Flup: dez anos de resistência

A Flup — Festa Literária das Periferias está completando dez anos. Em comemoração, o projeto criado por Julio Ludemir e Ecio Salles (1969-2019) reuniu 180 nomes na coletânea Carolinas A nova geração de escritoras negras brasileiras, de 560 páginas, lançada pela Bazar do Tempo. Ao final desta matéria, que entrevistou Ludemir, leia depoimentos de seis autoras que integram o livro.

A primeira conversa sobre o que viria a se tornar a Flup aconteceu em julho de 2010, quando os dois amigos trocavam ideias em Nova Iguaçu (RJ). A edição que deu o pontapé inicial foi realizada em 2012, no carioca Morro dos Prazeres, com a “benção de Lima Barreto”, o primeiro homenageado da iniciativa.

Desde então, o projeto editou 22 livros de autores da periferia, revelou nomes como Geovani Martins, autor de O sol na cabeça (2018), e ganhou, entre outros prêmios, o Jabuti de 2020 na categoria Fomento à Leitura e o inglês Awards Excellence, em 2016, oferecido pela London Book Fair.

Julio Ludemir: “Há sempre uma nova periferia surgindo”. Foto: Francisco Costa

As “Carolinas”

Ao longo dos anos, além da trajetória de Lima Barreto, a Flup celebrou a vida e obra de Waly Salomão (edição de 2013), Abdias Nascimento (2014), Nise da Silveira (2015), Caio Fernando Abreu (2016), Oduvaldo Vianna Filho (2017), Maria Firmina dos Reis (2018), Solano Trindade (2019) e Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez (2020).

A autora de Quarto de despejo (1960) foi o ponto de partida para que, em uma iniciativa realizada desde a edição do ano passado do evento, que foi online devido à pandemia, 180 mulheres negras participassem de um processo formativo e acabassem se juntando em uma publicação impressa.

“É sempre difícil mensurar o impacto de uma obra, mas acho que essas mulheres vão ser lidas como a primeira geração, em números expressivos, de escritoras negras no país”, comenta Julio Ludemir, organizador do livro, lembrando que, apesar de ter mais de 50% da população negra, o Brasil sempre apostou em um mercado literário predominantemente branco.

Mesmo com receio de “incorrer no erro da vaidade”, Ludemir acha que a coletânea é um marco nesse cenário tão desigual e diz que o movimento para tentar equilibrar melhor a balança no mundo artístico parece acontecer — em grande escala — desde 2016, quando a internet promoveu a hashtag #OscarSoWhite (#Oscarstãobranco) em protesto ao fato de que a Academia havia indicado apenas brancos nas categorias de atuação. Pelo segundo ano consecutivo.

Público no segundo dia da Flup 2019, no Museu de Arte do Rio.

Da Cidade de Deus ao MAR

Depois de ser realizada na Cidade de Deus e no Vidigal, por exemplo, a Flup de 2019 aconteceu no Museu de Arte do Rio (MAR). Na ocasião do evento, de 16 a 20 de outubro, Ludemir lembra que foi confrontado: “Como é que você diz que tá fazendo um evento periférico no MAR, um museu frequentado fundamentalmente por mulheres de alta classe média, 30 anos, brancas?”.

Para o organizador, a resposta é clara: o museu vai ser periférico ou central dependendo da programação. “A gente levou toda periferia pro MAR”, diz Ludemir, segundo o qual 30 mil pessoas participaram do evento naquele ano, que começou marcado negativamente pela morte de Marcelo Yuka, fundador da banda O Rappa, e Ecio Salles, um dos criadores da Flup, ambos bem próximos de Julio.

Fases da literatura periférica

Se um evento criado inicialmente para disseminar a literatura nas periferias chegou ao Museu de Arte do Rio, uma área central, é possível dizer que a ficção tradicionalmente relegada à margem atingiu o mainstream? Em primeiro lugar, para tentar responder a essa pergunta, deve-se pensar sobre o que é uma literatura periférica.

“Há sempre uma nova periferia surgindo”, diz Ludemir. Quando a Flup foi criada, por exemplo, ainda segundo explicação do organizador, entendia-se por literatura periférica uma produção associada aos saraus e que “possivelmente estava dialogando com uma identidade ligada à virilidade de um homem da periferia, possivelmente negro”, em uma “estética mais Mano Brown” — em referência a um dos fundadores dos Racionais MC’s, notório por sua postura combativa e jeitão mais fechado.

