Jornalistas na defesa da democracia

No ano em que o Prêmio Nobel reconheceu a atuação crucial de dois repórteres na defesa da paz, a primeira mesa da XX Bienal do Livro Rio neste domingo, 5 de dezembro de 2021, reuniu três jornalistas para debater como tem sido exercer a profissão no Brasil nos tempos atuais. A colunista Míriam Leitão (Grupo Globo), a repórter Patrícia Campos Mello (Folha de S.Paulo) e a jornalista Cecilia Olliveira (El País Brasil) falaram sobre fake news, ameaças à liberdade de expressão e violência digital, com mediação da jornalista Paula Cesarino Costa.

Míriam e Patrícia também comentaram sobre seus mais recentes livros: “A democracia na armadilha: crônicas do desgoverno”; e “A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital”, respectivamente.

“Quando o governo me ataca, é um ataque à democracia. O ataque é feito deliberadamente. Você pode divergir da minha ideia, o debate é saudável. Para ser uma democracia, ela precisa ser divergente, mas não podemos aceitar censura”, disse Miriam Leitão, acrescentando: “Tentam controlar, tirar credibilidade e, principalmente, escolher alvos, pessoas físicas, principalmente mulheres, para personalizar a campanha de descrédito”.

Miriam lembrou os desafios de ter vivido a ditadura no Brasil e destacou que é preciso resistir: “O fato de estar ocorrendo a Bienal é um ato de resistência, o livro é um ato de resistência. O livro é uma maravilhosa janela que se abre para a transformação.”

Para a jornalista Patrícia Campos Mello, as campanhas de desinformação são parte integrante de uma estratégia para desacreditar e desarmar jornalistas com diferentes níveis de ataque. “Precisamos ter um pouco de perspectiva. Temos um governo que censura, que anula os jornalistas, mas precisamos acreditar. Temos que lutar pela nossa democracia.“

Ela destacou que o momento é desafiador e que a imprensa precisa fazer reflexões e rever formas de atuação. “Temos uma chance de pensar sobre os erros cometidos na cobertura de governos e políticos populistas nos últimos anos. Não fomos preparados para lidar com isso na faculdade e o método tradicional não está funcionando. O jornalista deve fazer uma autocrítica e não apenas reproduzir o que está sendo falado. Precisa ter mais análise”, provocou.

Cecília Oliveira chamou a atenção para o fato de as profissionais mulheres serem o alvo preferencial das milícias digitais. “As pessoas que te atacam não se importam com o que você está dizendo, eles focam no fato de você ser mulher, te difamam pessoalmente, atacam sua imagem, seu corpo, cabelo. Eu cheguei a ser ameaçada de estupro”, contou.  

Miriam Leitão lembrou que os jornalistas independentes, que não têm o respaldo de grandes grupos de comunicação, estão ainda mais vulneráveis. Para elas, a imprensa tem papel essencial no front da resistência e defesa da democracia. Para isso, Cecília defendeu a necessidade de fortalecer o jornalismo e a formação de profissionais em todo o país. “Existem lugares no Brasil que a democracia nunca chegou e temos o papel de mudar isso”.