Incentivo à leitura, amor e diversidade no último dia de Bienal do Rio 2021

O último dia de Bienal do Rio 2021 começou celebrando algo que todos os diferentes convidados que subiram no palco da Estação Plural, ao longo das 36 mesas da 20ª edição do evento, tinham em comum: o amor pela leitura. Na mesa “Eu amo ler”, conduzida por Paulo Halm, Lua Oliveira e Otávio Júnior, ambos à frente de projetos de incentivo à leitura, sentaram-se ao lado do humorista e apresentador Fábio Porchat e do ator Antonio Fagundes.

O mediador, Halm, contou que é um apaixonado pelas letras desde os cinco anos e festejou o fato de que os livros nortearam sua vida. Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, foi a primeira obra que lhe fisgou na infância. A partir dessa memória, perguntou aos convidados: “Qual foi seu primeiro momento com o livro?”.

Antonio Fagundes, que reuniu dicas de leitura em Tem um livro aqui que você vai gostar (2020), aproximou-se da ficção por meio dos quadrinhos — e defendeu esse gênero, aliás, falando contra os que consideram-no “menor”. Depois, em um movimento natural, acabou indo para a prosa. “Não parei de ler até hoje”, disse o carioca. “Vou continuar para o resto da minha vida.”

Antonio Fagundes compartilhou seu amor pela leitura no último dia de Bienal.

Para Lua Oliveira, os primeiros passos na ficção se deram com o Diário de um banana, de Jeff Kinney, fenômeno de vendas sobre o qual a Bienal 360o escreveu. A paixão da adolescente pelos livros é incontestável: aos 13 anos, ela criou uma biblioteca comunitária, o Mundo da Lua, no centro da comunidade Tabajaras e Cabritos, no Rio de Janeiro.

Já a trajetória de Porchat é um pouco diferente. Filho de pais leitores e escritores, ele cresceu em uma casa rodeada de livros. “Sempre via muita gente lendo”, contou. “Isso faz muita diferença para a criança, para o adolescente, porque tem uma coisa de imitação muito forte.”

O apresentador e ator também falou sobre a importância de os professores terem sensibilidade na hora de recomendar leituras para os alunos, citando como exemplo a experiência “chatíssima” que teve com Vidas secas, de Graciliano Ramos, aos 12 anos — uma obra muito pesada para aquela idade, segundo Porchat. Aos que dizem não gostar de ler, deixou uma observação: “Talvez você não tenha encontrado o livro certo”.

Otávio Júnior, por sua vez, tropeçou na literatura. Criado no Complexo da Penha, no Rio, o autor de Da minha janela (2019) e De passinho em passinho (2021) não podia jogar futebol porque era muito pequeno, então ficava perambulando pelos arredores do campinho — até que, um dia, trombou em uma caixa cheia na qual tinham brinquedos e um livro, que ele levou para casa.

Assim como Lua Oliveira, que há dois anos idealizou uma biblioteca comunitária e segue propagando o incentivo à leitura para outros estados, Otávio criou a Barracoteca. O projeto surgiu “para compartilhar livros com as pessoas da minha favela [Caracol, no Complexo da Penha]”, disse o autor d’O livreiro do Alemão (2011).

Todos os convidados da mesa em homenagem a Gilberto Braga; em destaque, no telão, Glória Pires e Fernanda Montenegro.

Homenagem a Gilberto Braga

Um dos autores de telenovelas mais famosos do Brasil, morto em outubro de 2021, foi tema do segundo encontro do dia. Para homenagear Gilberto Braga, reuniram-se o crítico Maurício Stycer e os autores Silvio de Abreu e Ricardo Linhares. A mesa, mediada por Bia Correa do Lago, ainda contou com a presença virtual de Glória Pires e Fernanda Montenegro — eleita, recentemente, para uma cadeira da Academia Brasileira de Letras.

Na apresentação do bate-papo, Rosane Svartman — uma das responsáveis pela curadoria do evento — lembrou que a Bienal não é somente dedicada aos livros, mas às histórias em geral. Por isso, alguém do calibre de Braga, responsável por “Escrava Isaura” (1976), “Força de um desejo” (1999) e “Insensato coração” (2011), entre muitos outros trabalhos produzidos ao longo de 40 anos, não poderia ficar de fora. A telenovela, afinal, é a “matriz narrativa latino-americana”, definiu Rosane.

