Freud talvez explique: o brasileiro ama bisbilhotar a vida alheia

Que o Big Brother Brasil é um fenômeno, ninguém duvida. Em exibição desde 2002, o programa parece estar longe do fim. E a cada edição ganha mais capítulos. A atual temporada – que reúne famosos como Fiuk, Projota e Karol Conká – está bombando. Até para quem não é chegado ao reality show, fica difícil driblar as notícias sobre as tretas do programa. As redes sociais e mídias digitais estão tomadas por comentários sobre o BBB 21.

Famosos e anônimos transformam a casa do BBB num animado espaço de amizades, intrigas e muita discussão.

Com debates, discussões (os famosos barracos) sobre machismo, racismo, sexo, sexualidade, a temporada iniciada em janeiro registrou a melhor primeira semana do reality show desde 2014, com 25,2 pontos de média na Grande São Paulo.

O programa é um ótimo exemplo do voyeurismo de nosso tempo, de como nos fascinamos pela intimidade dos outros. O ser humano, em geral, ama infiltrar-se pela vida alheia. A ciência, mais especificamente a psicanálise, ajuda a explicar o fenômeno.

“O desejo de ver acompanha a história de nossa civilização”, diz a filósofa e escritora Marcia Tiburi. “Na psicanálise, o olhar é uma função que constrói o desejo. Quem seríamos sem o olhar? E o olhar remete ao desejo, mas também à inveja. Olhar vicia!”

Estamos o tempo todo observando e sendo observados, seja em lugares públicos ou privados, seja nas redes sociais. É o que Tiburi chama de “sociedade do espetáculo”, termo cunhado pelo francês Guy Debord. “Isso quer dizer que o voyeurismo é um tipo de prazer capitalista ao alcance da mão. Ou melhor, da tela da televisão. Trata-se de um tipo de consumismo. Em termos muito simples, para quem não pensa muito, olhar a vida do outro é um modo de se apropriar dela”, diz a autora de Filosofia prática.

Estima-se que as cotas de publicidade do BBB 21 devem render cerca de R$ 530 milhões nos 100 capítulos, entre 25 de janeiro e 4 de maio.

Freud explica o império do gozo do olhar

Para o psicanalista Antonio Quinet, Freud também explica. “Essa vontade de ver e ser visto, Freud chama de pulsão escópica. E a partir daí, eu cunhei a expressão sociedade escópica, que é a que vivemos. Ela é, ao mesmo tempo, a sociedade do espetáculo, onde há exigência de você se mostrar, com o propósito de ‘sou visto, logo existo’, porque você tem que aparecer, se mostrar, dar show, performar”, diz o autor de A política do psicanalista — Do divã para a pólis. “E ao mesmo tempo, há o voyeurismo. Então tem o exibicionismo e o voyeurismo. Essa sociedade é o império do gozo do olhar.”

O cinema e a literatura também são pródigos em retratar esse estranho desejo — e prazer — de mergulhar na intimidade alheia. Em uma das cenas mais engraçadas de Trainspotting, adaptação cinematográfica de Danny Boyle para o romance de Irvine Welsh, os personagens Sick Boy e Renton estão em um parque, com um binóculo, observando o que as pessoas fazem e divagando sobre a vida, em um diálogo interessante em que cabe quase tudo.

A cenaremete imediatamente a um clássico incontornável quando o assunto é o voyeurismo: Janela indiscreta, filme de Alfred Hitchcock lançado em 1954, com Grace Kelly no elenco e James Stewart no papel principal, como o fotógrafo L. B. Jeffries. Impossibilitado de sair de casa, em função de uma fratura na perna, ele passa seus dias a observar os vizinhos pela janela. A história filmada pelo mestre do suspense, vale lembrar, também veio da literatura, de um conto do americano Cornell Woolrich, publicado uma década antes em Janela indiscreta e outras histórias.

O Grande Irmão de Orwell

E, claro, em temporada de Big Brother Brasil, o inesgotável 1984, de George Orwell, sempre é lembrado. Afinal, o Grande Irmão criado pelo romancista inglês, que tudo vê e controla em uma sociedade distópica, é inspiração para o programa da Globo.

O livro de Orwell, publicado um ano antes da morte do autor, em 1949, é tão visionário que continua sendo reeditado, vendido e lido em ritmo de best-seller. A obra do autor entrou em domínio público no começo deste ano, o que elevou a oferta por seus livros, em especial 1984 e A revolução dos bichosvárias editoras brasileiras incorporaram as obras aos seus catálogos, com diferentes traduções.

Entre as principais “previsões” feitas por Orwell, a que mais surpreende são as teletelas, presentes em todos os ambientes públicos e privados. Alguma semelhança com nossa realidade, cercada de câmeras e guiada pelas telinhas de smartphones?

Em programas como o BBB, no entanto, são os telespectadores que “controlam”, “vigiam” e “punem” os confinados que vivem em uma microssociedade. Exatamente como o Grande Irmão faz em Oceânia, o país de 1984.

“O exemplo de 1984 é ótimo, e isso tomou proporções gigantescas”, diz Quinet. “Vivemos hoje um momento no qual todos os nossos dados são sabidos. A gente não tem mais intimidade nenhuma. Estamos expostos o tempo todo e isso é usado pelos governos, para manipular as pessoas, conhecer os gostos, enviar propagandas, fake news. As eleições de Trump e Bolsonaro são exemplos.”

Nos reality shows, assim como na obra de Orwell, não é permitido ler livros ou jornais. 1984 é uma crítica a um regime totalitarista, mas também pode se encaixar à nossa sociedade, que movida pelo voyeurismo, criou um ambiente ultravigilante.

Marcia Tiburi ainda lembra de outras obras que ajudam a entender o “desejo de ver”: Fahrenheit 451, livro de Ray Bradbury, e os filmes O show de Truman, de Peter Weir, e Videodrome, de David Cronenberg.