J. Michael Straczynski “mete o pé na porta” em “O espetacular Homem-Aranha”

O Homem-Aranha, um dos super-heróis mais queridos pelos fãs dos quadrinhos da Marvel, foi criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko. De lá para cá, o personagem ganhou inúmeras roupagens e diferentes versões de suas origens. Uma das que mais se destacam nas HQs, e com certeza uma das mais sinistras, é assinada por J. Michael Straczynski.

Em um trabalho que começou em junho de 2020, por meio da coleção Marvel Saga, a Panini reuniu todos os principais números do Homem-Aranha roteirizados por Straczynski. O primeiro dos 13 volumes, chamado O espetacular Homem-Aranha: De volta ao lar, traz artes de John Romita Jr. e dá uma boa ideia do que é uma das representações mais ousadas do Amigão da Vizinhança — que, pelas mãos desse roteirista específico, adquire traços sombrios e enfrenta algumas das situações mais tensas de todo o universo Marvel, como a Guerra Civil e um pacto.

Para que não haja nenhuma confusão, é bom lembrar que essa história em quadrinhos não tem nenhuma ligação direta com o filme estrelado por Tom Holland em 2017, por mais que ambos os trabalhos tenham o mesmo subtítulo (“De volta ao lar”).

Muito pelo contrário, na verdade, o Homem-Aranha interpretado por Tom é ainda uma versão insegura e iniciante do Cabeça de Teia, enquanto o imaginado por Straczynski já mostra um lado mais experiente e até mesmo cansado do super-herói.

Detalhe de uma página da HQ.

O Homem-Aranha de Straczynski

  • Peter Parker está separado de Mary Jane
  • Desenhou a própria fantasia de super-herói, mas vive reclamando da falta de bolsos
  • Vira professor de ciências na escola Midtown, onde estudou
  • Conhece Ezequiel, que se comporta como se fosse uma espécie de versão mais velha do próprio Peter
  • Ganha suas habilidades sendo picado por uma aranha radioativa, mas a origem de tudo é um poder ancestral (totêmico)
  • Quase morre enfrentando Morlun, um caçador milenar de pessoas que têm poderes totêmicos

Tensão inicial

Dá para dizer, no bom português, que Straczynski assumiu a história do personagem metendo os dois pés na porta. Na primeira página de O espetacular Homem-Aranha: De volta ao lar, o leitor fica sabendo que Peter Parker está separado de sua esposa, Mary Jane. Isso indica, é claro, que não se trata daquele Peter sofrendo bullying pelos corredores da escola Midtown.

A história segue com o experiente Homem-Aranha saindo pela vizinhança e destruindo um prédio abandonado para acalmar os nervos. Já fica claro que os problemas do super-herói, nesse arco narrativo, são mais “adultos” — e a coisa toda só desanda para o Amigão da Vizinhança, descambando para uma narrativa quase metafísica sobre a origem de seus poderes.

Morlun, uma espécie de parasita ancestral da natureza.

Poder ancestral

Pelas mãos de Straczynski, o Homem-Aranha se tornou portador de um poder totêmico, que remonta o início da humanidade — quando ainda existia uma espécie de limbo entre as energias primais que compõem os animais da Terra e o desenvolvimento do homem.

Peter Parker seria, assim, quem “preenche o vazio entre homens e aranhas”, na explicação do misterioso Ezekiel, responsável por revelar ao Homem-Aranha a verdadeira, e obscura, origem de seu poder.

Mas não é preciso se assustar com essas informações: de modo geral, Peter ainda adquiriu suas habilidades sendo picado por uma aranha radioativa. O único diferencial é a explicação diferente de onde vieram esses poderes — uma coisa que flerta mais com o misticismo, com o desconhecido. 

Além disso, considerando que os poderes do Homem-Aranha vêm de um passado inescrutável, existe um adversário à altura: um que, justamente, alimenta-se dessa energia misteriosa — e ancestral — que corre pelas veias de Peter Parker.

J. Michael Straczynski é um dos roteiristas que mais ousaram na representação do Homem-Aranha.

Batalha épica

O supervilão que está à caça de Peter, em busca da “pura essência aranha”, chama-se Morlun. Acredita-se que ele exista há pelo menos mil anos, ou mais, e seu objetivo é ir atrás de energias totêmicas para seguir existindo.

Não é preciso dizer que, enfrentando o que seria uma espécie de parasita ancestral da natureza, o Homem-Aranha tem sérios problemas. Por mais que tenha sido alertado por Ezequiel sobre os perigos de bater de frente com esse adversário, Peter resolve tentar a sorte.

A sequência de luta, quando Morlun e Homem-Aranha colidem, é extremamente brutal. O roteirista não segura a mão e Romita Jr., um dos ilustradores mais clássicos do Cabeça de Teia, não deixa nada a desejar: são explosões, porradas e sangue para todo quanto é lado. 

Para quem deseja uma versão mais “adulta” desse personagem clássico, O espetacular Homem-Aranha: De volta ao lar é um prato cheio. E, só para que fique no ar um gostinho de “quero mais”, vale lembrar que é também pelas mãos de Straczynski que o Amigão da Vizinhança se mete na Guerra Civil e, entre outras situações, tem sua identidade real revelada para o mundo inteiro. 

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