Fernanda Montenegro começou falando do homenageado. A atriz carioca, que conheceu Braga nos anos 1970 e fez uma fala emocionada, participou de três novelas do autor. “Ele é o grande revolucionário das temáticas nas novelas”, disse, compartilhando com o público um pouco da trajetória de seu colega de trabalho, um autodidata formado pela “melhor literatura dramática”.

Já o caminho de Glória Pires se cruzou com o de Braga quando ela tinha apenas 14 anos, em 1978, na novela “Dancin’ days”. Além dessa participação inicial, ela contou que esteve em outros seis trabalhos do autor e lembrou como o autor era dedicado às obras que escrevia. “Ele cuidava da estrutura que ia levar toda novela com tanto zelo, com tantos detalhes”, disse.

Esse perfeccionismo talvez esteja ligado com o fato de que Braga era grande leitor de Honoré de Balzac, conhecido por sua prosa realista e cheia de detalhes. “Talvez Gilberto tenha alimentado dessa qualidade”, ponderou Glória, referindo-se à riqueza com que o francês construía seus personagens.

O roteirista Ricardo Linhares, que afirmou que Braga foi “o introdutor da vida contemporânea na telenovela brasileira”, lembrou a generosidade do autor e o fato de que ele realizava as coisas no próprio tempo, de maneira bem particular. “Se o Gilberto sentia que você gostava e estava aberto a aprender, ele ensinava tudo”, contou.

Maurício Stycer, responsável por continuar a escrever a biografia de Gilberto Braga após a morte de Artur Xexéo (1951-2021), autor original da obra, e Silvio de Abreu, envolvido há décadas com as produções da Globo e amigo próximo do homenageado da mesa, também deram seus depoimentos. “Nunca mais vou escrever novela na vida” é que Braga costumava dizer, contou Silvio, sem nunca cumprir a promessa.

Erika Hilton e Rene Silva, com o microfone, buscaram dar voz aos excluídos.

As vozes da maioria

A sociedade brasileira relega a maioria de sua população à margem. Mas, se essas pessoas “invisíveis” estão em maior número, por que é que não são ouvidas?

A partir desse questionamento, no terceiro encontro do dia, Edu Carvalho (mediador) conversou com a vereadora de São Paulo Erika Hilton, o criador do jornal Voz das Comunidades, Rene Silva, o antropólogo Juliano Spyer e Caco Barcellos, um dos jornalistas mais premiados do país.

Todos os convidados têm em comum o fato de que buscam dar voz aos excluídos. Para tentar entender melhor quem são essas pessoas dentro da sociedade, Edu Carvalho puxou a mesa com as perguntas: “O quê que hoje, no Brasil, é invisível? E o que a gente precisa tirar da invisibilidade?”.

Barcellos é quem iniciou o debate na Estação Plural. “Agora, ontem, há um ano e desde sempre a invisibilidade está na área mais habitada do país”, disse. “A invisibilidade está na faixa de renda inferior a dois salários mínimos”, explicou.

A vereadora Erika Hilton pontuou outros problemas. “A realidade brutal que assola a vida de 90% de mulheres transexuais e travestis é uma das coisas que estão invisíveis e devem se tornar visíveis”, disse. Ela ainda lembrou da dura realidade prisional e dos indígenas.

“O Brasil é composto de inúmeras invisibilidades humanas, subjetivas, que precisam ser colocadas no centro dessa discussão. No centro desta roda, para que a gente possa falar em humanidades”, refletiu.

O antropólogo Juliano Spyer não escondeu a própria realidade: “Falo como alguém visível, estudante da USP”. Enquanto morava na periferia, o que fez parte de sua experiência para a produção de uma pesquisa de doutorado, escutou de uma moradora: “Não tem nada para ser estudado aqui”.

Spyer lembrou, ainda, que as pessoas desconfiavam que ele era um policial naquele ambiente. Por que um homem branco e com escolaridade alta, afinal, estaria naquele ambiente fazendo perguntas?

Profissionais de diversas áreas discutiram o que é o amor.

