Isabel Allende volta os olhos à America Latina em novo romance

Autora de língua hispânica mais lida no mundo, a chilena-americana Isabel Allende está de volta com um livro que revisita uma de suas obras mais importantes, o romance de estreia A casa dos espíritos. Violeta, lançando recentemente no Brasil pela Bertrand, narra a história da centenária Violeta del Valle, uma mulher que vivenciou toda a efervescência do século 20.

Tendo o Chile como pano de fundo, o novo romance de Allende chega no momento em que o país de origem da autora acaba de eleger um presidente socialista, o jovem Gabriel Boric. Allende é conhecida por seu posicionamento de esquerda.

Nascida durante a pandemia de gripe nos anos 20, quando ainda se sentia os efeitos da Grande Guerra, a protagonista de Violeta narra em carta ao neto a sua trajetória marcada por acontecimentos extraordinários até o ano de 2020, quando o mundo se vê diante de outra pandemia, a de Covid-19.

Os leitores de A casa dos espíritos, maior best-seller de Isabel Allende, que completa 40 anos de sua publicação, reconhecerão alguns personagens em Violeta. Allende narra a longa trajetória de crescimento de uma mulher de paixões intensas, com uma vida cheia de sobressaltos.

As memórias da infância pobre no sítio onde cresceu, dos amores, da prosperidade como empresária, da experiência de maternidade, das perdas e do despertar da consciência sobre os horrores da ditadura são esmiuçadas na correspondência com Camilo.

A prosa límpida e clara de Allende continua a mesma, deixando no leitor aquele sentimento de euforia antes de virar a próxima página. O livro começa assim:

Camilo querido:

A intenção destas páginas é deixar-te um testemunho, pois creio que em futuro distante, quando estiveres velho e pensares em mim, tua memória falhará, porque sempre andas distraído, e esse defeito se acentua com a idade. Minha vida é digna de ser contada, não tanto por minhas virtudes quanto por meus pecados; de muitos deles nem desconfias. Aqui os conto. Verás que minha vida é um romance.

Isabel Allende, autora de Violeta.

Quem é Isabel Allende

  • Escritora nascida no Peru e criada no Chile
  • Há décadas vive nos Estados Unidos
  • Estreou em 1982, com o romance A casa dos espíritos
  • Ainda hoje é seu livro mais lido
  • Foi adaptado ao cinema em 1993, com Meryl Streep, Winona Ryder e Antonio Banderas no elenco
  • É autora ainda de A filha da fortuna, O caderno de Maya e O jogo de Ripper
  • O conjunto de suas obras vendeu no total 75 milhões de exemplares globalmente
  • Dirige a fundação que criou em homenagem à filha, morta em 1992
  • É conhecida por ser feminista e de esquerda

Trajetória

Isabel Allende é uma chilena que nasceu em Lima, no Peru, em 1942. Seu pai, Thomás Allende, era diplomata, e a mãe, Francisca, dona de casa. Em 1945, seus pais se separaram e sua mãe voltou para Santiago, onde Isabel passou a infância e parte da juventude.

Sua mãe casou-se novamente e então Isabel começou um périplo por alguns lugares do mundo. Morou na Bolívia e no Líbano. No final dos anos 1950, voltou pro Chile, começou o curso de jornalismo e escreveu suas primeiras histórias de ficção.

Ao jornal inglês The Guardian, a escritora disse recentemente que, por conta desses deslocamentos que teve ao longo da vida, todos os anos relê a obra de Pablo Neruda antes de iniciar um novo romance — que começa sempre no dia 8 de janeiro de cada ano.

“Neruda me leva de volta às minhas raízes e às paisagens do Chile”, disse a escritora. E Violeta talvez seja o mais chileno de seus livros em muito tempo.

“A ideia começou quando minha mãe morreu, pouco antes da atual pandemia”, explica, ao Guardian, a autora sobre a origem de seu romance. “Ela nasceu em 1920, quando a pandemia de gripe atingiu a América Latina, então era quase natural unir as pandemias à novela. Quando escrevo, não tenho um plano e não tenho uma mensagem — só quero que as pessoas venham comigo, que me deixem contar uma história.”

Além disso, Violeta é um romance epistolar, o que o aproxima ainda mais de A casa dos espíritos, que surgiu de uma carta da autora ao avô. A própria Isabel se diz uma escritora inveterada de cartas. Por décadas, ela enviou cartas diárias à mãe, o que rendeu cerca de 24 mil missivas, que foram digitalizadas e estão no acervo da autora.

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Violeta
Isabel Allende
Trad.: Ivone Benedetti
Bertrand Brasil
322 págs.