Itamar Vieira Junior: autor do premiado ‘Torto Arado’ revela um Brasil de diversidade e resistência

Para 2021, o autor conta com a reedição do seu livro de contos “A oração do carrasco”.

Ele não esperava, mas aconteceu. O baiano Itamar Vieira Júnior foi o escritor revelação de 2020 com o premiado Torto Arado, um romance comovente, narrado por personagens femininas, cujo cenário é a Chapada Diamantina. As tramas que se passam na Fazenda Água Negra envolvem exploração de trabalhadores, resistência cultural e a força do povo negro rural. Em 2019, a obra venceu o prêmio Leya, em Portugal, e no ano passado conquistou o Jabuti e Oceanos no país. A história narrada por Bibiana e Belonísia tem feito sucesso e já ultrapassa a marca de 26 mil cópias vendidas (físicas e digitais). Nesta entrevista, Itamar, que é geógrafo e servidor público, conta como tem lidado com a grande repercussão do livro e como foi nascendo esse escritor criativo que estampa um Brasil genuíno, de abismos sociais, fortalezas e solidariedade.

“Torto Arado” ganha prêmio Jabuti de Romance Literário.

De que forma a sua vivência como servidor público e geógrafo o inspirou a escrever Torto Arado?

“Eu já trabalho há mais de 15 anos como servidor público no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o meu trabalho é o campo, então sou confrontado pelas histórias de pessoas, com a vida de quem vive do campo há bastante tempo. Cada um tem uma história para contar. Embora Torto Arado seja uma obra de ficção, as práticas de vida, o ambiente, o trabalho, a relação do homem com a terra refletem naquilo que escrevo. Como esse é meu universo pessoal, é inevitável falar dessas questões. Sou geógrafo por formação, depois ingressei no mestrado na área da Geografia, e em seguida no doutorado em estudos étnicos, no campo da Antropologia. Tudo que eu aprendi e conheci, de alguma forma, atravessa a minha literatura.”

Quais foram estas comunidades com as quais você trabalhou ao longo desses 15 anos?

“Muitas. Comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas, de trabalhadores acampados sem-terra, assentados com a reforma agrária. Inclusive os proprietários rurais, que também me contam sobre suas histórias, suas relações de trabalho, da vida no campo. Tudo isso me ajuda a refletir.”

Como estão essas comunidades hoje, com pandemia e o atual governo?

“O governo não tem uma política voltada para essas populações, a falta de clareza é a política. Eles estão abandonados, sem recursos, com seus processos de regularização de terra interrompidos. A tudo isso soma-se a vulnerabilidade que a pandemia traz. As condições estão piores do que dois, cinco anos atrás. De 2000 até meados da última década, vivemos períodos de muito sonho com o desenho de uma política de valorização e assistência a essas comunidades, com muitas frentes de trabalho. Depois, tudo isso foi interrompido de forma muito abrupta e, desde então, esses povos vêm amargando uma total escassez.”

Quais valores culturais, saberes ancestrais, desses povos aparecem na sua narrativa?

“Neste exercício de escrever, de voltar ao passado, posso destacar como efeito o encontro com a minha própria ancestralidade, percebo o quanto ela é rica, marcada pela diversidade. E o que me chama bastante atenção é saber que estas pessoas, marcadas pela diáspora, chegaram de maneira muito desfavorável nesse país e, apesar das muitas adversidades, conseguiram lutar para que suas culturas conseguissem sobreviver a tudo que passaram. Suas formas de vida e cultura atravessaram o tempo com o apoio de uma rede de solidariedade. Então, quando falamos de grupos comunitários que possuem uma religião de matriz africana, uma relação diferenciada com o meio ambiente, com a terra, não é apenas apontando as diferenças, é destacando essa rede de solidariedade que permitiu que gerações enfrentassem atrocidades como tráfico de escravos, abandono do estado, sofrimentos com a política higienista, e resistissem chegando com sua cultura até os dias atuais. E não apenas perpetuando seus valores, como também se tornando conscientes e conhecedoras de seu passado, se colocando no mundo de um modo altivo.”

Sempre morou em Salvador?

“Não. Nasci em Salvador, mas passei a adolescência em Pernambuco, anos mais tarde fui morar no Maranhão, onde fiquei por 6 anos. Depois regressei para a Bahia, e estou aqui há mais de dez anos.”

Por que o nome Torto Arado?

