Flup: 10 anos de existência e resistência

Em 2021, a Flup – Festa Literária das Periferias – completa 10 anos. Ao longo desse tempo, o evento se tornou internacional. Sua principal característica é acontecer em territórios tradicionalmente excluídos dos programas literários na cidade do Rio de Janeiro. Em 2020, devido à covid-19, a Flup foi realizada em plataformas digitais, o que fez a festa transcender territórios e impactar o Brasil e mais sete países.

A mesa deste sábado, às 17h, foi para celebrar, mas também para criar consciência e firmar resistência, mostrando que a literatura e arte não são apenas consumidas, mas também produzidas por pessoas de diferentes classes sociais e moradoras de todas as regiões do Rio.

A escritora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda contou que a Flup foi ideia dos produtores culturais e escritores Julio Ludemir e Écio Salles, entusiastas da cena cultural das periferias cariocas. Naquele momento, ela sentiu que a ideia era moderna e necessária, pois se tratava de dar visibilidade a criadores que não tinham acesso à já consagrada Flip. 

Écio, que morreu em 2021 de câncer, também foi homenageado pelos integrantes da mesa.

Ana Maria Machado, que participou das 20 edições da Bienal, era a presidente da Academia Brasileira de Letras quando foi procurada pela dupla Ludemir e Salles. A decisão de apoiar o projeto foi imediata.

Na mesa também estavam presentes os quatro personagens da primeira geração da Flup: Jessé Andarilho, Rodrigo Santos, Yasmin Thayná e Monique Nix. Todos trouxeram as lembranças daquela noite mágica no Casarão dos Prazeres, em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Premiada cineasta e roteirista, Yasmin relembrou a peça que foi encenada em homenagem a Lima Barreto no primeiro encontro da Flup. Barreto foi escritor e jornalista de posição combativa em favor da igualdade social. 

Visivelmente emocionado, Andarilho, autor de “A escrita, a cultura e o território”, e de poesias publicadas no Blog da Companhia, disse que sua vida mudou quando leu a obra de Ludemir. Ex-morador da comunidade de Antares, na Zona Oeste, Jessé transformou o antigo posto policial local em biblioteca com mais de 10 mil livros, hoje frequentada por crianças e jovens.

Monique Nix, autora de “Poemas em Linha Reta”, “Nefelibatismo” e “Livreto MONIX”, além de antologias, disse ter sido uma criança extremamente tímida, mas que depois de se apresentar em um sarau na biblioteca de Manguinhos, aos 17 anos, não parou mais. Hoje, ela administra um centro cultural na Lapa.

Rodrigo Santos, autor de Macumba e Carcará, disse que o livro o salvou. 

“Minha vida não era boa, então eu usava os livros como forma de escapismo. Mas eu não me via representado naquelas páginas.” 

Rodrigo gostava de escrever poesias e, paralelamente à carreira militar, organizava saraus em São Gonçalo, onde nasceu e viveu. Ludemir assistiu a um desses eventos e o convidou a participar do primeiro encontro da Flup. 

Nas palavras do próprio Rodrigo, o coletivo formado pela Flup transformou a vida de todos ali presentes.

“Não se trata de network, mas sim de rede de afetos.”