HQ de Marcello Quintanilha dá novos contornos à tragédia carioca

Em 2018, o quadrinista Marcello Quintanilha teve uma de suas HQs, Tungstênio, adaptada para o cinema pelo diretor pernambucano Heitor Dhalia, em um movimento ainda pouco explorado no Brasil: graphic novels indo parar nos cinemas.

Esse é um exemplo da força do trabalho de Quintanilha, um dos principais autores de quadrinhos do país. Agora ele retorna com uma nova história chamada Escuta, formosa Márcia, que faz uma espécie de “radiografia” da periferia carioca.

Se Tungstênio era situada em Salvador, na Bahia, Escuta, formosa Márcia, lançada pela editora Veneta, se passa em uma comunidade do Rio de Janeiro não identificada. A protagonista, a Márcia do título, é uma mãe solteira, enfermeira que passa por todos os perrengues que quem mora em um morro carioca conhece muito bem.

Ela trava uma batalha doméstica para disciplinar sua filha, a insubordinada Jaqueline. Apesar do auxílio de seu companheiro Aluísio, padrasto da garota, tudo parece inútil: Jaqueline não aceita se submeter a nada que a impeça de sair por aí e fazer o que quiser, sem dar satisfações a ninguém.

“O Brasil é minha principal fonte de inspiração”, diz Quintanilha. “Certamente isso se deve a tudo que me formou como ser humano, tendo crescido em um bairro operário de Niterói, durante os anos 1970 e 80. Me interessa sobretudo tratar experiências que vivi em primeira pessoa ou que foram vividas por pessoas próximas a mim. Nunca foi algo premeditado”, explica o autor, que vive há mais de 15 anos na Espanha.

Essa experiência pessoal do artista se revela essencial na história. Ele consegue imprimir alto nível de verossimilhança na narrativa. Os diálogos, marcados pela oralidade carioca, são convincentes e dão à história naturalidade e até certa leveza, apesar dos dramas narrados. 

Marcello Quintanilha, autor da HQ Escuta, formosa Márcia

Raio X Quintanilha

  • Nasceu em Niterói, em 1971
  • Publicou seus primeiros quadrinhos no final dos anos 80
  • Utilizava o pseudônimo de Marcello Gaú
  • Sua experiência entre a classe trabalhadora está em diversos de seus trabalhos
  • Luzes de Niterói é baseada na história de seu pai, jogador de futebol de times de sua cidade natal
  • Vive há mais de 15 anos na Espanha
  • É colaborador de jornais como El País
  • É influenciado pelo cinema de Vittorio de Sica, Orson Welles, D.W. Griffith e pela literatura brasileira
  • Em 2018, a HQ Tungstênio foi adaptada para o cinema
  • A história ganhou o prêmio Fauve Polar, principal honraria das HQs francesas
  • Em 2020, lançou seu primeiro romance, Deserama
  • Talco de vidro (2015), Hinário nacional (2016 — prêmio Jabuti) e Todos os santos (2018) são outras de suas HQs

Crônica

Uma das chaves para ler Escuta, formosa Márcia, pode ser a crônica de costumes. Aquele tipo de retrato que Nelson Rodrigues fez como ninguém ao narrar a “tragédia carioca” em suas peças de teatro, mas também nas crônicas com jeitão de conto que escrevia para os jornais do Rio.

Quintanilha não cita diretamente Nelson como influência para seu romance gráfico, mas diz que

“a literatura brasileira é uma referência constante”. “Escritores como Mário Filho [irmão de Nelson Rodrigues], Rubem Braga, Clarice Lispector e tantos outros sem dúvidas deixaram marcas indeléveis na minha forma de narrar.”  

Quintanilha faz sua radiografia por meio de personagens instigantes. Além da legítima heroína Márcia, a filha Jaqueline e o companheiro (de Márcia) Aluísio formam uma trinca poderosa. Aluísio, imerso em sua passividade, dá um tom cômico nas cenas em que aparece, tentando ajudar “como pode”, até que acaba se dando mal por conta da nebulosa história de Jaqueline, que se envolve com o crime organizado.

As cores usadas também chamam muito a atenção pela singularidade, que compõem com traço de Quintanilha sua já característica marca. As cores são bonitas e atrativas, mas também têm uma função narrativa, segundo o artista.

“Utilizei uma paleta que consiste em apenas 28 cores, cujos atributos de pigmentação não correspondem a seus equivalentes no mundo real, como forma de representar a progressiva desconexão com a realidade que vigora atualmente.”

Em um momento em que o Brasil vive submerso pelas mais diversas crises — sanitária, política, econômica, moral, cultural, etc. —, a HQ de Quintanilha pode ser lida também como uma obra “engajada”, o que autor de certa forma confirma. 

“Toda manifestação artística pode ter sua mera existência entendida como um tipo de engajamento nos dias que correm.”

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Escuta, formosa Márcia
Marcello Quintanilha
Veneta
128 págs.