Karnal também comenta a importância da presença de intelectuais nos debates do país em um momento de crise. “A crise atual tem, em parte, relação com o isolamento de muitos críticos nas universidades. Ao deixarem a arena pública vazia, permitiram que rufiões a ocupassem.”

Leandro Karnal, autor de A coragem da esperança. Foto: Danilo Borges

O título de seu mais recente livro traz duas palavras fortes — coragem e esperança. Neste momento difícil da humanidade, é o que mais precisamos? Apesar de debater sobre vários “maus sentimentos” do ser humano, classificaria seu livro como “otimista”?
Quase todos os momentos são difíceis na humanidade. Este, por exemplo, é melhor do que o período de 1939-1945, Segunda Guerra Mundial. Quase sempre olhamos para o momento com a vivência das dificuldades do presente e tendemos a idealizar o passado. Eu sou um otimista prático e estratégico. Ou seja, busco pensar que as coisas podem melhorar e procuro agir para isto. É um hábito de professor. Não idealizo a humanidade e não sou ingênuo. Porém, na minha experiência, quando queremos o melhor e agimos pelo melhor, aumentam as chances de sair um pouco melhor. Sim, meu livro é otimista, sem nenhuma idealização.

No primeiro texto de A coragem da esperança você já coloca em dúvida seu próprio trabalho, perguntando-se para que serve tudo o que faz, das palestras às orientações acadêmicas, fazendo também um paralelo entre as atividades “úteis” (padeiros, motoristas) e “inúteis” (poetas, filósofos, escritores). Acha que neste contexto em que vivemos, as pessoas começaram a entender melhor — e a recorrer — a essas atividades ditas “inúteis”?
Um grande professor de filosofia da USP, Franklin Leopoldo Silva, dizia-me que a filosofia não “servia para nada”. Isso significa que ela não serve, não se presta a nenhuma finalidade de uso, no sentido de não ser servil. A filosofia não serve, ela transforma. A poesia e a música não são essenciais às funções biológicas da existência, porém, existem, porque a vida é insuficiente. A humanidade vive de forma idêntica a todos os animais: precisa se alimentar, beber água, excretar, reproduzir. Porém, somos uma humanidade porque temos consciência de coisas e, para o bem e para o mal, fazemos abstrações e representações além do imediato. A vida estrita da sobrevivência segue insuficiente para a maioria.

Outro texto, “Balada do louco”, parte da famosa música dos Mutantes para refletir sobre o que é loucura e o que é “normal”. Com milhares de pessoas deprimidas no mundo, precisando se medicar, esses conceitos estão mais claros ou mais nebulosos hoje?
A dita loucura já foi considerada sagrada ou criminosa. Hoje, em geral, fazemos leituras mais médicas e menos de julgamento. O “louco” foi estabelecido para que os chamados “normais” possam ter certeza de que estão no caminho normal. A invenção da loucura é uma necessidade social. Porém, claro, há pessoas que possuem características mentais e de comportamento e sofrem (ou fazem sofrer o mundo ao seu redor). Para tais casos, criamos terapias e remédios. É um erro romantizar doenças mentais graves. É um erro maior supor que as pessoas que sempre saem para trabalhar no mesmo horário e voltam para a mesma casa e realizam as mesmas tarefas de forma tranquila sejam um patamar de exemplo ou de ideal. O jogo é complexo. Depressão é doença e tem tratamento. Alegria constante e permanente também deveria ser considerada uma patologia.

As pesquisas e notícias dão conta de que as pessoas estão lendo mais a partir da pandemia. A tragédia suscitou mais dúvidas nas pessoas, daí esses índices maiores de leitura?
Saímos de uma situação e tivemos de adotar novos procedimentos. Isso causa um estranhamento e pode ser o começo de uma atitude filosófica. Para alguns, a pandemia significou maior recolhimento e maior chance de ler. Para outros, apenas aumentou a compulsão por séries. Para muitos, só representou risco de fome e de despejo. Porém, sim, há indicativos de que há mais leitura a partir do ano passado.

Ainda sobre a pandemia, de que forma a humanidade sairá dessa experiência? Haverá aprendizados ou as pessoas vão preferir esquecer o quanto antes esse triste período?
Sempre aprendemos e sempre nos transformamos, nem sempre para melhor. O fim oficial da pandemia terá certa euforia. Haverá mais formas virtuais de ensino, reuniões ou até de contatos. As compras físicas receberam um golpe forte e não sei se se recuperam. A pandemia revelou nossa desigualdade, nosso egoísmo e também nossa solidariedade. Como toda situação-limite (guerras, revoluções, desastres naturais), ela acelera o que já existia e revela nosso caráter. A pandemia revelou canalhas e heróis.

Apesar de ser um autor de obras de não ficção, a ficção está sempre presente em seus textos, com referências a autores e livros — de Machado a Augusto dos Anjos. O que a leitura de ficção representa para você?
O livro tem crônicas de ficção pela primeira vez. Passei a escrever assim a partir do ano passado. É uma descoberta. Está crescendo. Para dar um exemplo, o texto “Duas livrarias e uma cidade” trata de como vejo a polarização política brasileira. A crônica “Aquilo que me nutre” fantasia um pouco a relação da minha falecida mãe com a sua cachorrinha. “As quatro vítimas do chá” toca no tema da decadência imitando um estilo aristocrático de escrita, algo que dialoga com Oblomov, o mais conhecido romance do russo Ivan Gontcharov. Em resumo, o livro abriu um riacho que tem potencial de virar um rio importante na minha produção.

Você é um intelectual que está muito presente hoje em diversos meios de comunicação. E conforme aponta Ignácio de Loyola Brandão, no prefácio do livro, “tem um jeito ameno de contar, sem pompa”, oferecendo ao leitor referências que vão da política às artes. Os intelectuais do país deveriam ser mais acessíveis à população? Isso ajudaria o Brasil a se tornar melhor?
Tudo tem sua dose de relativismo e de perspectiva. Há intelectuais brasileiros que não deveriam ser mais conhecidos, pois conclamam apenas o ódio e o preconceito. Os intelectuais são muito variados. Porém, em relação aos intelectuais que despertam pensamento crítico, mostram os andaimes da construção do real e despertam bons debates, estes, com certeza, deveriam ser mais acessíveis. A crise atual tem, em parte, relação com o isolamento de muitos críticos nas universidades. Ao deixarem a arena pública vazia, permitiram que rufiões a ocupassem.

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A coragem da esperança
Leandro Karnal
Planeta
288 págs.