Joselia Aguiar: “Jorge Amado era um workaholic”

Jorge Amado foi um dos mais populares autores de todos os tempos, lido nos cinco continentes. Dono de uma obra vasta, marcou não só as letras latino-americanas, mas também a política, os costumes, a TV e o cinema nacional.

Na biografia que publicou em 2018, Jorge Amado: uma biografia, a jornalista e escritora Joselia Aguiar mostra como o autor “era em certa medida um workaholic”e como “sua literatura é multifacetada”. 

Ela teve acesso exclusivo a documentos de família e cartas de parentes, amigos e outros escritores. Realizou entrevistas e pesquisas no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos para traçar a vida intensa do escritor, que venceu diversos prêmios e era uma figura requisitada no mundo todo. 

Baiana como o biografado, Joselia Aguiar foi correspondente em Londres da Folha de S.Paulo, além de ter assinado uma coluna sobre livros e mercado editorial no jornal. Também esteve à frente da edição da revista Entrelivros e foi curadora da Flip nas edições de 2017 e 2018. Desde 2019 dirigia a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, instituição da qual se desvinculou há poucos dias.

Leia matéria sobre a trajetória de Jorge Amado.

Jorge Amado, autor lido em cinco continentes.

Depois de 20 anos da morte de Jorge Amado, qual saldo em relação à obra do autor? Ele continua resistindo ao teste do tempo?
Sim, Jorge Amado continua resistindo ao tempo. Tanto o leitor comum quanto o mais especializado encontram razões para encontrar seus livros, tanto pelas personagens e enredos quanto pelas questões que os atravessam. Neste mês em que se lembrou dos 20 anos de sua morte, um webinário na Bahia organizado pelo professor e ensaísta Gildeci Leite reuniu dezenas de instituições e estudiosos, com audiência de milhares de pessoas de todo o Brasil.

Em termos estritamente literários, qual o maior legado do autor?
Antes de tudo, Jorge Amado era um romancista. O que fez, em primeiro lugar, foi literatura. Seu legado reside na capacidade de inventar personagens e histórias, fazendo com que leitores possam se envolver em epopeias e dramas, criando universos entre diferentes geografias baianas: sertão, Recôncavo e zona cacaueira.

Durante décadas, Jorge Amado foi o nome literário do Brasil mais conhecido no exterior. Ele continua sendo bem editado lá fora?
Depois de sua morte, houve uma reedição de todo o catálogo e renovação de interesse de tradução. A família relata mais de uma centena de novos contratos internacionais desde então.

Jorge Amado foi um escritor muito popular, mas hoje tem se contestado sua influência, principalmente em relação a novos escritores. O que pensa disso?
Discordo um pouco, por vários motivos. Escritores brasileiros das mais diferentes gerações se declaram leitores de Jorge Amado, uma lista que vai de Alberto Mussa a Raimundo Carrero, Maria Valéria Rezende e Itamar Vieira Junior. Uma lista que não é apenas brasileira, inclui portugueses e africanos de língua portuguesa. Ao mesmo tempo, nunca houve uma linhagem puramente amadiana no passado.

Na sua visão, o que sua biografia trouxe de mais relevante a respeito da vida e da obra de Jorge Amado? Em que detalhes os leitores deveriam prestar atenção?
Creio que foi uma investigação que trouxe novos elementos tanto sobre a vida quanto a obra. É possível entender como Jorge Amado era em certa medida um workaholic e como sua literatura é mais multifacetada.

Pra finalizar, Joselia, gostaria que fizesse uma indicação de leitura a quem pretende se iniciar no universo do autor. Quais obras serviriam melhor como “porta de entrada”?
Para jovens em geral, Capitães da areia. Para conhecer a Bahia, Tenda dos milagres. Para pensar sobre a existência, Os velhos marinheiros.

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Jorge Amado: uma biografia
Joselia Aguiar
Todavia
640 págs.