Filme realça grandeza do romance A filha perdida, de Elena Ferrante

Elena Ferrante continua pop e dando muito o que falar. No apagar das luzes de 2021, no último dia do ano, a Netflix lançou A filha perdida, longa dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal a partir da obra homônima da autora italiana que assina sob o pseudônimo de Ferrante.

O que foi o suficiente para manter viva a chama da “febre Ferrante”, uma onda que tomou conta de leitores do mundo todo. Ferrante deve ser uma das poucas autoras no mundo que teve absolutamente todas as suas obras transpostas para o cinema. Em se tratando de uma escritora com tantos fãs, um filme sobre algum de seus romances, entre críticas e aplausos, sempre mobiliza.

Mas desta vez, para alívio de Maggie Gyllenhaal, o saldo é mais que positivo. Se, como pontua o velho ditado, o livro é sempre melhor que o filme, neste caso a adaptação está no mesmo degrau que o romance, consideradas todas as diferenças de linguagem.   

Mas livro e filme convergem ao colocar em discussão uma série de questões caras à maternidade e à liberdade das mulheres no século 21. Ambos se guiam por “verdades” dolorosas sobre esses assuntos. Em uma visão de mundo pouco recorrente.

Olivia Colman interpreta Leda.

Romance

A filha perdida foi lançado originalmente em 2006 e é o terceiro romance de Ferrante, que se consagrou por sua série napolitana (quatro romances em sequência), esta também uma adaptação bem-sucedida para a TV que vai para a terceira temporada.

A filha perdida acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de 48 anos, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. No filme, claro, a liberdade artística proporciona mudanças, como a do cenário, passado em uma praia da Grécia. E desta vez a adaptação é falada em inglês, e não italiano.

Logo nos primeiros dias na praia, Leda volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca — que a certa altura, assim como a menina, some.

Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.

Ainda que no filme a atuação exuberante de Olivia Colman torne as atitudes de Leda mais impactantes, o livro é muito mais cortante e direto que o roteiro. Professora de Literatura Comparada, Leda, quando jovem, se vê sufocada pela vida estressante que leva em casa, tendo que tomar conta de duas crianças e ao mesmo tempo se dedicar à sua carreira — que é claramente o que mais importa para ela na vida. E quando ela encontra um novo amor, tem a oportunidade ideal para viver “plenamente” essa vida.

“Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas”, escreve Ferrante na voz de Leda. “A casa estava arrumada, como se ninguém morasse ali, eu não precisava mais me preocupar o tempo todo em fazer compras ou lavar a roupa suja, a mulher que havia anos me ajudava nas tarefas domésticas conseguiu um trabalho mais rentável, e não senti necessidade de substituí-la.”

A filha perdida: Filme x livro

  • O romance de Elena Ferrante foi lançado em 2006
  • O filme é dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal
  • O longa se passa na Grécia; o romance, na Itália
  • A atuação de Olivia Colman tem sido elogiada
  • A filha perdida foi escrito antes da “tetralogia napolitana”
  • Elena Ferrante fez elogios ao longa

Pontos de vista

Para a maioria dos leitores, as atitudes de Lena, que prefere um caminho não convencional em relação à maternidade, são corajosas, e não egoístas — apesar de a personagem mesmo admitir isso em uma cena do filme.

Independentemente do ponto de vista de cada um, tanto filme quanto livro abrem caminhos para discussões necessárias em um tempo onde o papel da mulher tem sido redefinido. Um momento de transição, necessário, mas que ainda gera estranhamento. O que fica explícito na frase que fecha um dos capítulos de A filha perdida: “As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender”.

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A filha perdida
Elena Ferrante
Trad.: Marcello Lino
Intrínseca
176 págs.