Naquele momento, a Cooperifa — criada por Sérgio Vaz há duas décadas — parecia uma espécie de Meca da periferia e, no entanto, ainda existiam diversos debates identitários que não eram contemplados. “Em seguida, veio o slam, que herda o perfil da produção dos saraus, mas é mais concentrado na mulher. Na mulher negra”, diz Ludemir.

Após esse movimento, enfim, chega-se às tendências do momento — que, ainda de acordo com Julio, não foram assimiladas pelo mainstream: “O viés periférico vai para além da mulher negra, da mulher negra homossexual. Há uma urgência da produção LGBTQIA+”.

Participantes da Flup assistem ao show do Lenine, em 2019, na última edição presencial.

Ideias de periferia

Ao raciocinar sobre o que parecem ser etapas pelas quais a literatura periférica passou, o organizador da Flup conclui que, “à medida que determinada produção é assimilada pelo mainstream, surge uma nova ideia de periferia” — que é, afinal, “líquida, flexível”.

Ludemir lembra, por exemplo, que o que se entende tradicionalmente no Brasil por “poesia marginal”, em um movimento inaugurado — ou consolidado — pela coletânea 26 poetas hoje (1976), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, foi fruto de uma “geração praieira, branca e de classe média, que fumava maconha e trepava”.

Para ele, o importante a quem deseja escrever é que se produza coisas novas — “o mundo não está precisando de calígrafos, e sim de escritores que escrevam novas coisas, para novos leitores”. Para ilustrar bem a ideia, cita uma máxima que ouviu de Ana Paula Lisboa: “Se tiver no Google, não interessa”.

Pessimismo e planos

No momento, Ludemir está inquieto com a ideia de produzir, neste ano, uma Flup muito parecida com a de 2020 — que foi online e dialogou com periferias de todo o Brasil. “Não sou uma pessoa que vive em função do óbvio. Se algo vira óbvio, abro mão”, afirma.

Aliado à inquietude criativa, o combustível de Julio para seguir produzindo parece ser sua decisão de não cair no pessimismo. “Talvez eu seja muito pobre para ser pessimista”, diz.

“Quando sou pessimista, vejo que sou eu que vou morar na rua, morrer de fome. Com 61 anos não tenho aposentadoria, não tenho plano de saúde, casa própria, carro. Não tenho nada. Então, se for muito pessimista, vou estar confirmando que terei uma velhice trágica. (…) Não consigo ser pessimista.”

Depoimentos sobre a Flup

Meimei Bastos

Amo a Flup profundamente. Sou uma mulher negra, periférica, e ela sempre foi uma inspiração para mim. Um sonho, na real. Um sonho que tive a alegria de realizar em 2018, em 2019. E, em 2020, tive a honra de participar da formação que resultou na coletânea Carolinas. A importância do livro é gigantesca. Hoje, talvez, a gente ainda não tenha noção da dimensão dessa obra. Adianto que é algo histórico. Porque, dentro da história da literatura brasileira, temos poucas publicações de autoria negra. O grupo de homens brancos, de classe média alta, dominou a história literária do nosso país, enquanto a produção negra estava muito atrás. E não por falta de escritos ou capacitação, mas porque não tinha espaço para os nossos trabalhos. E aí, imagina só: uma coletânea que traz 180 escritoras negras de diversos lugares do Brasil. É muito potente. Ainda mais que essas autoras foram mobilizadas e inspiradas na produção e na história de Carolina Maria de Jesus. É algo gigantesco, muito importante. Muito importante porque rompe um ciclo de inacessibilidade, rompe um ciclo de silenciamento, de não ter muitas histórias nossas contadas por nós. É uma obra importantíssima para a história do Brasil, ainda mais nesse momento em que o governo taxa livros e libera armas.

Meimei Bastos é autora do livro Um verso e mei (2017). Graduada em Artes Cênicas e mestranda em Culturas e Saberes, pela Universidade de Brasília (UnB), coordena o espaço cultural “CARACAS, véi”.

>>>

Mery Onírica

Conheci a Flup em 2012. “Galera pode participar do curso para ser escritor”, dizia o anúncio no jornal Expresso. A partir desse dia, minha vida se transformou num farelo do saber. Participei e participo de quase todas as coletâneas da Flup e acredito que estar entre as 180 escritoras negras do livro Carolinas, uma das grandes obras-primas editadas pelo projeto, ajudou muito minha escrita. Amo tudo que a Flup representa.

