Inventando Anna: por dentro da série da Netflix e outras versões

Por cerca de quatro anos, entre 2013 e 2017, Anna Sorokin — ou Delvey, como se apresentava — enganou a alta sociedade de Nova York alegando ser uma herdeira alemã que tinha uma fortuna de 60 milhões de euros para receber do pai. Essa história foi recriada por Shonda Rhymes na série da Netflix Inventando Anna, baseada em uma reportagem investigativa publicada na New York Magazine em maio de 2018.

Além disso, um livro homônimo, assinado Rachel DeLoache Williams, acaba de ser publicado pela Rua do Sabão. A autora foi uma das vítimas da golpista, que frequentou os melhores hotéis e restaurantes da Grande Maçã. Para completar, enganou bancos e buscou um empréstimo milionário para começar a Fundação Anna Delvey — o que, supostamente, justificaria os golpes. 

Os atos anteriores, toda enganação, não passaram de meios para um fim. É o que o advogado de Anna alegou, pelo menos, depois de ela ter sido presa em 2017 e, após aproximadamente dois anos em Rikers Island, condenada pelo júri. Sentenciada, ficou reclusa na Albion Correctional Facility e foi solta em fevereiro de 2021. Não por muito tempo.

Julia Garner interpreta a golpista na série da Netflix.

Versões da história

  • 2018: reportagem investigativa publicada na New York Magazine por Jessica Pressler
  • 2019: livro de Rachel DeLoache Williams, cujo título original é My friend Anna: the true story of a fake heiress, publicado no Brasil como Inventando Anna
  • 2021: Inventando Anna, série da Netflix criada por Shonda Rhymes e com Julia Garner no papel principal

Inventando Anna, a série

Em uma das temporadas que passou na cadeia, Anna vendeu os direitos de adaptação da sua história para a Netflix por 320 mil dólares — dinheiro com o qual pagou os bancos dos quais pegou empréstimos e quitou dívidas com o estado.

Na série Inventando Anna, Julia Garner interpreta a trapaceira carismática, desde seus primeiros golpes até a prisão, e Anna Chlumsky fica com o papel de Vivian Kent, nome fictício da jornalista Jessica Pressler — a que, depois de uma longa apuração real, na qual entrevistou Anna e seus conhecidos diversas vezes, publicou a reportagem na New York Magazine.

A produção de nove episódios faz questão de avisar que tudo ali é real, exceto o que foi totalmente inventado. Uma boa manobra, e que até combina com o sarcasmo típico da própria Anna, para ficcionalizar uma daquelas histórias que, na verdade, se parecem mais estranhas que a ficção.

Momento em que, na série, Anna é sentenciada.

Inventando Anna, o livro

O relato de Rachel DeLoache Williams, que não ficou nada satisfeita com a série da Netflix, tem um ponto de partida mais intimista. A autora, afinal, achou que Anna era uma de suas melhores amigas. Até que os sinais de que havia algo muito errado com a suposta herdeira começaram a surgir.

O título do texto que Rachel publicou na Time dá uma pista do motivo de ela estar chateada com a série: “Anna ‘Delvey’ Sorokin quase arruinou minha vida. E agora está recompensada por seus crimes”. Não é para menos, quando se dá uma olhada em trechos do livro Inventando Anna.

“Eu sei que você está aqui para ler sobre Anna Delvey, e eu não te culpo”, começa o relato. “Quando éramos amigas, eu também a achava encantadora. Os melhores vilões são aqueles que, mesmo sem querer e apesar de todas as suas maldades, acabamos por gostar deles.”

“E esse era o poder de Anna. Eu gostava tanto dela que precisei de seis meses para perceber que ela era uma vigarista. A verdade estava na minha frente o tempo todo”, prossegue Rachel, que se deu conta de todo o esquema da falsa herdeira quando precisou pagar por diárias astronômicas em um hotel de Marrakech, sendo que tinha sido convidada por Anna, com a promessa de que seria reembolsada.

Para quem nunca viveu uma experiência semelhante, a de ter sua confiança completamente destruída por uma trapaceira de primeira linha, Rachel deixa alguns comentários: “É completamente perturbador descobrir que alguém com quem você se importa, que acredita conhecer bem, não passa de uma ilusão. Isso mexe com a sua cabeça.”

Presa novamente

Não bastasse esse rolo todo, Anna foi presa novamente — seis semanas depois de ter sido liberada, em fevereiro de 2021. E até pegou Covid-19 na cadeia, em Nova York, onde está encarcerada por ter seu visto de permanência vencido. Ela aguarda para ser deportada para a Alemanha.

O tempo de reclusão, mais uma vez, deu voz à jovem golpista. “Enquanto o mundo está vendo Julia Garner roubar meu sotaque em Inventando Anna, uma série da Netflix sobre mim, eu de verdade estou sentada na cela de uma prisão”, começa em um longo texto publicado na Insider. O tom, que tem algo de vitimista, prevalece no restante do escrito.

“Por um longo tempo, esperava que, quando Inventando Anna tivesse saído, eu teria seguido em frente com minha vida”, anota. Não aconteceu. E por isso, depois de reflexões sobre estar sendo injustamente acusada, deixa uma pergunta que ainda não pode ser respondida: “Serei eternamente julgada pelos meus 20 e poucos anos?”.

Inventando Anna
Rachel DeLoache Williams
Trad.: Camila Javanauskas
Rua do Sabão
220 págs.