O que é o amor?

“Amor é um tema que a gente acredita tão desgastado, mas ele se renova sempre”, começou a mediadora da penúltima mesa do dia, Renata Correa, antes de chamar ao palco profissionais de diferentes áreas: o filósofo Renato Nogueira, a influencer Krishna, o escritor Igor Pires, autor do best-seller Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente, e a psiquiatra Natalia Timerman, que também transita pela ficção.

Em um início bem direto, Renata citou duas definições do sentimento discutido na mesa, uma de Marçal Aquino (“O amor é uma doença sexualmente transmissível”) e outra de Lacan (“Amar é dar aquilo que não se tem a quem não pediu”), e já lançou a “bomba” para os convidados: o que é o amor?

A Bienal 360ª separou trechos das respostas — a de Igor Pires, segundo explicação do próprio autor, é parafraseando a definição da psicanalista Ana Suy:

Amor é o que se sustenta na diferença.
Igor Pires

Amor é aquele afeto capaz de costurar todas as emoções e todos os sentimentos.
Renato Nogueira

Amor é como viver um encontro entre nossa potência e impotência.
Natalia Timerman

Amor é o clichêzaço: o que dá sentido na vida.
Krishna

A mesa de encerramento da Bienal do Rio 2021 reuniram vozes LGBTQIAP+.

Vozes LGBTQIAP+

Na 36ª e última mesa da Bienal do Rio 2021, o escritor e jornalista Felipe Cabral — mediador do encontro e um dos curadores da 20ª edição do evento — levou em conta a dúvida que norteia os bate-papos da Estação Plural (“Que histórias a gente precisa contar agora?”) para reunir Amiel Vieira, Letícia Nascimento, Natalia Borges Polesso, Renan Quinalha e Samuel Gomes.

O que essas vozes LGBTQIAP+ acham que vem pela frente, considerando um recorte literário? O que ainda falta vermos nas livrarias? Foi a partir dessas dúvidas que Cabral, autor do romance O primeiro beijo de Romeu, passou a palavras aos convidados. “Uma pergunta simples, leve e fofa para abrirmos a conversa”, brincou o mediador.

A voz mais ligada à literatura da mesa abriu o debate. Em sua pesquisa de doutorado, Natalia Borges Polesso buscou literatura produzida por mulheres cis ou trans que se identificam como lésbicas. “Comecei a pesquisa com 25 autoras”, contou a autora de A extinção das abelhas (2021).

“Fiz um recorte de dois anos de busca e terminei com 584, das quais 252 são brasileiras. E tenho certeza que tem mais”, prosseguiu, pontuando que é uma produção que não sai por editoras grandes, o que diminui a visibilidade. A conclusão, então, foi que “as histórias existem, mas não circulam como devem”.

Samuel Gomes, autor de Guardei no armário (2020), levantou outro ponto: o de que as histórias das pessoas LGBTQIAP+ precisam circular não só nos livros, para que as pessoas possam conhecer os significados para além das siglas, de forma mais prática.

A reflexão de Gomes foi endossada por Amiel Vieira, presidente da Associação Brasileira Intersexo. Ele considera que as pessoas intersexo conquistaram espaço nas redes sociais, mas ainda não estão inclusas no cotidiano da sociedade. Já no campo da ficção, “falta uma história que olhe o contexto latino-americano. E não só história de ficção”, continua, mas “uma autobiografia intersexo”, por exemplo.

Para Renan Quinalha, autor de Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT (2021), há histórias escritas ou vividas, mas elas parecem soterradas. “Esse sempre foi um desafio: visibilizar, poder buscar essas histórias [LGBTQIAP+] e ter espaço para fazê-las circular”, ponderou.

“Apesar do momento muito ruim do país, do aumento de discursos de ódio e naturalização de violências, a gente vive um processo muito interessante de ampliação dessas vozes.”

Outro de ponto de vista foi levantado por Letícia Gomes, autora de Transfeminismo (2021) e apresentada como “mulher travesti, negra, gorda e nordestina”. Para ela, “o grande desafio é começarmos a contar histórias que nos permitam sonhar”, a fim de que se quebre esse modus operandi em que a mídia — e a própria literatura — parecem explorar somente as dores.