Fantasia, horror e histórias de crimes na Bienal do Rio 2021

Um dos papéis da ficção é oferecer repouso para quem deseja fugir um pouco da realidade. Outra função importante é fazer o leitor refletir criticamente sobre a existência, oferecendo enredos fantásticos e formas lúdicas de se avaliar a vida, o universo e tudo mais. É justamente o que a literatura faz de melhor, e isso a Bienal do Rio sabe muito bem.

Na 20ª edição do evento, que acontece de 3 a 12 de dezembro (ingressos à venda), três bate-papos da “Estação Plural” — todos realizados no dia 5 de dezembro, em um espaçocriado para fomentar debates sobre os mais diversos assuntos — trazem nove convidados (presencial e virtualmente, do Brasil e exterior) que estão diretamente ligados à recriação ou interpretação do mundo por meio da arte, seja na escrita ou no audiovisual. As mesas e os participantes são:

Fantasia e Tormenta (13h)

  • André Vianco
  • Karen Soarele
  • Leonel Caldela
  • Raphael Draccon

Horror nosso de cada dia (15h)

  • Josh Malerman
  • Mariana Enriquez
  • Matt Ruff

Ficção e realidade no crime (17h)

  • Raphael Montes
  • Ivan Mizanzuk

Para dar uma amostra do que vem por aí, a Bienal 360º conversou com alguns dos mediadores dos encontros: o editor Guilherme Dei Svaldi, fundador da Jambô, a diretora e escritora Mariana Jaspe, uma das roteiristas da série sobre Marielle Franco (1979-2018) que está em produção, e as criadoras do podcast Modus Operandi, Carol Moreira e Mabê Bonafé.

Carol Moreira e Mabê Bonafé, mediadoras da mesa “Ficção e realidade no crime”.

Amantes do fantástico

O fato de ter criado uma editora voltada para a publicação de livros de fantasia, jogos de RPG e quadrinhos mostra o comprometimento de Guilherme Dei Svaldi, que estará à frente da mesa “Fantasia e Tormenta”, com a fabulação — essa que, segundo o mediador, nos ajudou a “superar esses dois últimos e difíceis anos”.

De acordo com Guilherme, a reunião de André Vianco, Karen Soarele, Leonel Caldela e Raphael Draccon, “quatro dos maiores escritores nacionais da atualidade”, “será o ponto de encontro dos amantes de literatura fantástica”.

O público pode esperar um bate-papo descontraído e terá a oportunidade de conhecer um pouco do processo criativo desses ficcionistas que, independentemente de onde ambientam suas histórias, o fazem de uma perspectiva brasileira — “o que gera muita identificação por parte do público”, comenta Guilherme.

“Os personagens refletem nossa identidade, com angústias e aspirações que espelham as nossas, enquanto as histórias utilizam medo e magia para construir analogias para temas que são importantes para nós”, completa.

Guilherme Dei Svaldi, mediador da mesa “Fantasia e Tormenta”.

Criadores e criaturas

A mesa “Horror nosso de cada dia”, conduzida por Mariana Jaspe (ao lado de Dennison Ramalho), cumpre uma das principais funções da “Estação Plural”: pensar a realidade de forma crítica. O objetivo não é deixar o público inerte na zona de conforto, mas também não pretende aterrorizá-lo.

A produção ficcional da argentina Mariana Enriquez, autora de Nossa parte de noite, e dos norte-americanos Matt Ruff e Josh Malerman, que assinam Território Lovecraft e Caixa de pássaros, respectivamente, cumpre a difícil tarefa de transmutar o horror da realidade em narrativas envolventes.

Segundo Jaspe, o que une o trabalho desses escritores é a capacidade de “transformar esse terror contemporâneo, o terror nosso de cada dia, esse medo que a gente sente do mundo, do outro e de nós mesmos em arte. E, por ser arte, possibilitar que a gente acesse esses medos e talvez, quem sabe, encontre a cura”.

Mariana Jaspe, uma das mediadoras da mesa “Horror nosso de cada dia”.

A violência na ficção

Na mesa “Ficção e realidade no crime”, Carol Moreira e Mabê Bonafé conversam com Raphael Montes, um dos maiores representantes da literatura policial contemporânea, e Ivan Mizanzuki, criador do podcast Projeto Humanos, que conta histórias reais sobre pessoas reais.

Em um país tão violento quanto o Brasil, no qual parece valer a máxima de que a realidade é mais estranha que a ficção, a literatura é uma maneira de refletir sobre diversas questões sociais — essas que “às vezes não recebem a abordagem necessária ou não são nem faladas na grande mídia”, segundo Carol e Mabê.

É o que o trabalho de Montes, autor dos livros Uma mulher no escuro (2019) e Dias perfeitos (2014), entre outros, parece fazer. “De uma forma que entretém do início ao fim, Raphael consegue criar uma ambientação de horror que, ao mesmo tempo que apavora, nos faz refletir”, dizem as mediadoras, que também estão à frente do projeto Além do Crime.

Já no campo do real, Mizanzuki — nos episódios de seu podcast — consegue abordar temas espinhosos “de forma responsável, tomando o cuidado para narrar a história de forma imparcial”, explicam Carol e Mabê. “Conseguir fazer isso de forma didática, e manter a narrativa interessante, é desafiador. Mas ele superconseguiu.”