Em um mundo tão desigual é possível coexistirem o feliz poeta e o esfomeado?

A Estação Plural se tornou um sarau de poesias neste oitavo dia de programação da Bienal do Livro Rio. Os poetas convidados Luciene Nascimento, Akapoeta, Michel Melamed e Tom Grito falaram sobre suas escritas recentes e de que forma traduzem para seus trabalhos o que sentem e vivem atualmente.

Em tempos permeados de incertezas, a poesia, segundo os escritores, é apresentada como afirmação de existência e resistência. E os poetas, independentemente de suas origens e trajetórias, acionam a poesia para re (existir) às adversidades sociais, políticas e também afetivas que os visitam.

“É impossível, nos tempos atuais, não falar do ordinário que está tomando conta de tudo. Em meu twitter, eu passei um tempo só retuitanto os absurdos do governo e isso estava me fazendo mal. Conseguir ter sensibilidade para perceber a beleza das coisas simples é necessário, é manter a poesia no olhar, apesar de tudo. Como disse o poeta Emmanuel Marinho: ‘Poesia não compra sapato, mas como andar sem poesia?”, indagou Michel.

Para Tom Grito, a poesia tem sido uma resistência política, pois, através dela, se manifesta sobre temas, como opressões para pretos e para pessoas LGBTQIA+: “A nossa resistência garante o futuro das próximas gerações”, disse o poeta.

Akapoeta diz acreditar que (re)existir é existir duas vezes: “A poesia é um eco que cria um círculo de resistência e permanência”, explicou.

Ao escutar de um admirador o comentário “Você milita com ternura”, a primeira reação de Luciene foi de negação. Mas, com o tempo, segundo ela, a frase ficou reverberando em sua mente, até ela entender que poderia ser algo estratégico: “Se é assim que eu chego ao outro, está tudo bem. Eu entro na mente da pessoa de uma maneira branda, mas posso fazer um estrago lá dentro. Então eu não quis jogar fora a minha maneira de criar”, disse a poeta.

Sobre o papel da internet e das redes sociais para a poesia, Michel, Akapoeta e Luciene acreditam no poder de alcance que elas proporcionam. Tom, no entanto, prefere a poesia falada:

“Eu acredito na oralidade, no grito, na palavra viva na rua. Eu também acredito no livro e na internet, mas sobretudo no olho no olho, no toque, no reencontro. A poesia falada é ainda mais inclusiva, como para os analfabetos, que podem sentir e criar”, afirmou.

Para Luciene, a escrita muitas vezes é bloqueada pelo medo e insegurança: “Eu sempre achei que a poesia era algo menor nos gêneros literários. Mas depois de um tempo, eu entendi que eu pensava assim porque era justamente o que eu fazia: poesias. Ao compreender isso, eu entendi que tudo passava pela minha autoestima. Então eu digo para quem guarda textos nas últimas folhas do caderno, para quem esconde suas criações: olhem com carinho para seus textos. Da mesma forma que não dá pra enfrentar o racismo se você se odeia”, concluiu.