“Quando comecei a escrever, tentava buscar uma imagem que evocasse a alma da história. Me lembro que, quando eu era adolescente, li a obra poética de Tomás Antônio Gonzaga chamada Marília de Dirceu e essa expressão aparece num verso. Enquanto escrevia, outros nomes surgiam, mas depois de um tempo vi que Torto Arado dava conta. Arado é aquele objeto que foi manuseado pelos ancestrais, que está torto, enferrujado, e indica também a permanência de trabalho forçado na vida daquelas pessoas legatárias de uma sociedade escravocrata. Mesmo depois de tantos anos da abolição, continuam tendo seus trabalhos explorados das formas mais vis.”

De onde surgiu aquele início impactante do acidente com as meninas?

“Da capacidade criativa mesmo que todo indivíduo tem. Importante dizer que não escrevi essa parte do romance pelo início mesmo, escrevi pela metade. Quando cheguei no meio da história, desenvolvi a abertura e pensei: “Esse pode ser um bom começo.” Foi uma forma de convidar o leitor a atravessar a leitura comigo. Acho que deu certo porque as pessoas têm falado muito sobre esse momento, me informando que não conseguem mais parar de ler.”

Quando despertou em você este gosto por escrever? 

“Começou quando aprendi a ler e a escrever. Não consigo lembrar exatamente o momento. Acho que as primeiras histórias que escrevi tinha muita relação com as coisas que eu via e me emocionava, histórias que eu lia e aí eu pensava de uma forma diferente, colocando outros personagens, mudando o final. Depois nunca mais parei. Apesar disso, nunca tinha encarado o fato de me assumir ser escritor, de ter a escrita como profissão. Isso era uma coisa secundária, como continua sendo ainda. Não tem uma centralidade. Brinco que sou escritor nas horas vagas.”

Teve alguém na sua família ou algum fato que o incentivou a escrever?

“Não teve. Mas como eu sempre gostava de ler… As primeiras leituras com prazer foram as revistas em quadrinhos. Lembro que às vezes, no Natal, eu pedia um livro e meus pais me davam. Em um Natal, eu tinha 11 anos, meu pai me deu uma máquina de escrever portátil. Nessa máquina, escrevi muitas coisas durante dez anos… Até ela quebrar. Então, nunca foi uma influência direta dos meus pais, mas eles também nunca me impediram de sonhar, preferiam que eu fosse mais pragmático. E isso acabou acontecendo. Resolvi apostar na escrita quando tive tranquilidade para escrever e não me preocupar de que forma eu iria sobreviver. A partir daí foi que desenvolvi uma relação mais intensa com a escrita.”

Como é fechar um ano tão difícil com dois prêmios, alcançando também a marca de um dos livros mais vendidos com Torto Arado?

Torto Arado ganhou o prêmio Leya em 2018, uma premiação promovida pelo Grupo Leya, grande grupo editorial português, cujo objetivo é revelar talentos da língua portuguesa. Para isso, conta com um júri intercontinental com críticos, escritores dos 3 continentes: África, Europa e, na América Lantina, o Brasil. Essa vitória mudou minha relação com o mercado editorial. Isso porque o prêmio tem um alto valor monetário e grande repercussão em várias cidades de Portugal. No começo de 2019, a obra foi lançada por lá. Viajei duas vezes para lá e isso chamou a atenção do Brasil. A Editora Todavia comprou os direitos e o lançamento aconteceu no meio de 2019. Em 2020, havia uma programação extensa, mas, por conta da pandemia, os eventos físicos foram cancelados. Diversas atividades migraram para o campo virtual, entrevistas, mesas-redondas, debates. Ano passado foi um ano triste, difícil, mas estive muito ocupado. Torto Arado me ajudou a atravessar esse período tão delicado.”

A vitória no prêmio Jabuti era esperada então?

“Confesso que eu não esperava. Quando a gente escreve um livro, não sabemos o quão longe ele pode alcançar. A gente vai vendo depois com as leituras, as críticas que saem. No caso de Torto Arado, veio essa consagração.”

Quais seus planos literários para 2021?

“A Todavia vai lançar no segundo semestre uma reedição do meu livro de contos A oração do carrasco. Só que é uma edição ampliada porque, durante esses dois últimos anos, escrevi muitos contos que foram publicados em jornais e revistas de Portugal e do Brasil. Reunimos esse e mais um material inédito para compor essa obra. Além disso, tenho também um projeto sem data ainda para conclusão. Não posso falar muito, mas é um romance. Quando escrevi Torto Arado sabia que ele fazia parte de um projeto maior em torno desse tema que aborda a relação do homem com a terra. O próximo romance volta a essa temática, mas a paisagem já não será a Chapada Diamantina, e sim a região do Recôncavo Baiano.”

Itamar foi um dos participantes do Festival Conexões, no painel “Em Defesa da Literatura”, realizado em outubro. Clique aqui e confira na íntegra o vídeo da sessão.