Em relato emocionante, médica brasileira revela como ajudou a aprovar vacina contra Covid-19

As marcas da pandemia de Covid-19 ainda serão sentidas durante anos, décadas, séculos, talvez. Em seu rastro de dor, algumas histórias, no entanto, fazem crer que o nosso planeta pode ser um lugar mais humano.

Esse é um dos sentimentos que desperta no leitor História de uma vacina, relato em primeira pessoa da médica brasileira Sue Ann Costa Clemens, que coordenou o programa de testes da vacina Oxford/AstraZeneca em mais de 10 mil voluntários brasileiros.

“Moro em Siena, na Itália, onde implementei e dirijo o primeiro mestrado em vacinologia do mundo. Cheguei ao Rio no final de fevereiro de 2020, acreditando que faria uma breve passagem para depois seguir rumo ao Panamá, onde eu coordenava testes de uma nova vacina para a poliomielite.” Assim tem início o relato de Sue Ann, em uma narrativa intimista e simples.

“Encontraria meu marido, Ralf Clemens, que, como eu, é médico e especialista em vacinas. Não sabíamos, é claro, que a pandemia nos deixaria presos. Cancelamos os compromissos e, de casa, passamos a acompanhar a rápida evolução dos casos.”

Em menos de um ano, Sue Ann Costa Clemens levantou do zero o financiamento, as equipes técnicas e até mesmo algumas das instalações por onde passaram os voluntários dos testes da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil. E é essa história, cheia de percalços e emoções, que ela narra.

Sue Ann Costa Clemens, autora de História de uma vacina. Foto: Leo Aversa

Retrospectiva

O primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil foi registrado em 26 de fevereiro de 2020. Em maio, quando o imunizante ainda estava em desenvolvimento, o país se adiantou na decisão de assinar contrato com a AstraZeneca para o fornecimento da vacina que viria a desempenhar papel tão crucial na proteção das pessoas ao redor do mundo.

Com financiamento do governo do Reino Unido, a Universidade de Oxford, em parceria com a AstraZeneca, produziu um imunizante em velocidade recorde.

Em todo o processo, foi fundamental a pesquisa contínua para determinar a eficácia da vacina e a melhor estratégia de aplicação. Os testes clínicos começaram cedo no Brasil e, graças à incrível diversidade da população, mostraram à comunidade científica muito mais do que seria possível se o trabalho fosse desenvolvido apenas nos limites do Reino Unido.

“Para os testes clínicos de uma vacina, uma curva epidemiológica ascendente é a oportunidade mais ágil de avaliar a eficácia do produto, já que muitas pessoas estão expostas ao vírus em um curto espaço de tempo”, diz em seu relato Sue Ann.

A médica brasileira enxergou esse potencial, colocou em curso os testes e rapidamente formulou novas ideias sobre o que a ciência ainda precisaria aprender. Foi um trabalho meticuloso e a trajetória de Sue Ann a colocou na condição de desempenhar esse papel crucial.

Sua ampla experiência se provou fundamental em um momento histórico sem precedentes. Hoje, mais de 1 bilhão de doses da vacina Oxford/AstraZeneca já foram distribuídas globalmente. Dificuldades técnicas, falta de vacinas, entraves burocráticos e políticos dividem as páginas com as vitórias da pesquisa e a superação diária de um time de profissionais formado sobretudo por mulheres — dos seis centros de testagem brasileiros, quatro tinham liderança feminina.

O Brasil no centro do estudo

Médica, professora e pesquisadora, Sue Ann foi responsável por liderar os estudos dos seis centros de testagem do imunizante instalados nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Porto Alegre e Santa Maria.

Foi um empreendimento que fez do Brasil peça fundamental para a comprovação da eficácia da vacina, possibilitando a agilidade das aprovações de uso ao redor do mundo e abrindo portas para garantir a oferta de doses para o país. O estudo no Brasil foi a faísca que despertou as discussões sobre um acesso mais rápido às vacinas para a população brasileira.

O assunto por si só, claro, merece atenção, mas História de uma vacina é contado de uma maneira tão emotiva que a narrativa se equipara em importância ao tema. Não é o relato frio de uma especialista, mas sim um relato que mistura aspectos pessoais e emotivos a um trabalho que também estava envolto em grandes emoções — e muita responsabilidade.

Quem é Sue Ann Costa Clemens

Pediatra, professora e pesquisadora, é especialista em vacinas. Chefe do comitê científico do Instituto Médico da Fundação Bill e Melinda Gates, docente de Oxford, do Instituto Carlos Chagas, criadora e diretora do primeiro mestrado em vacinologia do mundo, na Universidade de Siena, onde é docente e Chefe do Departamento de Saude Global.

Há duas décadas atua na indústria farmacêutica, tendo contribuído diretamente para o desenvolvimento de vacinas cruciais como a do rotavírus, HPV, entre outras e vacinas contra a Covid-19, entre elas as dos laboratórios AstraZeneca, Clover e CureVac.

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História de uma vacina
Sue Ann Costa Clemens
Intrínseca
208 págs.