Mery Onírica, pseudônimo de Maria Inez, é prosadora e poeta formada pela Festa Literária das Periferias. Participa do grupo Sarauzeiras Oníricas.

>>>

Samara Costa

Carolina Maria de Jesus me convocou à escrita. O processo de conhecer mais sobre ela foi uma girada de chave. A imagem marcada pela subalternidade, que é muito recontada, deu lugar a outras representações. Carolina era mulher pobre, vaidosa e que também tinha desejos. Ver Carolina de outras formas, a identidade verdadeira dela, me possibilitou novas leituras e novos encontros comigo mesma. Sem dúvida, a condução da Ana Paula Lisboa, escritora que orientou o processo, desmistificou algumas relações que eu tinha com a minha forma de escrita. Ler os textos de outras mulheres pretas, de idades e territórios diferentes, me fez encontrar narrativas desconhecidas por mim. Em toda minha vida, nunca me reuni com tantas mulheres pretas para construir algo. Foi um ciclo de reorientação. Esse vínculo virtual me permitiu um encontro real comigo mesma e, consequentemente, resultou em Diaspórica, o texto que assino na coletânea.

Samara Costa é artista multidisciplinar e roteirista. Autora do curta-metragem Grávida de mim mesma, cursa Estética e Teoria do Teatro na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e é formada em Artes Dramáticas pela Escola de Técnica de Teatro Martins Penna.

>>>

Jamile Menezes da Silva

Encontrei um post sobre a proposta do processo da Flup nas redes sociais, fiz uma breve pesquisa e decidi mergulhar na “Revolução Carolina”. Só não tinha dimensão da grandiosidade dessa oportunidade. Ter contato, mesmo que virtualmente, com mulheres entre 17 e 61 anos, transformou minha percepção enquanto mulher preta. “Cuide de seu Ori” foi a frase que mais escutei em 2020. Com muita consciência e responsabilidade religiosa, digo que participar do projeto me proporcionou esse cuidado. Conviver com elas trouxe sentindo ao meu “lugar de fala”; seja no sentido político, seja na forma como me percebo enquanto mulher, mãe e profissional da educação. Minha vida atravessa uma estrutura racista que Carolina já denunciava em seus escritos. Os silêncios de outrora tornaram-se palavras fincadas na história. Esse é o sentido de participar da Flup e ser uma das autoras do livro Carolinas.

Jamile Menezes da Silva, nascida e criada em Ilhéus (BA), é professora antirracista. Idealizou o projeto “Escritoras negras: minha história; nossas histórias”, que compõe as dez propostas selecionadas pelo Edital Igualdade de Gênero na Educação Básica, organizado pela Ação Educativa e apoio da Fundação Malala.

>>>

Sacha Faustino

A experiência da Flup foi muito desafiadora para mim. Como policial militar não sabia como seria recepcionada. Mas, sabendo que precisamos romper nossos medos e barreiras aparentes, me lancei no projeto. Foi uma das melhores coisas que me aconteceram no ano de 2020 — um ano tão difícil, de tantas perdas. A cada reunião, me encontrava comigo mesma e naquelas outras mulheres pretas enxergava a minha própria história. Me doava a ouvir as várias narrativas naquele aquilombamento de afetos chamado “Quilombo Dona Carolina”, espaço onde dei e recebi amor, respeito, força e resiliência para não esquecer quem sou, de onde vim e o que busco alcançar no futuro. Tenho aprendido que o futuro é ancestral. E dele colhemos as sementes para o amanhã.

Sacha Faustino é capitã da Polícia Militar do Espírito Santo. Bacharel em Direito, cursa Ciências Sociais e sonha em criar um Clube de Leitura, para que um maior número de pessoas tenha acesso ao poder das palavras.

>>>

Juliana Berlim

A Flup de 2020 foi a abertura para um portal de sonhos. Dividi live com Sirlene Barbosa e Luana Tolentino durante o ciclo formativo, fiz amigas escritoras no Brasil e no mundo e conheci meu orientador, Itamar Vieira Junior, tudo por causa deste projeto que culmina no caudaloso Carolinas, que leio todo dia aos bocados, como quem sorve mel.

Juliana Berlim é professora de Língua Portuguesa no Colégio Pedro II. Mestre em Ciência da Literatura pela UFRJ. Publicou literatura no Brasil e no exterior.

>>>

Carolinas — A nova geração de escritoras negras brasileiras
Org.: Julio Ludemir
Bazar do Tempo
560 págs.